sábado, abril 14, 2012

Ponto de Fuga: Epílogo

Dela sobressaiam os olhos, agora sem vida, vagarosamente cobertos pela bruma gélida que se abateu sobre a noite. Minutos como horas passaram, até sentir os músculos entorpecer, a respiração queimar-lhe no peito e a vida deixando-os lentamente. Não podia existir ali, ao lado do cadáver, sem se tornar um fantasma dele próprio e de tudo o que tinha vivido ao lado de Sarah: a sua cicatriz estava-lhe profundamente marcada na memória. Eram o universo um do outro, as possibilidades que por mero acaso temporal ainda não se tinham concretizado, os tempos presente, passado e futuro convergiram para este espaço e concederam-lhes a imortalidade.

Quando o sol se levantou e névoa deu lugar ao orvalho, a sua alma estava tão morta como o corpo dela, perscrutando o mundo pelos olhos incrustados nas cavidades negras de uma caveira pálida. Pelas veias corria-lhe um ténue fio de sangue e o peito empedernido pesava demasiado para se erguer, para voltar a ver, a sentir, a cumprir as regras básicas da existência a que todos os mortais estão adstritos à nascença. Um funeral não seria apropriado, não haveria palavras, rituais ou gestos de paz que pudessem apaziguar as suas almas. A violência da vida ecoa na sua morte, ensurdece o seu sentido e assume essa razão.

Há uma luz a guiar-nos durante o caminho que trilhamos, ela pode revestir várias tonalidades, cores e até formas, mas nunca deixa de nos acompanhar. No rescaldo destes acontecimentos, o seu farol mudou muito, no entanto só havia um caminho. Iria percorre-lo estoicamente, na solidão, na pobreza e no vácuo... e arrastaria outros para lá. Reclamaria as suas vidas para instar medo na espinha dos fracos de mente, impotentes para ver a luz. Ela estaria ao seu lado, até as estrelas se alinharem, como sempre esteve e nunca poderia deixar de estar, numa lei não escrita sobre a qual eram, são e serão - cabendo-lhes o céu que libertaria a tempestade que se seguiu.

O ponto de fuga é aquele lugar para onde convergem as linhas no horizonte, onde o profundo se perde e o todo se encontra. Somos todos pontos e linhas, que se apagam e pintam com a maior das facilidades. A fuga, o escape, demonstram o nosso significado: de onde vimos e para onde vamos. Em seis fases, Kurt e Sarah, descobriram o seu: primeiro o DESPERTAR, onde passam de um apelo inconsciente de escape para a necessidade e materialização do mesmo; em segundo o VEICULO, pois toda o movimento precisa de um corpo e de uma alma e o 442 confunde-se e impõe-se nos personagens, qual extensão do seu corpo e alma, oferecendo-lhes profundidade; seguidamente a PERSPECTIVA, em que são forçados a definir os seus limites e a sua distância, assumindo o desconhecido e para Kurt e Sarah o limite foi a sua relação, os dois coexistem no mesmo trajecto; para lá de meio o percurso torna-se emocionante e atinge o PICO, mostrando toda a sua beleza para os iludir; a quinta etapa a CONFUSÃO, levando os viajantes por atalhos, deixados à deriva afastados do real propósito e da sua força motriz; até à TRANSCENDÊNCIA, o final aparentemente amargo, onde passado o ponto sem retorno, os confronta com as suas escolhas, encerrando a verdade que tanto esperavam, para continuar a viver sem precisar de fugir.

Na realidade, o mais pequeno detalhe pode afectar-nos. Sem dúvida, no entanto é essa a pessoa que queremos ser? Não para o Kurt. Ele quis tomar as rédeas do seu próprio destino: escolheu a rapariga e conduziu o carro. Não fez a viagem perfeita, mas mais ninguém a fez por ele. Esta é a sua história e todos os outros são detalhes, pedras ou almofadas no caminho. Encontrou particular conforto neste pensamento quando, na prisão, rodeado por criminosos, percebeu que podia fazer valer esse tempo. Preparar-se para concretizar o que aprendeu na viagem com Sarah, tomando controlo, deitando as peças deste xadrez abaixo.

Kurt Stone voltará em: OS OLHOS DO SUL

segunda-feira, abril 09, 2012

Gostava de ser...

Que raio de vida é esta, onde já não escrevo, não leio, pouco me rio, e tão pouco passeio?

Já fui um rapaz inspirado, já escrevi umas boas linhas, já tive mais piada, já fui mais satisfeito.

Embora estranha, mas bem presente, esta insatisfação latejante, de uma criatividade encarcerada, de uma criação calejada, de uma vontade em partilhar, em ser, em poder reconhecer e ser reconhecido, num dizer, numa palavra.

Tenho andado cabisbaixo, sem esperança, sem alento, sem qualquer contentamento.

Talvez seja por isso mesmo, por falta de partilha, por falta de criar, de ser, de amar o meu intelecto.

Levei algum tempo, mas acho que hoje entendi. Num mundo mais cinzento em que a vida é quase só trabalho e responsabilidades, a criação de um dizer, de um ditado, de uma singela frase com significado, é a centelha, a mais leve centelha capaz de aquecer algo já há muito esquecido e adormecido.

sexta-feira, abril 06, 2012

Ponto de Fuga: ...Onde A Estrada Acaba (VI)

Recuperava ainda os sentidos lentamente e antes de sequer  abrir os olhos, amargava o sangue ainda fresco nas gengivas. A porta da frente escancarada deixou entrar o bafo quente que me fez levantar de uma vez. Derreado e ferido no orgulho, receava agora qualquer estalo nas costelas, pelo menos aquele que me impedisse de chegar ao telefone. Teria de haver um telefonema. Não. Pregada à ombreira da porta com um punhal, num papel com o número, a mensagem estava entregue. Estes tipos eram negociantes à séria, para seguir à risca. -"Agora já não és tão esperto! Que queres? Queres a tua mulher de volta?" gritava do outro lado do telefone o Comanche - "Que manobra foi essa no Diner?! O teu trabalho é entregar o pacote! Queres entrar na folha de pagamentos, é isso?". Só me restava implorar e suplicar pela segurança de S., enquanto ouvia as suas provocações. Sim, a este ponto rezava para nunca ter acordado dos efeitos da droga e tudo isto não passar de um sonho febril.

Abri a caixa, finalmente. Continha um cachimbo, mas procurei dentro do embrulho e lá estavam os papeis, manifestos de carga emitidos pelo Estado do Texas. A minha tarefa era entregá-los ao Armazém na Alameda Avenue, aqui em El Paso. Deveria depois receber novos documentos e entrega-los em Red Rock, no Red Rock Motel, onde - "É ao fim da Main Street e CASO CUMPRAS TUDO À RISCA, até à alvorada de amanhã a encontras viva". Depois de tudo o que tomei por garantido, restava a estrada, essa terra prometida agora nossa salvação.

Pisei o acelerador e larguei a embraiagem, naquela fracção de segundo entre movimentos o 442 faz o mundo tremer até desaparecer numa nuvem de pó. A primeira tarefa afigura-se fácil e rápida, no armazém seguem, como formigas no carreiro, sujeitos de tez escura carregando caixotes dos camiões para a zona de descarga. "Boa tarde forasteiro. Faça favor de dizer." inquiriu o indivíduo à minha frente. Suiças e cabelo grisalho escapando-se por baixo do boné, baixa estatura e aparência afável ilibavam Harry de qualquer convivência com actividades criminosas. - "Fiquei de entregar pessoalmente estes manifestos de carga, onde posso encontrar o responsável?" mal acabei a pergunta já a resposta saia cuspida - "Vamos lá para dentro miúdo. O índio não gosta destes negócios debaixo de sol. Queima, se é que me entendes".

Aqui começam as complicações, aquelas tão inesperadas e indesejáveis quando a vida quem mais amamos está em causa: Os documentos estavam entregues, mas devido ao seu atraso, teria de entregar a cópia forjada ao camionista que me aguardava numa estação de serviço em West Odessa. Quando está tanto em jogo é complicado racionalizar para procurar a falha no plano e quando não consegues encontrar a falha no plano, simplesmente, falharás. Por muito que conduzisse como fugido do inferno, cortando curvas e batendo no vermelho mais vezes que menos, estava demasiado exposto.

O Shooter's Gas and Grill em West Odessa era uma paragem de camionistas no meio do deserto e tirando umas dunas a bons metros, bem como dois ou três poços de petróleo no horizonte, não estava rodeada por nada. Ora, não seria aqui que nos iam apanhar, no céu aberto e ainda à luz do dia. Seria já na noite escura quando investia a cerca de 200 kms por hora em direcção a Bastorp. Cansado e com mais olhos no relógio que na estrada, pensando nela, sofrendo por ela na angústia de não saber, deixado com a ideia de ter sido engolido por uma trama maior que nós os dois. Ao fundo piscam as luzes azuis e vermelhas: estrada cortada, fim da linha e todas as metáforas que não me passaram pela cabeça por ter encontrado naquele borrão de cor lá ao fundo a figura do desespero...

Pé a fundo no travão e o carro afunda e contorce-se no asfalto, em câmara lenta, a suspensão desce junto às rodas, inclinada de sobremaneira para a direita e centrifugamente  guiado pela traseira encontro-me paralelo à barreira policial... largo o travão e piso o acelerador novamente para ganhar aderência e enfiar a toda a velocidade pela estrada de terra batida que desviava do caminho. A poeirada levanta em nuvem, embatendo nos faróis dos meus perseguidores. Forma um efeito de cortina, encadeando-os para os cegar em seguida e logo que a transpõem mergulham no breu. Despistei-os, mas estava demasiado perto de Red Rock para arriscar o regresso à estrada principal. Circulando erraticamente pelos trilhos do gado e caminhos secundários adjacentes às quintas da vizinhança, seguro-me ao volante, ignoro os solavancos e procuro a cada curva o Red Rock Motel.

O pórtico lia em letras de neon fundidas "Motel", só isso. Rachas no pavimento e as marcações do estacionamento secas e desvanecidas não logravam distrair o viajante do ar de abandono do edifício destruído. Em redor não se ouve vivalma e corridos alguns minutos decido aventurar-me. A luz do único poste lá fora passa em feixes de pó pelos buracos na parede, buracos de bala aparentemente. Passo a passo percorro a sala até tropeçar e sentir a picada na cabeça, ou talvez tenha acontecido ao contrário. Derrubado, volto a mim apoiado nos destroços de uma mesa de café e levanto a cabeça para ser surpreendido por uma sombra de uma pessoa, estática na ombreira da porta.
 
- "Quantas estradas tem um homem de percorrer... até admitir que está perdido?" proferiu a figura cadavérica do Sargento Thomas Hawkes e continuou, enquanto eu assistia atónito e em choque - "Sabemos quem és tu Kurt Stone, mas quem és mesmo tu? Um agarrado a querer subir na vida? Trabalhas para o J.? ...sejas lá quem fores tenho a agradecer-te por esta operação. Foste o sabotador... depois do que se passou aqui da última vez o Capitão Harding não queria arriscar a vida de mais um infiltrado. Sim, o mesmo que deixaste apeado naquele Diner em Benson: Elrod. Há semanas que sabíamos do vosso negócio da Califórnia, só nos faltava poder de fogo. Os manifestos que andaste a entregar foram a chave para voltar a por estes tipos na choça." disse enquanto adoptava uma postura altiva e arrogante. Sabia que me tinha usado e da injustiça que pendia sobre mim e, principalmente sobre S. - "Onde está a rapariga? ela não tem nada a ver com isto! Deixa-me vê-la!" insisti, agarrando-o pelo braço para ser derrubado com um murro no estômago em seguida. - "Não me toques!" - mais calmo, ajeitando a manga da camisa, confessou: - "Lamento ter de ser eu a dizer-te isto, mas ela já estava morta quando chegámos, Eddie "O Comanche" executou-a quando confirmou que tinhas feito o trabalho...".

Nesse momento entraram dois agentes e seguraram-me pelos braços, enquanto Hawkes me olhava impassível, a sua cabeça calva e as linhas do rosto como rastos de navalhas, movendo-se e dobrando-se. Ele falava, conseguia ver os lábios descendo e subindo, numa estranha dança hipnótica. No entanto, não o ouvia. Levantaram-me do chão como se pegassem numa mala de viagem, arrastaram-me até à rua e diante de uma maca, uma qualquer maca como se vê nos filmes, alguém destapou a coberta e lá estava, inerte, sumida e sem expressão, Sarah Anne Ralston: o princípio e o fim das minhas viagens.