Sinto os sons, sinto a textura do ar, sinto tudo em meu redor antes de abrir os olhos.
Estou a acordar e sinto a minha alma a se espreguiçar, sento-me na cama, um bocejo, pouso os cotovelos nos joelhos e encolho a cabeça de forma a apoia-la nas mãos, esfrego a cabeça e levanto-me com um suspiro, mais um dia.
Num dia normal, quebro a rotina do dia anterior alternando sempre na primeira coisa a fazer, entre ir à casa de banho ou ao computador, ligar a tv nas noticias, ou abrir a janela e sentir um pouco do ar que entra directamente nos pulmões.
Olho para o telemóvel, vejo onde estão colocadas as coisas, meramente por hábito, e na esperança de ver algo diferente como prenuncio de um novo dia, mas por incrivel que pareça as coisas estão sempre colocadas no mesmo sitio desarrumado e pouco prático.
Espero uns segundos para adaptar a alma ao corpo, tento fazer as coisas com calma e com tempo, visto que tempo hoje em dia não me falta a não ser quando dele necessito.
Tomo banho e visto-me independentemente do que vá fazer, espreito sempre pela janela como está o mundo lá fora, para que possa decidir o que vestir, quase sempre é ao calhas, é mais um dos estúpidos hábitos que não têem efeitos práticos.
Acabado de vestir e pronto para pensar no que vou fazer, paira sempre a certeza de que não vai variar muito de ontem, que independentemente dos planos que tenha feito, o dia de hoje será uma reposição do dia de ontem, e o pay per view de amanhã.
Dou uma voltas pelo quarto, não sou pessoa de ficar sentado muito tempo, e penso como gostaria que o dia fosse, e como nunca acaba por ser, por muita influencia psicológica que eu empregue.
Um destes dias acordei de modo diferente, não senti sons, nem a textura do ar, estava com os sentidos adormecidos por uma tristeza inexplicável, nem tinha aberto os olhos e mal me tinha sentado na cama, senti uma lágrima a escorrer pela face, de suave levei dois dedos ao rosto e senti a lágrima compacta entre o indicador e o polegar, senti a sua textura, senti a sua frieza, senti que tinha sido uma gota vaga de liquido humano, e que outras se haviam de seguir.
Antes que desse por algo, já tinha levado as mãos à cara para tentar estancar as lágrimas que me rompiam os olhos, mas não fui capaz de lhes tocar, pareciam ácido a cair no chão, redondas e de maneira certeira.
Chorei sem emitir um único som, nem acelerei a respiração, nem um suspiro nem um soluço, nenhuma aflição nem ansiedade, nenhum desespero ou medo, era tristeza pura que tinha me brotado no espírito naquela manhã.
Chorava como se tivesse ao mesmo tempo fora do meu corpo a apreciar todo o momento, perguntando-me que reacção era esta, o que me tinha levado a este ponto, porque razão tinha aquele ar tão triste.
Depois de um bocado, começou a parar, como se fosse uma ferida dilacerada, estancou, mas ficou um ardor nos olhos que apenas sentia por irritação, porque sentia uma dor mais forte, a dor provocada pela implosão da minha alma, como se tivesse disparado contra muros de betão adornados com pedaços de vidro de um espelho no qual não me queria olhar.
A sensação de face arranhada pelas lágrimas frias, limpei a cara e joguei o corpo para trás deixando-me pousar um pouco a alma já desfeita.
Depois de uns segundos levantei-me e abracei a rotina, e tudo foi mais um dia, mais um daqueles dias, mais uns momentos, trocas de olhares, mais uns sentimentos dispostos de modo livre, sem o mínimo de sentido, numa vida desde já desprovida de significado.
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