Por acaso dia 9 de Julho não é o dia do Pai, mas é o dia do meu Pai.
Pensei, eu nunca dou presentes de jeito, e este ano nem tive tempo para encontrar aquela prenda, além do mais tenho medo de ter metido o postal no marco do correio errado.
Porque não escrever um texto dedicado ao meu pai?
Que outra pessoa além da minha mãe merece tanto um pequeno texto de agradecimento senão o meu pai?
E se desse para embutir isto em prata ai sim é que era, mas é difícil.
Não faço ideia porque comecei deste modo algo que é suposto ser uma dedicatória e ao mesmo tempo um sinal de agradecimento ao meu pai, talvez por me sentir pouco à vontade em partilhar certo tipo de sentimentos que fazem de mim um ser humano credivel.
Muitas vezes o que se sente não se explica e o amor que se tem por um pai, não é dos mais fáceis de explicar, é um amor que só um pai consegue ler nos olhos de um filho, que só um pai consegue ler desde que o filho mal abria os olhos, até conseguir ver o filho com os olhos a brilhar com a mesma intensidade ao partilhar a mesma aventura que é a paternidade.
Correndo o risco de me faltarem adjectivos bajuladores, limito-me a dizer quem é o meu pai a meus olhos.
Filósofo de mente branda, convicto do seu saber, crente no aprender com os outros.
Leitor compulsivo, devorador de páginas de matérias das mais diversas formas, um conhecedor da literatura por excelência.
Um apreciador de artes, das mais diversas formas, música, cinema, pintura, com um conhecimento vasto em todos os campos, alguém que se cultiva por puro gosto e prazer, e que incutiu esse mesmo espírito em todos os seus filhos.
Amante fervoroso de tudo a que se dedica, com uma paciência de outro mundo própria de um velho mocho sábio de barbas grisalhas, nunca desiste, com uma insistência incrível, apenas igualável a uma reflexão sempre comedida e ponderada de forma clara.
Excelente apelador da razão, um lógico nato, com tendência para a divagação na exemplificação de como se deve viver a vida, em constante movimento circular, em pensamentos profundos sem nunca perder o sentido ascendente e frontal.
E farto de qualidades estou eu, tudo muito formal, o meu pai é o meu ídolo, é como ele que eu sempre quis ser, uns miúdos queriam ser policias, bombeiros, e doutores, juízes e aviadores, eu sempre quis ser como o meu pai.
O meu desejo sempre foi viver como viveu o meu pai, sempre para os outros, retirando dessa vivência toda a felicidade, o meu pai vivia para aqueles de quem gostava, dava tudo e mais alguma coisa a quem lhe pedia e não pedia, vivia para ver alguém sorrir.
É assim que eu quero viver, quero viver para a família e amigos, quero viver para quem importa, não preciso de sonhos pessoais, faço deles a alegria e união de uma massa de gente de quem dependo para sorrir.
Queria ser como o meu pai, culto, engenhoso, conhecedor da vida, bom aluno da vida, bom professor da vida, um apreciador da vida na sua forma mais pura, o carinho e afecto pelos seus.
Gostava de um dia preparar os meus filhos para a vida como o meu pai preparou, o meu pai não pescou por mim, ensinou-me a pescar, utilizando este velho cliché, ele nem me ensinou a pescar da forma que ele pescava, apenas disse o que deveria fazer, e simplesmente era acreditar em mim, nas minhas capacidades, e naqueles que me rodeiam e me amam.
Acho que por esse facto, ele se saiu tão bem em tudo o que faz, só pecando no excesso de bondade e brandura como lida com as pessoas, tornando-o afável demais para quem o realmente conhece.
Apesar de tudo o meu pai sempre inspirou uma figura de respeito, como se fosse uma figura paternal ao bom estilo Romano, o Bonus Pater Familia, o bom pai de família, a quem não se respeita por medo, mas apenas por dedicação e carinho, alguém que conquistou o nosso respeito mostrando que nos respeita e trata como iguais, mesmo quando ele é especial.
O meu pai é o melhor pai do mundo, como se calhar para outras pessoas o seu pai é o melhor do mundo, mas eu digo isto com uma confiança tal, talvez exacerbada pelo momento, mas é sem dúvida o melhor pai do mundo para mim, um exigente e trabalhoso filho.
Ao meu pai devo tudo, ao meu pai devo quem sou, ao meu pai devo o que sei de ser, no meu pai confio de um modo incondicional, o meu pai é o meu melhor amigo, o meu pai é a minha consciência que me orienta para um futuro que decerto me irá sorrir pelo simples facto de o meu pai ter-me ensinado a sorrir para a vida e para o futuro.
Não era nada disto que eu queria, o meu pai merecia muito mais, mas sinto a pendência de algum egoísmo dentro de mim que não quer partilhar os sentimentos mais profundos que tenho pelo meu pai, por isso fico-me pelos mais superficiais.
Parabéns Pai, obrigado por tudo, mesmo que muitas vezes não saiba corresponder como merecia, obrigado, por me fazer saber que mesmo não sendo o filho que deveria ser, serei sempre o seu filho e que me é dado o mesmo valor fosse eu quem fosse ou como fosse.