quarta-feira, novembro 28, 2012

Os Olhos do Sul: IV - Alianças Indignas

As "férias" com Willard e Nicholas tiveram o seu final abrupto quando o burburinho na cidade lhes chegou aos ouvidos. Algures na Paróquia de St. Landry, Bayou Teche, Louisianna pode ler-se no cartaz, fixado com uma faca na porta da Igreja: "Descobriram-te. Não tens por onde fugir. Encontramos-nos na ponte velha amanhã à meia-noite. PS: vem sozinho. Ass. U.S. Marshalls". Abaixo, constava a sua fotografia carimbada de "PROCURADO". Não faria sentido não comparecer e chegada a hora haveria de lá estar.

"Nem olhes para mim. Olha para aqui se quiseres andar à porrada e vais perder, digo-te já. Fala o que tens a falar e cada um de nós segue o seu caminho." rematou Kurt, sem pejo. Não se calou e lançou o dedo encriminador: "Há dias que mais vale deixar as cartas cair... Tens falhas na organização, adianto-te. Bem os vestes como homens, mas nem o cabedal nem as correntes lhes dão tomates de ferro, ou pensas que o miúdo não falou? Sei de tudo. Fica só uma dúvida: mandas alguma coisa ou queres mandar?"

"A conversa acaba aqui.  Não sei quem julgas ser para desafiares a autoridade como tens feito desde do Texas, mas vais-te por a direito a partir daqui. Nem que tenha de te amarrar à última cadeira na última cidadezinha do Alabama, vais-me entregar o Comanche!" Hawkes, continuou subindo o tom. "Vim para te vir buscar, meu parvalhão. Se queres tornar isto num concurso de bocas bem podes ficar a falar, enquanto te caem em cima. Ou pensas que estou aqui sozinho?!"

Como quatro vértices de um quadrado, as motas acenderam os seus faróis e iluminaram a ponte. Cercados, os dois homens baixaram a cabeça e levantaram os braços. No chão, várias sombras se moviam como fantasmas na água, diante de Kurt. Do que conseguiu descortinar, o mesmo se passava nas costas do Sargento Hawkes. O passeio na luz foi subitamente interrompido por dois tiros vindos da penumbra.

Kurt Stone continua a disparar. As balas voam directas ao alvo, tal e qual tinha aprendido no bayou: trazer os alvos para a linha de visão e não o contrário; focar os olhos na mira frontal e apontar ao centro do alvo, de modo a ver duas miras frontais e o alvo desfocado; para tiro certeiro, mudar o foco várias vezes entre a mira e o alvo até estar satisfeito; para tiro rápido, baixar a mira traseira em relação à frontal e apontar ligeiramente abaixo no alvo, de modo a obter um encaixe mais eficaz em conjunto com o ritmo da arma. As farpas saltam dos pilares de madeira da ponte coberta.
Pouco antes do disparo seguinte reduzir uma das motos a uma pira incandescente nessa noite sem luar, Kurt colou-se à parede e furtivamente se colocou atrás do seu carrasco. Poucas execuções são visíveis no clarão de um disparo, mas a explosão de osso, miolos e sangue foi ofuscante como o fogo em si.

Ainda o corpo do primeiro não tinha tremido o chão e Hawkes rodava sobre si próprio descarregando o tambor na última sombra de pé. O impacto dos projecteis ensurdeceu a escuridão e o repetidor calou o silêncio em ritmo tão certo como as batidas do coração. Era um dos motards, indistinguível no meio do breu. Kurt havia-se ocultado, encostando-se à parede e permitindo o embuste. 

Todos caíram, excepto os dois pistoleiros. "Acho que vamos ter de resolver isto à maneira antiga..."

A cápsula voa e sai-lhe lentamente do ângulo de visão. Segue-se o fumo branco e o cheiro a pólvora. O revólver encravou. O marshall, sendo um homem experiente em lidar com armas, sabia que teria sido do sobreaquecimento: O cilindro de aço inoxidável expande com o calor, e não é possível premir o gatilho, aliás todas as peças parecem estar soldadas. Mal teve tempo de segurar na arma de apoio que foi atingida em cheio, caindo à sua frente. Estava desarmado.
Um breve momento de tensão iluminou o olhar dos dois homens enquanto se quedavam impassíveis. A arma jazia a cerca de dois metros e não fosse a idade, Hawkes só precisava de uma distracção para se lançar jogando a sua cartada. 

Do outro lado, Kurt queria a resposta às suas perguntas e bem lhe custava finar um marshall dos Estados Unidos sem estar completamente satisfeito com a escolha.

Um ruído estridente o suficiente ou um flash de luz bastariam para voltar a situação a favor da autoridade. Os segundos passavam e a mandíbula não ficaria hirta durante muito mais tempo, o tremor das pernas seria aparente e o medo mataria-o antes que qualquer bala o pudesse fazer. 

O fugitivo parecia ter a vantagem e não a iria perder, só o tempo se interpunha entre ele e o sucesso. Quanto mais esperasse, mais o adversário ganharia confiança para fazer Deus sabe o quê. 

Kurt pressionou lentamente o gatilho até metade, tão vagarosamente que nem a experiência de Hawkes o deixou arriscar qualquer acção, tal era a iminência da morte - estava hipnotizado pelo cano da arma, sem que nada acontecesse, haveria sequer aviso? Contou um, dois... era agora - Como uma cascavel, de súbito removeu o dedo e deu dois passos para a frente, apoderando-se da pistola caída. O doce triunfo humilhante era todo seu e o velho ajoelhou-se em resignação. O calor da noite estava cada vez mais frio.

"Os amigos escondidos no mato. A pontaria certeira. O pensar fulminante e as pernas ágeis. Ganhaste mesmo antes de teres pisado este chão. Que queres mais?"

 "Entre goles de óleo, o Tommy Crow espirrou o teu nome. Bem, na verdade foi qualquer coisa como Elrod, mas eu percebi a ligação. Portanto, a minha pergunta é: Porque diabo andas tu a tentar caçar um elefante quando nem sequer consegues apanhar o rato nas tuas costas? És só estúpido ou estás mesmo com eles?"

"Digo o quê agora? Posso dizer tudo. Na verdade, quero é que te ..das..."

"Vais ser morto com a tua arma, no meio do bando que nunca conseguiste erradicar e dentro de um dia ou dois apanham o chibo na tua equipa, enquanto o Comanche se ri. Não tens a ponta de orgulho?!"

"Diabos me fo...! Acho que vamos ter de chegar a uma espécie de acordo..." sorriu Thomas Hawkes maliciosamente, enquanto Stone baixava as armas.


Os Olhos do Sul: Intervalo (III - IV)

- "Existem homens naturalmente maus, pai? O Kurt é um deles?" 
 - "Não, Nicholas. Há homens que vivem para a sua missão, aquela que Deus lhes deu. Nós temos a sorte de estar em constante comunhão com o que Ele pretende para nós. O Kurt precisa de tempo para crescer aos olhos de Deus." 

- "...e o nosso trabalho é ajudar?"
- "É sim, filho. Os homens vêm a nós por ajuda, não por clemência divina, porque para isso vão à cidade, a uma das outras casas de Deus. Nós conhecemos tanto o pecador como o pecado."

- "Foi por isso que o ensinaste a disparar?" 
- "Foi por isso que também te ensinei a ti." 

- "Nós vamos estar naquela ponte com ele, não é?" 
- "Lá perto, o que for preciso para equilibrar as forças."

sexta-feira, setembro 07, 2012

Os Olhos do Sul: III - Santuário

Passo a passo, haviam três dias que tinha deixado Texarkana, depois de executar os seus perseguidores. Aos agentes que o escoltavam demonstrou a sua faceta mais misericordiosa e deixou-os na bagageira. Vários anos num buraco tiram o sentido de conforto a um homem, mais a um que não compreende porque está vivo - no entanto, eles pareciam integrados o suficiente para testar a claustrofobia por umas horas. Tomou uma camioneta de transporte de aves, dissimulado na traseira, para em trocar de boleia em Shreveport na direcção de Lafayette, Louisiana.

Viajar de noite tem que se lhe diga. Tem até animais no meio da estrada, quem sabe atraídos pela luz dos faróis ou apenas desprovidos do instinto básico, que leva qualquer criatura com ambições de sobrevivência a não se mandar para a frente de um corpo a 75 milhas por hora. Existem picos de sono, queiramos ou não, a meio de uma conversa sem interesse. Essencialmente, tem paragens para descanso e para utilizar os lavabos. Numa dessas paragens, Kurt saiu do carro em direcção ao WC, tal como o condutor da pickup GMC, de seu nome Roland. O sono e a fome só priorizaram sua a necessidade de alívio, a única cuja satisfação era possível na altura. Aquele minuto, desde o desabotoar das calças ao esfregar das mãos é sagrado. Kurt sabia-o e Roland sabia-o. Mais desperto que nunca, abriu a porta com um ar triunfante e realizado, contemplando a área de descanso: Um pequeno parque de merendas a este, a encruzilhada de estradas para oeste e o estacionamento a norte; a carrinha GMC, essa abandonava agora o estacionamento a grande velocidade. Ficou o cheiro a borracha queimada e, pois claro, o pendura.

Deixado à sua mercê num estacionamento deserto no meio da noite, pouco depois de Bunkie, Lousianna, decidiu continuar a andar. Não sabia para onde ia, apenas saiu da Interstate 49 e enveredou por outro caminho em direcção a Lafayette. Caminhou por pequenas povoações, mantendo para si que os seus bolsos vazios e a imagem deslavada não lhe permitiam pedir ajuda nem trabalho. Muito menos mendigar. Não o faria, pois não sabia nem tolerava fraquejar dessa maneira. "Que humilhação, ser atirado para berma da estrada por um campónio que tirou partido das suas necessidades básicas" - pensava e repensava, enquanto puxava pelas pernas.

Com alguma frequência, quando um sujeito olha para o horizonte quase consegue agarrar as folhas das árvores e pisar a terra, sem que o resto importe. Essa é a vontade e o crer, o espírito do homem de sangue fresco. É, mas está calor, arde na cabeça e pesa no corpo, sem alimento nem descanso. A vontade é quebrada e o crer não levanta os braços à altura dos ombros, quanto mais dar outros dois passos na direcção do abismo horizontal, mesmo diante dos olhos. A obstinação férrea é o que leva ao limite e dá esses dois passos sem pernas, rastejando e percorrendo os centímetros na areia como se fossem metros.

- "Olha para ti. Tremes por todo o lado. Há quanto tempo não paras ? Há quantos dias vagueias sem rumo? Descansa e permite-te a pensar no que fizeste..." pregava Sarah num eco constante.
- "Cala-te! Deixa-me andar que preciso de andar. Quero andar! Quero, quero ir, estás a ouvir?!" retorquiu Kurt desarticuladamente, num sopro quase tão seco como a sua boca.

A aparição foi subitamente interrompida por uma bátega de água fria que se abateu sobre o seu rosto, quase enterrado na areia. Entre urros que não distinguia, ao fundo uma voz de criança exclamava - "ele não acorda pai! e agora?" - E caiu, mais uma vez, a água sobre ele, correndo o fio pelo pescoço abaixo. - "Estou acordado!" bufou. Erguiam-se defronte do seu corpo prostrado duas pessoas: um homem e o seu filho. O pai, era um individuo esguio com barba loura de traços grisalhos, vestia casaco e camisa negros com calças de ganga e botas de trabalho. Já o filho aparentava os traços de uma criança saudável e estava aperaltado com um fato domingueiro. - "É um bêbado, paizinho?" - "Não sei filho...". E seguiram mirando, até ele se levantar. Na margem do riacho, que dividia a estrada a vegetação crescia em redor num verde muito vivo, com ervas altas e arbustos acercados das árvores. Via um rapaz de cara redonda sorrindo timidamente e apreensivo, olhando, ora para o pai ora para o estranho. A dor latejante na zona lombar não fazia esquecer a moinha nas costelas, entorpecendo-lhe o raciocínio e o discurso. Levantou-se para logo ceder.

- "Não sei se me estão a empurrar para fora do caminho, em todo o caso só precisei de um refresco..." disse, tombando o corpo para cima dos viajantes.
- "Quer que o deixe nalgum lado? Certamente, não está capaz para andar..." falou o pai.
- "Mais umas horas e volto à estrada, não pensem que vou ficar aqui! Quem são vocês?!"
- "Willard Ledeux, cavalheiro. Reverendo da Igreja da Colheita Reformada. Diga lá amigo, está embriagado?";
- "Hein? E o rapaz?";
- "Meu filho..., ouviu o que lhe perguntei?";
- "Reze por mim daqui a umas horas padre...", e voltou a deitar-se no chão.

O reverendo segredou ao ouvido do filho e o rapaz, bem ordenado, abriu a bagageira da pickup - "Permita-me a graça de lhe facultar uma refeição quente e uma cama na minha missão, senhor..." - Kurt escutava admirado com o desprendimento do cúria, que se ajoelhou à sua altura, em súplica.
Reuniu todas as suas forças para declinar a oferta, apercebendo-se lentamente de estar a lutar contra si próprio.
- "...escute padre... não quero parecer mal e não nego que até posso dar ares de perdido, mas Deus não quer o meu tipo na sua casa, percebe-me?";
- "Deus não distingue... e eu não quero falar a sua palavra a ouvidos moucos. Asseguro-lhe apenas que não é o primeiro. Do seu tipo, já eu fui. Perdido?! Evadido, sabe-se lá de que buraco e agora lançado ao mundo...";
- "...cumpri a minha pena padre e não cobro nada a quem não esteja a dever!";
- "Bem sei filho, bem sei... e já li essas palavras na lápide de muito homem. Deus não sente, mostra... Prometo uma refeição quente e cama por uma noite. Mais que isso... bem, faz-me jeito uma mãozinha a mais na missão. É justo para si?";
- "Não tem medo padre? Um tipo como eu, junto da família?";
- "Sou só eu e o Nicholas, a minha esposa já não está entre nós. Afianço-lhe no que Deus não mostra aos incautos, sabemos tomar conta um do outro.", disse batendo na jaqueta. - "O pai tem uma pistola! Bam, bam!", brincou Nicholas, sem que o reverendo esboçasse um sorriso.

Os dois homens olhavam fixamente um para o outro, Willard, sereno e firme, enquanto Kurt cerrava os dentes para se esquecer do buraco no estômago, das dores nas costas e do receio de confiar noutro ser humano novamente. - "Como se chama o senhor?" perguntou Nicholas. - "Kurt, sou o Kurt. Vamos já, pode ser, Nicholas?" - agora munidos da distracção que precisavam para sair empatados do duelo de olhares, os dois homens apertaram a mão e levantaram-se.

A poucas milhas acima, erguia-se a igreja no meio do mato verdejante. Um edifício velho em madeira, mediocremente conservado, despojado da sua cor original pelo sol e chuva, sem se poder afirmar com certeza de ser corrido a frestas ou tinta estalada. Nas traseiras estava o barracão de ferramentas e dispensa, rodeado dos lados por um galinheiro e por uma clareira, onde assentavam várias colmeias. No interior, a casa do senhor não escondia luxos: dois quartos e uma cozinha ensaiada; lá fora, mas contíguos ao edifício principal haviam, em cantos opostos, uma retrete e um chuveiro.

As tarefas eram simples, ainda que árduas: levantar ao raiar do sol; tratar das colmeias com o reverendo, inspeccionando e mantendo-as contra aves migratórias, verificar a população de abelhas e recolher o mel ou voltar os favos; tratar do galinheiro, limpando-o, recolhendo os ovos e alimentando as galinhas. Ao longo do dia os fieis do bayou visitavam a igreja, eram trabalhadores dos viveiros de camarão, agricultores ou criadores de gado e todos eles ajudavam o pai Ledeux com pequenas oferendas. Aos Domingos o reverendo falava abertamente à pequena congregação desse meio rural, sobretudo da entreajuda na comunidade e da fé em Deus, que através dos vizinhos chegaria até ao mais pobre. De tarde haviam pequenos convívios no rio, onde se bebia, cantava, cozinhava e até testava a pontaria nas garrafas vazias.

Kurt respirava pureza, não tanto do ar como dos espíritos. Sarah era hoje uma ferida cauterizada, via-a no horizonte para onde não queria olhar e onde ela não se mostrara mais. Em divagações, chegou questionar Willard se não teria sido assombrado por um espírito profano repelido pela santidade desta casa. No entanto, insistia em guardar para si todos os detalhes do seu passado e a discussão terminou com um - "...deve ser a humidade do rio que me põe estes pensamentos na ideia. Não vamos maçar Deus com devaneios sem sentido" - De facto, quanto mais cortava relações com os mortos, mais se ambientava aos costumes dos vivos. Apreciava a companhia de Willard e Nicholas, a maneira como viviam tranquilamente, em linha recta, sem desejos de fazer o mundo pagar pelo que lhes havia tirado. - "Por quanto tempo?" questionava o seu íntimo.



sábado, agosto 18, 2012

Os Olhos do Sul: II - III (Intervalo)

Dois primos cajun, em passeio com a família pelo Arkansas, acordam sobressaltados pelos eventos da noite passada:

- "Bo' dia Dud, iss' é que fou uma confusion des diabes onté..."
- "Né outra cous' sena' verdade. Aquel' sujeite trouxe o Inferne con el´; Or' vide tu que pega des moçes e quita-lhes a vide sé mais... num se faz."
- "...falo'-me Marie que le matou ca force du demón."
- "Da policie sai' que vai un pendurad' e no últime, assomad' à pont' daqui, que lo sufeco' con óil."
- "Avec huile?! Mon dieu..."
- "É verdad' mon ami... Fue horrível: lo turturrou par l'informaçon e quand na' le diz, le poen óil p'la boca."
- "Nes pa... l' éncontraron les malandres?"
- "Non. É Piore ils pensen que fue un só..."
- "Le fin é próxime, prim' Dud... Tres Próxime"


quinta-feira, julho 05, 2012

Os Olhos do Sul: II - Correndo Com o Diabo ou A História de Tommy Livingston

Calças de ganga Lee 101, T-shirt velha dos Doobie Brothers, botas Chippewa e um casaco de cabedal castanho que nem sequer era dele - "aqui estão os seus pertences" - um relógio Tag-Heuer, literalmente parado no tempo, uma carteira com a carta de condução, 40 dólares e o bilhete de autocarro Interstadual. A roupa ficava-lhe ligeiramente larga - por tudo o que perdera nos últimos cinco anos o peso havia-se transformado em músculo - o relógio já não o servia. - "Tenho tempo de sobra, queres comprá-lo?" perguntou a Gutterson. O guarda fez-lhe sinal para se calar e passou-lhe uma nota de 10 para a mão.

Tommy "Crow" Livingston imaginava tudo isto a acontecer, enquanto esperava do lado de fora da cadeia. Acompanhava com o olhar cada passo de Kurt Stone, media-o e ansiava pelo seu confronto. "Meteu-se com o gang e o gang vai deixá-lo no lugar", pensou. À saida de Huntsville, Tommy e três outros motards assistiam ao caminhar de Kurt Stone em direcção ao terminal de autocarros - aos passos lentos e pesarosos, ao ar perdido e destanciado da multidão - "Este tipo parece um zombie! Podemos apanhá-lo mesmo aqui no Texas e despachar a coisa antes do meio-dia!" disse Tommy em tom de chacota e logo ouviu resposta, "Vais fazer como te mandaram e calas-te antes de sequer pensares em abrir a bocarra! Este tipo tem levar com a marca dos Steer Kings e isso acontece onde deve acontecer à hora em que os adultos decidirem, comprende?".

O galgo cinzento lançou-se pela autoestrada e os quatro motoqueiros abandonaram a perseguição, a próxima paragem era em Texarkana, Tommy sentia o sacudir do colete à medida que a velocidade aumentava. O Presidente tinha encarregue Aiden "Turk" Moss de "interceptar um certo ex-condenado e passar a mensagem de que os 'Kings não esqueciam nem perdoavam", tudo aconteceria o mais longe possível de casa. Com ele seguiam mais dois veteranos, Bo "Diddley" Jones e Austin "Deuce" Hill, para iniciar o "petiz" numa missão de honra.

Junto do terminal a multidão dispersava e apenas Kurt e mais duas pessoas se mantinham sentados. Turk e Bo avançaram pela retaguarda enquanto Tommy e Deuce se picavam com as motas pela frente, em jeito de manobra de distracção. Rodando em círculos, enervavam visivelmente os dois homens junto de Kurt enquanto este se mantinha sentado, impávido.  Tommy estava tão compenetrado nas manobras que mal ouviu o tiro para o ar. Diante dele, o revolver fumegante do agente Morris aconselhava prudência, enquanto o seu parceiro, Duff, apontava a Deuce - "O espectáculo acabou rapazes, está na hora de partirem na direcção do sol poente! Não os quero voltar..." -
«Clic»  

- "Lamento interromper, mas caso não tenhas percebido, isto foi o cão. E a seguir vem o gatilho. Em que direcção achas que vamos?" interrompeu Turk, surgindo por trás do polícia. Logo Deuce aproveitou a deixa - "Na da bagageira! Ah!" gritou, rindo-se. Como dois cavaleiros pelo asfalto, Tommy e Bo resistiam contra a saraivada de água que caía em Texarkana. Há vários minutos que não ouviam as pancadas dos agentes Morris e Duff, a malfadada escolta. Encafuados como malas velhas, enquanto Turk e Deuce comandavam o autocarro.

A tarde passou a noite e o dia não se deixava ver, nem para a frente, quanto mais o fim. Nas palavras do último para Kurt - "Foi uma viagem atribulada, mas só agora começámos". O jovem aspirante pensava no que aqueles dois iriam fazer... sair da cidade era obrigatório, mas o plano era não haver plano.

Perto de uma zona florestal, já nos limites da cidade, a caravana pára sem aviso. A porta abre e Turk, seguido de Deuce, saem de mãos na nuca. Bo e Crow nem tiveram tempo de reagir. O refém havia tomado controlo da situação, frio e distante como sempre, segurava a arma no escuro. - "Cheguem-se para debaixo da luz do candeeiro, é já ou não há depois!" ordenou assertivamente, chegando-se para as motas. Sob ameaça de tiro, o gangue assistia à pilhagem dos seus pertences, tal como no velho oeste. Kurt segurou as correias da bolsa e atou-as às costas como uma mochila, em seguida profere em tom solene - "Gostei deste bocadinho, especialmente por ter sido curto. Até sempre meus senhores." e dispara seis tiros do revolver de Deuce.

Incrédulos, os cinco homens olham uns para os outros em choque, voltando a mirar-se. A perícia de Kurt com as armas de fogo nunca tinha visto melhores dias, ainda que infelizmente para ele, também não tivesse visto piores: os tiros falharam o alvo, todos eles. Recorrendo ao mais básico instinto animal, o condenado foge à desvantagem, lançando-se em corrida para o mato em redor. Encharcado e amedrontado, Tommy mal se conseguia mexer, enquanto Turk fugiu pelo mato deixando o resto do gangue para trás.

Alguns segundos depois, Tommy, Deuce e Bo entraram no mato. Já no negro da escuridão e  percorrendo o lamaçal, os três homens resistiam ao medo e ao frio. Passo ante passo, tacteavam as árvores e procuravam luz no luar - "O que é aquilo?!" exclamou Bo, referindo-se ao barulho metálico que vinha da direita. Balançando como um pêndulo, avistaram o cadáver de Turk pendurado num tronco, enforcado na corrente da mota. - "...dass! O qué isto?!" gritou o jovem rufia, virando-se para trás em horror. Antes que Deuce pudesse reagir, Kurt sai da escuridão e atinge-o na nuca com um tronco bicudo, desferindo de imediato um murro no nariz de Bo. O estalar do osso do nariz de Bo propeliu Tommy para correr como os pés deixavam, enquanto as pernas aguentassem. Kurt havia-se tornado na figura do medo desesperante em pé ligeiro.

Escorregava e trepava, saltava e tropeçava conforme o terreno ajudava, mesmo sentindo a vida a fugir-lhe a largos metros e em passo largo. A sua única esperança era chegar à South State Line Av. e atravessar a estrada (na verdade, cinco vias de trânsito), onde poderia procurar refúgio num motel. Atrás de si, ouvia os lamentos indecifráveis do seu companheiro, ainda agarrado ao nariz, inspirando o próprio sangue. Anos de bebida e tabaco pesavam na respiração como nunca e depois de dois minutos a correr, o ar parecia ter-lhes sido aspirado do peito. Ofegantes e sem sentido de orientação, percorriam a linha de vista à procura de uma luz, de uma casa, de um carro ou qualquer sinal de auxílio. - "Ele vem aí! Estás a ouvi-lo?" desesperava Bo. - "Por aqui! Vamos!" disse Tommy enquanto empurrava o colega, assumindo a liderança. Sem fôlego, corriam descoordenados pelo bosque, almejando uma luz ténue para lá do arvoredo. Já cegos pela esperança, escorregam num declive onde a chuva fez a terra abater. Entre o chão e a cara de Tommy apareciam um tronco e a pancada. Se antes se via mal, nesse momento as luzes apagaram-se.

Voltou a si depois de ter perdido os sentidos por uns segundos e ao seu lado, jurava que era a efígie de um demónio de olhos vermelhos, esmurrando furiosamente a carcaça sangrenta de Bo, levantando no ar pedaços de crânio e aquilo que parecia um globo ocular. Os dedos da mão, ainda dormente, tremiam agarrados à terra. "Também não me agrada este trabalho mal-amanhado... diz muito pouco da minha pessoa, mas vocês não vieram para conversar, pois não?" insinuou o demo em tom macabro, logo se levantando. Retira da bolsa uma lata de lubrificante de mota e abeirando-se de Tommy, sussurra-lhe ao ouvido "Ora, conta-me lá um segredo, passarinho".

sábado, junho 16, 2012

Os Olhos do Sul: I-II (Intervalo)

- "Dizem que se foi o Justiceiro Solitário... E já estou à espera da comissão há meses."
- "Que estás para aí a falar?"
- "A minha audiência para o recurso! O meu advogado diz que um tipo à espera de execução há 10 anos tem mais hipóteses de perdão..."
- "E o que tem a ver o tipo do filme?"
- "Qual filme?!"
- "Na'tavas a falar no Cavaleiro Solitário (Lone Ranger) porra?!"
- "...Justiceiro! Vale agora a pena falar contigo! 'Tás bem é com a Biblia pá!"
- "É que nem te atrevas a invocar o nome do senhor em vão! Diz lá que filme é esse então..."
- "Na'é nenhum filme pá! É o gajo que 'tava há anos na solitária!"
- "...e é justiceiro porque tava feito com a mona?"
- "Epá cala-te e ouve! Chamam-lhe justiceiro, porque se passou no Tribunal e encavou os tipos que lhe mataram a mulher!"
- "Limpou-lhes o sebo?"
- "Nada disso! Chibou-se que tava feito com eles e começou a dizer que os conhecia e que mataram a gaja por gozo, tipo ritual motard..."
- "E os gajos vieram dentro, certo? E ele saiu."
- "Até que enfim! Foi isso mesmo, percebeste? O Juiz queria-os dentro e o Juri também, por isso ninguém se incomodou muito."
- "Justiceiro...? Se me 'tivessem quinado a maria não havia justiça neste mundo para os salvar, nem ta'pouco a mim no outro. Era um bilhete de ida pó'Inferno, digo-t'eu".

quinta-feira, maio 31, 2012

Os Olhos do Sul: Rude Despertar (I)

Cinco anos depois, esfacelado pela solidão e trucidado pela culpa, Kurt caminhava lentamente pelo corredor. O guarda Petterson seguia-o, não o escoltava, seguia-o. Em passo firme e pesado percorriam o corredor. Grades e gradeamentos multiplicavam-se em paralelo com a parede de betão, friamente novos para ele, que só tinha conhecido o pátio e a solitária no cárcere em Huntsville. Queria dizer-vos que vi uma figura ou um vulto para o começar a descrever, conferindo-lhe qualquer misticismo barato ao jeito dos filmes, mas quando Kurt surge no raio de visão é impossível não distinguir os traços à partida: estatura média; cabelo negro, tal como se duas vassouras siamesas tivessem procriado com um espanador; olhos profundos e castanhos claros; e a barba irregular, mas grossa em redor do seu maxilar quadrado, fugindo para o queixo. A prisão teria-o mudado por certo, no entanto seria a liberdade que lhe tomaria a alma.

"Os heróis morreram no dia em que o homem inventou a pólvora" - afirmou solenemente Thomas Hawkes na penumbra da sala de visitas. Os seus olhos brilhavam quase tanto como as correntes de aço que algemavam Kurt, continuando - "sabes que alguns membros dos Steer Kings estão a ser sugeridos para uma amnistia? O Governador vai a eleições e alguns nomes apareceram em cima da mesa. Sabemos que o teu tempo aqui está a chegar ao fim e seria um infortúnio que fosses procurar os tipos perdoados pelo Estado e, à boa maneira do faroeste, encontrasses algum sarilho que deitasse estes anos todos por água abaixo". Kurt ouvia impassível. Os seus nervos, como espasmos, reagiam violentamente, ao escutar na voz do Marshall, o mais leve tom de paternalismo falso. Hawkes não queria saber dele - tinha outros planos e esta conversa, evidentemente pensada, faria parte disso. Como o mais frio dos assassinos escudava a raiva por trás de um exterior calmo. Todos estes anos na solitária aperfeiçoaram essa sua faceta, moldando-a irreversivelmente à personalidade.

"Nunca apanharam o Comanche, sabias? Estes tipos vão levar-me até ele... Não é pelas mães que vão passar a semana no cabeleireiro para assistir ao discurso do Governador na libertação dos filhos. Esses filhos... e essas putas que os lançaram ao mundo são capazes de estragar tudo o que temos feito, para manter o pobre coitado que paga os impostos descansado à noite. Tu cumpriste a tua parte e fizeste por trazer descanso à sua alma... agora é a minha vez e lidarei com eles da maneira que mais me aprouver. Não te metas no caminho, percebes?" Proferiu, firme, enquanto deixava cair as palmas das mãos sobre a mesa. 

Onde qualquer um via impassibilidade, Hawkes irritava-se com a apatia de Kurt. Não o conseguia ler correctamente, no seu mundo era imprevisível, talvez tivesse até sucumbido à loucura depois de anos fechado em solitária. "Naquele julgamento todos sabíamos que eras inocente. Foi uma farsa teres dito que estavas com eles... A justiça não era para ser utilizada a teu mando e não foste tu que a mataste, caso estejas a fritar conclusões nessa cabeça louca." - depois de uma longa pausa continuou "O teu tempo está a chegar ao fim e o Tio Sam quer-te num programa de protecção... Eu dei-lhes uma ideia: Vais sair daqui de mansinho, a um mês de hoje, vais encontrar-te com um sujeito em Arab, Alabama. Este tipo, que dá pelo nome de Gutterson, vai ajudar-te. Vais direito ao Centro Cristão de Arab e perguntas pelo Gutterson. Percebeste? Ele tem tudo o que precisas e no dia que saíres os guardas devolvem-te a roupa com um bilhete de ida no bolso das calças. Se me estás a ouvir: a vida é tua, faz o que quiseres." Seco e directo, terminou e levantou-se da cadeira, saindo da sala como se nunca tivesse lá estado. Kurt permanecia imóvel no escuro. Um, dois, três, quatro segundos e o guarda Petterson entrou para o acompanhar, de novo, pelo corredor e até à cela. 

Uma luz solitária, um pequeno foco, entrava por entre as grades e reflectia uma forma estranha na parede. Meia-noite. Podia ouvir-se numa voz carregada, profunda e inerentemente bruta: "O que achaste dele hoje, amor?" - "Normal?! Não quero ser isso, já não sei ser isso! Estamos bem assim...", engoliu e decidiu, resoluto "Se é isso que queres, vou para lá, mas é «normal» que vá haver sangue... ele não está a contar tudo!". Em breve, o mundo voltou a sossegar, mergulhando a cela no breu. Kurt estava irascível, não conseguia manter-se imóvel no colchão, tantos anos depois a perspectiva de voltar a ver o exterior assustava-o. Não, não era isso. Tremia ao pensar num espelho, algures num motel, na casa de alguém ou numa estação de serviço onde contemplaria o seu reflexo a escassos metros de outro ser humano e teria de deixar se olhar como a um animal enjaulado. Na sua ideia jamais seria livre. 

Os trinta dias seguintes passaram como os anteriores e os outros antes desses. As manhãs eram passadas a fazer exercício, primeiro na cela, depois no pátio. A aquele velho edifício era o local mais a leste do paraíso ao cimo da terra, tão permeável ao calor que era normal morrer-se por desidratação. Na sombra, o efeito de estufa era assustador ao início, mas chegar ao pátio ao meio-dia e ser atingido pelo sol ardente... provoca alucinações. Sarah apareceu-lhe nesse dia, ao cimo da barra de halteres "Estou tão orgulhosa de ti. Estes anos todos acabariam com qualquer um, mas tu superaste. Estás forte... olha para ti. Não tenhas medo de deixar isto, este desterro, este inferno. Há uma vida à tua espera, independentemente das promessas que fizemos, nada se esgota no sofrimento. Prova que és capaz de fazer melhor, parte a pedra e volta a ser carne." - Os braços doíam-lhe de tanto tempo suspensos no ar e o suor descia-lhe pela testa queimando-lhe os olhos. No entanto, segurava o haltere como se fosse parte do corpo. As paredes de tijoleira vermelha só lhe podiam tirar o ar, porque a tenacidade haveria de as transpor.


quarta-feira, maio 09, 2012

Playlist: Ponto de Fuga

A história acabou e fica ainda tanto por contar... Sempre achei que a música fazia parte da história, ouvi-a enquanto escrevi e escrevi algumas canções para as ouvir a ler. Espero que ouçam e gostem. Talvez depois sugiram até algumas e quem sabe, façam a vossa playlist para ouvir naqueles dias de passeio, em que a estrada e a companhia deixam tudo o resto de parte.

1. Ain't No Love In The Heart Of The City - Al Brown
2. Superstition - Stevie Wonder
3. Being With You - Smokey Robinson
4. Never Can Say Goodbye - Isaac Hayes
5. Listen To The Music - The Doobie Brothers
6. Reelin' In The Years - Steely Dan
7. Running On Empty - Jackson Browne
8. Mexico - James Taylor
9. Against The Wind - Bob Seger
10. I Can't Tell You Why -The Eagles




sábado, abril 14, 2012

Ponto de Fuga: Epílogo

Dela sobressaiam os olhos, agora sem vida, vagarosamente cobertos pela bruma gélida que se abateu sobre a noite. Minutos como horas passaram, até sentir os músculos entorpecer, a respiração queimar-lhe no peito e a vida deixando-os lentamente. Não podia existir ali, ao lado do cadáver, sem se tornar um fantasma dele próprio e de tudo o que tinha vivido ao lado de Sarah: a sua cicatriz estava-lhe profundamente marcada na memória. Eram o universo um do outro, as possibilidades que por mero acaso temporal ainda não se tinham concretizado, os tempos presente, passado e futuro convergiram para este espaço e concederam-lhes a imortalidade.

Quando o sol se levantou e névoa deu lugar ao orvalho, a sua alma estava tão morta como o corpo dela, perscrutando o mundo pelos olhos incrustados nas cavidades negras de uma caveira pálida. Pelas veias corria-lhe um ténue fio de sangue e o peito empedernido pesava demasiado para se erguer, para voltar a ver, a sentir, a cumprir as regras básicas da existência a que todos os mortais estão adstritos à nascença. Um funeral não seria apropriado, não haveria palavras, rituais ou gestos de paz que pudessem apaziguar as suas almas. A violência da vida ecoa na sua morte, ensurdece o seu sentido e assume essa razão.

Há uma luz a guiar-nos durante o caminho que trilhamos, ela pode revestir várias tonalidades, cores e até formas, mas nunca deixa de nos acompanhar. No rescaldo destes acontecimentos, o seu farol mudou muito, no entanto só havia um caminho. Iria percorre-lo estoicamente, na solidão, na pobreza e no vácuo... e arrastaria outros para lá. Reclamaria as suas vidas para instar medo na espinha dos fracos de mente, impotentes para ver a luz. Ela estaria ao seu lado, até as estrelas se alinharem, como sempre esteve e nunca poderia deixar de estar, numa lei não escrita sobre a qual eram, são e serão - cabendo-lhes o céu que libertaria a tempestade que se seguiu.

O ponto de fuga é aquele lugar para onde convergem as linhas no horizonte, onde o profundo se perde e o todo se encontra. Somos todos pontos e linhas, que se apagam e pintam com a maior das facilidades. A fuga, o escape, demonstram o nosso significado: de onde vimos e para onde vamos. Em seis fases, Kurt e Sarah, descobriram o seu: primeiro o DESPERTAR, onde passam de um apelo inconsciente de escape para a necessidade e materialização do mesmo; em segundo o VEICULO, pois toda o movimento precisa de um corpo e de uma alma e o 442 confunde-se e impõe-se nos personagens, qual extensão do seu corpo e alma, oferecendo-lhes profundidade; seguidamente a PERSPECTIVA, em que são forçados a definir os seus limites e a sua distância, assumindo o desconhecido e para Kurt e Sarah o limite foi a sua relação, os dois coexistem no mesmo trajecto; para lá de meio o percurso torna-se emocionante e atinge o PICO, mostrando toda a sua beleza para os iludir; a quinta etapa a CONFUSÃO, levando os viajantes por atalhos, deixados à deriva afastados do real propósito e da sua força motriz; até à TRANSCENDÊNCIA, o final aparentemente amargo, onde passado o ponto sem retorno, os confronta com as suas escolhas, encerrando a verdade que tanto esperavam, para continuar a viver sem precisar de fugir.

Na realidade, o mais pequeno detalhe pode afectar-nos. Sem dúvida, no entanto é essa a pessoa que queremos ser? Não para o Kurt. Ele quis tomar as rédeas do seu próprio destino: escolheu a rapariga e conduziu o carro. Não fez a viagem perfeita, mas mais ninguém a fez por ele. Esta é a sua história e todos os outros são detalhes, pedras ou almofadas no caminho. Encontrou particular conforto neste pensamento quando, na prisão, rodeado por criminosos, percebeu que podia fazer valer esse tempo. Preparar-se para concretizar o que aprendeu na viagem com Sarah, tomando controlo, deitando as peças deste xadrez abaixo.

Kurt Stone voltará em: OS OLHOS DO SUL

segunda-feira, abril 09, 2012

Gostava de ser...

Que raio de vida é esta, onde já não escrevo, não leio, pouco me rio, e tão pouco passeio?

Já fui um rapaz inspirado, já escrevi umas boas linhas, já tive mais piada, já fui mais satisfeito.

Embora estranha, mas bem presente, esta insatisfação latejante, de uma criatividade encarcerada, de uma criação calejada, de uma vontade em partilhar, em ser, em poder reconhecer e ser reconhecido, num dizer, numa palavra.

Tenho andado cabisbaixo, sem esperança, sem alento, sem qualquer contentamento.

Talvez seja por isso mesmo, por falta de partilha, por falta de criar, de ser, de amar o meu intelecto.

Levei algum tempo, mas acho que hoje entendi. Num mundo mais cinzento em que a vida é quase só trabalho e responsabilidades, a criação de um dizer, de um ditado, de uma singela frase com significado, é a centelha, a mais leve centelha capaz de aquecer algo já há muito esquecido e adormecido.

sexta-feira, abril 06, 2012

Ponto de Fuga: ...Onde A Estrada Acaba (VI)

Recuperava ainda os sentidos lentamente e antes de sequer  abrir os olhos, amargava o sangue ainda fresco nas gengivas. A porta da frente escancarada deixou entrar o bafo quente que me fez levantar de uma vez. Derreado e ferido no orgulho, receava agora qualquer estalo nas costelas, pelo menos aquele que me impedisse de chegar ao telefone. Teria de haver um telefonema. Não. Pregada à ombreira da porta com um punhal, num papel com o número, a mensagem estava entregue. Estes tipos eram negociantes à séria, para seguir à risca. -"Agora já não és tão esperto! Que queres? Queres a tua mulher de volta?" gritava do outro lado do telefone o Comanche - "Que manobra foi essa no Diner?! O teu trabalho é entregar o pacote! Queres entrar na folha de pagamentos, é isso?". Só me restava implorar e suplicar pela segurança de S., enquanto ouvia as suas provocações. Sim, a este ponto rezava para nunca ter acordado dos efeitos da droga e tudo isto não passar de um sonho febril.

Abri a caixa, finalmente. Continha um cachimbo, mas procurei dentro do embrulho e lá estavam os papeis, manifestos de carga emitidos pelo Estado do Texas. A minha tarefa era entregá-los ao Armazém na Alameda Avenue, aqui em El Paso. Deveria depois receber novos documentos e entrega-los em Red Rock, no Red Rock Motel, onde - "É ao fim da Main Street e CASO CUMPRAS TUDO À RISCA, até à alvorada de amanhã a encontras viva". Depois de tudo o que tomei por garantido, restava a estrada, essa terra prometida agora nossa salvação.

Pisei o acelerador e larguei a embraiagem, naquela fracção de segundo entre movimentos o 442 faz o mundo tremer até desaparecer numa nuvem de pó. A primeira tarefa afigura-se fácil e rápida, no armazém seguem, como formigas no carreiro, sujeitos de tez escura carregando caixotes dos camiões para a zona de descarga. "Boa tarde forasteiro. Faça favor de dizer." inquiriu o indivíduo à minha frente. Suiças e cabelo grisalho escapando-se por baixo do boné, baixa estatura e aparência afável ilibavam Harry de qualquer convivência com actividades criminosas. - "Fiquei de entregar pessoalmente estes manifestos de carga, onde posso encontrar o responsável?" mal acabei a pergunta já a resposta saia cuspida - "Vamos lá para dentro miúdo. O índio não gosta destes negócios debaixo de sol. Queima, se é que me entendes".

Aqui começam as complicações, aquelas tão inesperadas e indesejáveis quando a vida quem mais amamos está em causa: Os documentos estavam entregues, mas devido ao seu atraso, teria de entregar a cópia forjada ao camionista que me aguardava numa estação de serviço em West Odessa. Quando está tanto em jogo é complicado racionalizar para procurar a falha no plano e quando não consegues encontrar a falha no plano, simplesmente, falharás. Por muito que conduzisse como fugido do inferno, cortando curvas e batendo no vermelho mais vezes que menos, estava demasiado exposto.

O Shooter's Gas and Grill em West Odessa era uma paragem de camionistas no meio do deserto e tirando umas dunas a bons metros, bem como dois ou três poços de petróleo no horizonte, não estava rodeada por nada. Ora, não seria aqui que nos iam apanhar, no céu aberto e ainda à luz do dia. Seria já na noite escura quando investia a cerca de 200 kms por hora em direcção a Bastorp. Cansado e com mais olhos no relógio que na estrada, pensando nela, sofrendo por ela na angústia de não saber, deixado com a ideia de ter sido engolido por uma trama maior que nós os dois. Ao fundo piscam as luzes azuis e vermelhas: estrada cortada, fim da linha e todas as metáforas que não me passaram pela cabeça por ter encontrado naquele borrão de cor lá ao fundo a figura do desespero...

Pé a fundo no travão e o carro afunda e contorce-se no asfalto, em câmara lenta, a suspensão desce junto às rodas, inclinada de sobremaneira para a direita e centrifugamente  guiado pela traseira encontro-me paralelo à barreira policial... largo o travão e piso o acelerador novamente para ganhar aderência e enfiar a toda a velocidade pela estrada de terra batida que desviava do caminho. A poeirada levanta em nuvem, embatendo nos faróis dos meus perseguidores. Forma um efeito de cortina, encadeando-os para os cegar em seguida e logo que a transpõem mergulham no breu. Despistei-os, mas estava demasiado perto de Red Rock para arriscar o regresso à estrada principal. Circulando erraticamente pelos trilhos do gado e caminhos secundários adjacentes às quintas da vizinhança, seguro-me ao volante, ignoro os solavancos e procuro a cada curva o Red Rock Motel.

O pórtico lia em letras de neon fundidas "Motel", só isso. Rachas no pavimento e as marcações do estacionamento secas e desvanecidas não logravam distrair o viajante do ar de abandono do edifício destruído. Em redor não se ouve vivalma e corridos alguns minutos decido aventurar-me. A luz do único poste lá fora passa em feixes de pó pelos buracos na parede, buracos de bala aparentemente. Passo a passo percorro a sala até tropeçar e sentir a picada na cabeça, ou talvez tenha acontecido ao contrário. Derrubado, volto a mim apoiado nos destroços de uma mesa de café e levanto a cabeça para ser surpreendido por uma sombra de uma pessoa, estática na ombreira da porta.
 
- "Quantas estradas tem um homem de percorrer... até admitir que está perdido?" proferiu a figura cadavérica do Sargento Thomas Hawkes e continuou, enquanto eu assistia atónito e em choque - "Sabemos quem és tu Kurt Stone, mas quem és mesmo tu? Um agarrado a querer subir na vida? Trabalhas para o J.? ...sejas lá quem fores tenho a agradecer-te por esta operação. Foste o sabotador... depois do que se passou aqui da última vez o Capitão Harding não queria arriscar a vida de mais um infiltrado. Sim, o mesmo que deixaste apeado naquele Diner em Benson: Elrod. Há semanas que sabíamos do vosso negócio da Califórnia, só nos faltava poder de fogo. Os manifestos que andaste a entregar foram a chave para voltar a por estes tipos na choça." disse enquanto adoptava uma postura altiva e arrogante. Sabia que me tinha usado e da injustiça que pendia sobre mim e, principalmente sobre S. - "Onde está a rapariga? ela não tem nada a ver com isto! Deixa-me vê-la!" insisti, agarrando-o pelo braço para ser derrubado com um murro no estômago em seguida. - "Não me toques!" - mais calmo, ajeitando a manga da camisa, confessou: - "Lamento ter de ser eu a dizer-te isto, mas ela já estava morta quando chegámos, Eddie "O Comanche" executou-a quando confirmou que tinhas feito o trabalho...".

Nesse momento entraram dois agentes e seguraram-me pelos braços, enquanto Hawkes me olhava impassível, a sua cabeça calva e as linhas do rosto como rastos de navalhas, movendo-se e dobrando-se. Ele falava, conseguia ver os lábios descendo e subindo, numa estranha dança hipnótica. No entanto, não o ouvia. Levantaram-me do chão como se pegassem numa mala de viagem, arrastaram-me até à rua e diante de uma maca, uma qualquer maca como se vê nos filmes, alguém destapou a coberta e lá estava, inerte, sumida e sem expressão, Sarah Anne Ralston: o princípio e o fim das minhas viagens.

domingo, janeiro 29, 2012

Ponto de Fuga: Datura (V)

De Las Cruces a El Paso não demorámos uma hora. Até que enfim, o Texas, aquele baluarte histórico do sudoeste americano. A fiesta nunca pára deste lado do Rio Grande e S. queria ficar uns dias para conhecer a cidade e absorver aquela cultura tex-mex. Afinal de que serve correr o mundo se não paramos um pouco para o sentir avançar também. Como uma força imparável que percorre o asfalto, deambulando sem rumo aparente para os que não percebem porquê, os que vivem no medo do seu isolamento ou para os que, simplesmente, não acreditam que haja algo no fim desta jornada.

Nos arredores da cidade por entre cactos, nuvens de poeira e pedregulhos, avistamos guarida à lei da estrada. O Beverly Crest Motor Inn é um daqueles locais hitchcockianos, prende-nos desde que o avistamos na estrada, fixando-nos no seu mundo próprio: Três pilares de aço amarelos seguram o seu logotipo de neon em forma triangular; ao lado o edifício da recepção em tijoleira do qual crescem cinco vigas para suportar o avançado que dá guarida ao drive-through; em seu redor ficam os quartos, numa correnteza de casas amarelas dispostas em U; e logo atrás, majestosas e imponentes, as Franklin Mountains. - "Piscina, Televisão, Rádio e Telefone... O nosso pedacinho de céu!" exclamou S., ironicamente, ao ler o sinal.

Parámos o carro diante da porta 19 e entrámos. O quarto teria decoração original dos anos sessenta, hoje substituída e renovada, mas manteve o espírito acolhedor. Uma casa-de-banho, uma televisão e uma cama: - "Que surpresa... Não se parece nada com a brochura". Ao olhar para o carro, sorrimos um para o outro - não havia bagagem a carregar - faltava apenas a "encomenda" de J., esquecida na bagageira e irradiando curiosidade. Cúmplices, deixámo-la ficar no cofre, agora era altura de voltar ao volante e partir para as ruas de El Paso.

No centro da cidade, por onde Wyatt Earp, Billy "The Kid" ou Pancho Villa caminharam, passeamos pela famosa South El Paso Street. Ao fundo da rua, existe a ponte Santa Fé que liga a Ciudad Juarez, México.  Ao longo do passeio, os prédios antigos partilham a herança cultural latina. Por toda a rua persiste a ideia de nos encontrarmos num colorido mercado ao ar livre. É possível olhar para dentro das lojas e ouvir o dono gritar "Pásale!". Um misto de sabores e aromas paira no ar e tanto cowboys como mexicanos frequentam os passeios lado a lado com homens de negócios e turistas. Por muito que o cenário intrigasse, impunha-se contra a minha natureza: não sou turista, falta-me paciência e inutilidade. Como qualquer homem simples desfaço-me do frete e vou à procura do bar mais próximo. Tragam-me um balcão de madeira, matrículas pregadas à parede e a cabeça de búfalo mais hedionda de todo o Texas que abro lá conta. Ainda assim parece ser impossível de encontrar tal taberna em El Paso: é tudo demasiado ordeiro e para qualquer lado que me vire, eriçam-se os pelos das costas como se andasse a ser seguido.

A noite vai caindo nas montanhas e voltamos ao Beverly Crest Motor Inn, cada vez mais longe da folia da cidade, os faróis depressa se tornam uma candeia na escuridão e o roncar do 442 o único barulho de fundo em quilómetros. Empurro a cassete de novo no leitor e suavemente ouve-se o primeiro solo de "I Can't Tell You Why" dos The Eagles. S. encosta-se a mim, trazendo uma sensação de paz e de que tudo está bem com o mundo mais uma vez. Em breve surge à vista o nosso oasis luminoso e, depois de carregados os sacos com vestidos, bugigangas e até um sombrero, fechamos a porta do quarto.

- "Querido, quero experimentar uma coisa contigo, só tens de me prometer que não te vais chatear, ok?" confidenciou S.
- "Nunca me pediste autorização para nada, estamos a falar do quê mesmo? Ah e já sabes que me vou chatear. Vais ter de me convencer com muito jeitinho..." enquanto me debruçava para a beijar no pescoço, para logo ser afastado.
- "Pára sossegado e ouve lá. Lembras-te quando passámos naquela loja onde até comprei aquele vestido verde? O irmão ou primo - não sei - da dona vendeu-me estas raízes... sabes o que é?"
- "Não faço ideia, mas não deve ser para fazer chá, não?" disse, impaciente.
- "É erva do diabo. Antes que digas qualquer coisa...";
- "Erva do Diabo... Que queres que diga? Que não é nem um bocadinho perigoso demais? Que não morrem pessoas à conta da brincadeira?"
- "Ouve! Tive uma colega de quarto na faculdade que estava a tirar farmácia e fez um trabalho sobre esta planta. Experimentou e tudo... e ensinou-me a preparar uma dose.";
- "Mesmo assim S., para quê??"
- "É especial para mim... sabes que acreditavam que a erva do diabo tinha propriedades exóticas. Como que revela o teu destino. Queria experimentar com alguém que fosse mesmo importante para mim...".

A conversa durou mais algum tempo, ainda que tivesse cedido antes. Não conhecia os efeitos desta droga, fui deveras incauto. Sobre S., não consigo sequer imaginar que demónio a terá possuído para sugerir uma coisa destas, quanto mais levá-la avante. Eventualmente, acabámos por beber o chá com uma dose mínima de raiz de Datura Stramonium, segurando-me pela mão e acariciando-me durante todo o processo. A minha relação com as drogas é pacífica, excepto com aquelas que mordem e deixam marca. S. encarava esta experiência como uma viagem de auto-descoberta, uma demanda pelas respostas do nosso íntimo, enfim, conversa de hippie... Não posso, no entanto dizer que não teve os seus momentos agradáveis. Enquanto esperávamos pelo começo da nossa viagem mística, deitámos-nos sobre a cama e... devo dizer que nunca  tinha sentido da parte de alguém uma entrega física e emocional tão intensa.

Não sei o que aconteceu depois, falhei a curva, abri os olhos, pestanejando e coçando-os, mas por mais que fizesse não conseguia voltar ao quarto. Estava num quarto diferente, onde o papel de parede era verde tropa, os quadros representavam cenas clássicas de caça e, talvez por estar ainda confuso, tudo o resto parecia ser de outro tempo. De outra era. Levantei-me, combalido, da cama de dossel e fui assaltado por uma sensação de medo extremo, não conseguia ver dois palmos em frente do nariz. Estava de dia, pois via luz a entrar pelas janelas, no entanto esbarrava contra uma barreira de escuridão que emanava de mim. Andava, desorientado, pelos corredores, chocando contra armários e paredes até cair estatelado no chão.

Arrastei-me até ao fundo do corredor, apoiado na ombreira da porta, devolvendo-me à verticalidade. Este quarto era, por sua vez, diferente dos outros. Parecia o Berverly Crest Inn, mas situava-se na mesma casa onde eu estava. A sua decoração era de meados do século passado, onde S. se quedava diante da janela, imóvel, no beiral. Clamava por ela sem obter reacção. Queria ser a resposta, ardia de ansiedade pelo fim desta viagem: - "Podes dizer e achar que não sei o que vai ser acontecer daqui para a frente. Se ficaremos juntos, se conheceremos outras pessoas, até se nos vamos esquecer do que fomos um para o outro. Eu sei quem sou. Sou o tipo para ti, o tempo passará e todos os dias serei essa pessoa. Tu vais saber-lo. Podia pedir-te agora, que tens dúvidas, para te lembrares disto, mas tu sabes que não tenho falta de memória. Não há alturas certas para sentir... quando perceberes o que te digo hoje será o primeiro dia da minha vida." confessei-lhe apaixonadamente".
 
- "Diz-me quem sou eu. Quem é o Kurt?" a resposta veio numa explosão de luz. Ofuscado, tomei o golpe por baixo do ombro e em seguida outro pelo peito. Ouvia uma voz rouca, estranha, gritando-me para me levantar: "horas de acordar, pinga-amor!" e a voz continuou, pontapeando-me pelo chão.
Encolhido no canto do quarto, atrevi-me a abrir os olhos: um sujeito esguio, de barba de várias semanas e com um aspecto deslavado, mirava-me, fazendo um esforço para não se rir mantendo a postura, intimidativo. Usava um colete de cabedal negro, nas costas figurava uma caveira de boi com uma coroa pendurada pelo corno, lendo-se acima Steer Kings. S. não se avistava em lado algum e eu estava nu, fazendo de saco de pancada para um motard. As minhas piores expectativas confirmaram-se: - "Temos a tua chavala! Onde é que está o caixote que apanharam daquele fuinha do J.? ...não precisas que te faça um desenho, pois não?".

sábado, janeiro 21, 2012

Ponto de Fuga: Por Estas Paragens... (IV)

Sempre achei que não existem estações no Arizona, só o calor algoz do deserto pontuado por raros pingos de chuva. - "Com este calor todo não admira os sacanas gostarem de andar aos tiros!" soltou S. enquanto sacudia o cabelo. O ponteiro marcava 90 mph, mas não sentia uma brisa, como se voassemos numa nuvem de algodão quente. S. tinha uma sensualidade natural: debaixo deste sol queria tirar-lhe os Wayfarers e agarrar-lhe o cabelo, provando-lhe a alma pela pele.  Sentia-me vampiresco, o horizonte parecia um quadro surreal colorido de amarelo torrado com salpicos de verde escuro e toda ela pulsava no vermelho dos meus olhos.

- "Não ouviste nada do que eu disse pois não?!" sorria por detrás dos óculos escuros. - "vamos parar nesta bomba de gasolina, refrescamos e chegamos a Tucson à noite. Acordas até lá?". Tinha de fazer algo quanto àquele sorriso gozão.
- "Queres-me ver fresco é?" e atirei-lhe com o pouco que restava na garrafa de água.
- "Opá cuidado com os estofos!!" guinchou tirando-me a garrafa das mãos para contra-atacar.
- "Não te preocupes que caiu tudo em cima de ti!" ria-me com as mãos chegadas à cara e todo encostado, quase fora do carro. Agora sim soprava uma vento agradável...

A vida na estrada era assim tão simples: "Reelin' In The Years" no rádio, cerveja na mão e logo chega aquele leve odor a pavimento que, por muito estranho que pareça, foi feito para se beber com malte.Na estrada, as outras pessoas, os outros carros são transeuntes. Alguns acompanham-nos nesta aventura, outros, simplesmente passam ao lado. Aos camionistas que nos apitavam, aos motoqueiros que nos passavam, a todos eles brindámos de Bud na mão.

Descendo o Estado pela I-10, Cochise County era o nosso alvo, no entanto caía o entardecer e não tínhamos chegado a Tucson. Um trio de motoqueiros aproxima-se pela retaguarda e no último brinde do dia levanto a garrafa bem alto. Duas chopper e uma Harley. Eles chegam-se demasiado perto, por picardia, por estupidez ou qualquer outra coisa... O maior e mais barbudo solta impropérios que não conheço. Nervosa, S. guina para a direita e a traseira foge. A 160 Km por hora, saímos da berma e a mesma areia quente que abominámos durante o dia voa na direcção das motos, cobrindo-os na cortina. Um despista-se e a força de quatrocentos cavalos do 442 atinge-me em cheio no peito, encostando-me ao banco. Desaparecemos pela estrada fora como sombras na escuridão.

Ao pôr-do-sol, saímos da Interstate e enveredamos por uma estrada velha nos arredores de Benson, quando finalmente nos dispomos a entregar o pacote de J., cuja morada remetia a um diner à beira da estrada. Completamente fora do mapa, aguardava-nos uma estrurura em madeira, pintada de modo a imitar aqueles restaurantes típicos dos cinquentas. A pintura desvanecida e seca, tinha estalado e no seu lugar estendiam-se farpas enormes. Em cima o letreiro decalcado em ferro lia "Moonpie Road Stop", ao que à entrada complementava um contraplacado escrito em tinta de spray "Prove a Tarte de Limão em creme merengue: 5$, vale 1$ Gasolina". Para compor o conjunto, dois degraus em escadote cuidadosamente alinhados ao lado um do outro, subiam os clientes à porta.

A empregada, equipada com bloco de notas, avental e  rede para o cabelo, era Doris: cinquentona, cansada e ligeiramente áerea, serviu-nos de imediato ainda que não tivéssemos pedido nada. - "Boa tarde meninos, provem um pedaço da nossa especialidade! A tarte lunar leva bolacha, chocolate e..." - o silêncio era desconfortável e assaltou-me a ideia que a cabeleira tipo palha desfeita de Doris tinha razão de ser.
- "limão em creme merengue?" vociferámos em uníssono, enquanto a despassarada assentia insistentemente com a cabeça.
Não é que ousasse desconfiar da empregada, mas quis tratar de negócios primeiro - "antes disto podemos entregar-lhe o pacote de J., é que estivémos o dia inteiro em viagem e nesta altura já cansa... só para evitar esquecimentos, percebe?";
- "ahahahah" ria nervosa - "O senhor J. disse para continuarem a viagem, depois diz onde...";
- "...paga a gasolina?" disparou S., deixando Doris visivelmente desconfortável.
- "se quiserem, o meu filho ajuda-vos com isso, afinal vocês pediram as tartes... ele está nas traseiras" concluiu, desparecendo pela porta da frente.

S. e eu olhámos um para o outro culposamente, assumindo no intímo que perturbámos o equilibrio mental da pobre criatura. As tartes, secas e duras, não deixaram o prato em que foram servidas. Levantámo-nos e saímos pela porta da frente, levando S. o carro às traseiras. Deste lado, contíguo ao restaurante, erguia-se um telheiro em madeira. George, tal como fora apresentado pela sua mamã, vendia, a quem tivesse o azar de passar naquele ermo, gasolina em garrafões de água.

O rapaz adolescente tinha claramente uma deficiência no desenvolvimento: dos cinco ou seis dentes negros que tinha, um saía torto e perturberante do labio rebentado. - "então amigo, hoje vais ganhar umas massas para comprar caramelos? tens ar de quem gosta de caramelos..." brinquei eu. O rapaz contorcia-se num ataque de riso descontrolado, desvendando toda a "cremalheira" desdentada. Logo chegou a mãe que, frenética, o levou pelo braço - "já te disse para não falares com as pessoas!!" ouvia-se do outro lado. Mais uma vez S. recriminou-me com o seu olhar desaprovador.

Despejámos o primeiro garrafão no depósito e a meados do segundo chega George - "Tenje o homém à tua procura. Jama-se Elrod!"; Passei-lhe a mão pela cabeça fingindo compreender tudo e indaguei do que se passava. Lá dentro, o motoqueiro barbudo que nos abordou na estrada falava com Doris. No seu braço direito, para além da tatuagem de um demonio cornudo, saltou-me à vista o bastão de baseball. Não ia sentar-me à mesa e tentar dialogar com este tipo. Voltei ao telheiro o mais depressa possível e, ofegante, tirei o garrafão das mãos de S. - "vamos embora môr! Sarilhos!" apesar de ter sido o mais explícito possível ela não ouviu. Num movimento, larguei uma nota de vinte a George e saltei para o banco - "vamos! rápido!". Ela obedeceu e os pneus do 442 chiaram dando a volta ao diner. Cá à frente o sacana trapalhão estatelou-se ao comprido no chão saindo pelos degraus improvisados. S. aproveitou a deixa para lhe despejar o segundo garrafão de gasolina por cima da moto. Não nos apanharia desta vez.

Extasiados pelo sucedido, ríamos como George: - "viste aquilo?!"; "olha a lata daquele tipo vir atrás de nós?!"; "filho da ..." gritava S. quase de modo histérico. O medo de sermos apanhados guiou-nos pela noite dentro, só parando no Novo México.

À beira do cansaço extremo, levei-nos para fora da I-10 e novamente trocámos a estrada pelo deserto. Perto de Las Cruces, atrás de uns arbustos, tapámo-nos com um cobertor e adormecemos em cima do capot. Não havia lua esta noite e cada grão de areia que mexia soava a perigo. Por estas paragens haviam coisas piores que cobras, coiotes e motards: os desaires do filho e a vergonha da mãe presos à terra, deixam-me a ideia que só dentro do carro seríamos autênticos. Fomos imprudentes, no entanto não consegui disfarçar o esgar de triunfo quando a manhã raiou.


sexta-feira, janeiro 20, 2012

Ponto de Fuga: O Grande Desconhecido (III)

“Freedom (n.): To ask nothing. To expect nothing. To depend on nothing.” — Ayn Rand, The Fountainhead

Há uma presença que nos guia, o espectro de um objectivo. Uma atitude. Um modo de estar. Esteve lá desde que nos conhecemos, no entanto levamos anos para o reconhecer. Há um padrão, um circuito de ideias de coisas, atraindo-nos em círculos. Um blusão de cabedal, um olhar de soslaio ou o vento a rasgar aos ouvidos, como agora...

É impossível deixar a grande LA, as saídas multiplicam-se e parece que ficamos no mesmo lugar. A quantidade de caminhos, ramais e junções não parece uma criação humana. Da I-5, pela I-405, fugindo de LAX as estradas são números bem reais. Tantas tentações: Santa Monica, Long Beach, Sherman Oaks, Bel Air ou Beverly Hills. Hollywood é opulento e está presente no imaginário a todo o instante, como se fossemos personagens de todos aqueles filmes... encarnando caras no cenário ou figurantes desfocados.

No rádio vive um pregador, independentemente do posto, forma-se uma amálgama de mensagens com o mesmo destinatário, numa alegre conversa que orquestro com o manípulo: "encontre a luz!; só este fim-de-semana, promoção inédita no hotel Palm Bay; fiquem com a mais recente sensação da pop...; vem daí irmão, abraça a vida; com o patrocínio Dino's Bar & Grill...; ahah e vira-se para mim e chama-me mentiroso!! na cara!!; hoje no Senado...;"
- "pára com isso..." irrompeu S., empurrando a cassete, enquanto a alma de Al Brown profere sem misericórdia "...there ain't no love in heart of the city...". Tão cortantes as suas palavras revelaram a "presença".

Num gesto de necessidade escapista, envolvi-a candidamente num beijo, em que ficámos alheios dos "destinatários", de quem vai para o trabalho, das mães que vão buscar os filhos à escola, das crianças aborrecidas no banco de trás. Já não éramos livres: não pedimos nada, não esperámos nada, mas dependíamos um do outro para fugir. Faz falta alguém em quem tocar para lá da alavanca das mudanças, alguém que nos mude as estacões de rádio, olhando-nos sempre da mesma maneira mesmo enquanto, sujos de escape preto na cara, comemos um hambúrguer gorduroso em cima do tablier.

É um caminho emocionante, ainda que ao mesmo tempo pachorrento, da I-10 em direcção este por Beaumont no Riverside County. Palm Springs mesmo aqui ao lado com as suas moradias de luxo, piscinas e palmeiras enclausuradas no vale. Nunca fui muito do Golf e uma das verdades quase absolutas sobre a California, é que deixando de ver o mar tudo o resto é deserto. O pavimento ferve ao Sol, independentemente dos nomes bonitos, dos centros comerciais e dos aeroportos. Finalmente, o Arizona acolhe-nos pela U.S. Route 60, "The Superstition Freeway".

A estrada é exigente e não nos deixa parar, nem lhe convém, porque à sua berma os cabelos não voam, as mãos não tremem e vida estagna. Com S. ao lado e, finalmente fora da cidade, o ponteiro subia pelos Kms em direcção ao grande desconhecido americano.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Ponto de Fuga: 442 (II)

Chegados a L.A. o nevoeiro esmaga-nos, assim que se abrem as portas do comboio. A poluição não permanece apenas no ar, corrompe toda a cidade e suas gentes.
- "Hey, onde mora mesmo esse teu amigo?" – ela não me ouve e o olhar inquiridor que sobra da minha pergunta desfaz-se num espasmo facial. Não evito o soltar de uma lágrima. Talvez, provocado pelo ar viciado ou quem sabe não seria um pronuncio do que estaria para vir.
- "Diz, querido? …o J. mora aqui perto da estação. Não ligues ao que ele diz, ele é mesmo assim".

Procurei assentir com o olhar. Não consegui disfarçar a indiferença. A personalidade idiossincrática do J. era mais uma coisa que fazia parte de um mundo onde nem eu nem ela pertencíamos mais. Tudo podia ser ignorado. Em seguida tomámos um taxi.

Passámos para um bairro de casas baixas, de grades nas portas e janelas e nitidamente sujo. As casas tinham uma lógica comunitária, havia um pátio grande rodeado pelas habitações de 2 ou 3 andares, a escadaria aberta e os corredores eram de livre acesso. Como as pessoas que lá viviam, o meio parecia descartável e barato.

S. esgueira-se pelo buraco de uma vedação de arame que dava para uma parcela de terreno baldio entre 2 prédios. Fugindo pelas ervas e amontoados de lixo, serpenteia até ao outro lado da vedação como se percorresse este caminho todos os dias. Aquela deusa dançando por esse degredo, no seu vestido verde, era uma visão anacrónica de dias de um futuro passado. Dias mais livres, onde a beleza das coisas mais simples era devidamente apreciada.

Subimos por umas escadas iguais a tantas por onde passámos e fomos até ao 3º andar. Lá em baixo o pátio dava um aspecto de abandono: a fonte na entrada estava seca e a cor da estátua parecia sumida e seca; a um canto havia uma pilha de ladrilhos, arrancados ou partidos do chão; e dois cactos cresciam no canteiro, cujas rachas deixavam sair fios de terra, estendidos pelas imediações.

Enquanto olhava para o pátio, J. assoma-se à porta. Nunca o tinha visto, ainda assim, construí uma imagem dele, ou melhor do que esperava dele: Um ganzado simpático, tipo hippie acabado com filosofias de vida mirabolantes, cabelos e barba compridos em roupão e pijama… Por aí, como se o abandono e degradação do prédio se reflectisse no seu inquilino. No entanto, estava redondamente enganado. J. era um homem careca, de feições envelhecidas para a idade, um dealer excêntrico, mas impiedoso. Os seus óculos e fato de treino de designer deixavam transparecer a sua faceta de pedante.

A cumplicidade no cumprimento que dirigiu a S. e a resposta desta aumentou o meu desdém por aquele tipo: “Olá filha!” – “Oi, fofinho…”.
Por dentro a casa reflectia um ar espantosamente sóbrio e arrumado, não que estivesse perfeitamente cuidada, no entanto, não havia nada de efeitos zen\new age à drogado místico. Aquele era o lar do “empresário de psicotrópicos e outras substâncias potenciadoras de consciência”, usando a expressão com que J. se caracterizou.

“Tens o carro?” – perguntou S. “Claro que tenho! Ainda me ofereceram dinheiro por ele… mas, como era teu…” retorquiu J. em tom fanfarrão.
“Já pensaste como vais pagar? Sabes que aos amigos fazem-se favores e tu passaste tanto tempo sem cá vir que nem sei bem se ainda somos amigos” continuou no mesmo tom pedante e fanfarrão.

Tive de me conter. Este tipo conspurcava a presença de S. com a sua atitude subtilmente insidiosa. Ela avisara-me antes de sairmos do comboio – “O que quer que aconteça lá tens de ignorar. Só vamos pelo carro. Confia em mim, ok?”. Quando eles entraram para um quarto e fecharam a porta foi a essas palavras que me agarrei. Paixão. Vem do latim passio, significa suportar, sofrer.

A fé é um instrumento poderoso, com fé conseguimos tudo. Dentro da nossa cabeça, mas conseguimos. Às vezes é isso que nos permite ultrapassar obstáculos e situações fora do nosso controlo. Teria de suportar a sua traição? Óbvio que não. Teria de suportar as minhas dúvidas e desconfianças, que neste exemplo não eram mais que paranóias sem ameaça real. Com certeza, S. detestava tanto o tipo como eu. No entanto, a sua paixão pela nossa liberdade significava suportar a sua presença. “Eu não aguentava…” – murmurei.

Em menos de dez minutos saíram do quarto e ela trazia um embrulho nas mãos. O preço do favor era uma entrega. Assim, ficaríamos todos amigos. J. levou-nos à garagem onde guardara o 442, era assim que S. apelidara o seu carro: um Hurst\Oldsmobile 442 de 1970. Descapotável, vermelho, e um verdadeiro “mastodonte” na estrada com os seus quase 400 cavalos de potência. Havia magia naquele carro, como se pudesse inspirar nos seus estofos o vento de mil quilómetros e olhando para os pneus via alcatrão até onde o horizonte acabava.

Findava-se também a nossa visita e J. estava cada vez mais perto de se tornar num minúsculo ponto no retrovisor. “Vejam lá se não se esquecem de me agradecer!” gritou, por entre o roncar do 442, mexendo os lábios numa conversa muda. Tudo desaparecia, deixando-nos sós neste retiro de metal e borracha. Atrás ficavam aquelas casas falsas, abandonadas pelos seus habitantes, reflexo do seu próprio abandono.

Via nitidamente agora: J. abdicou da sua vida ao tornar-se um mercador da morte. Num ciclo vicioso, tudo nele alterara-se para melhor servir a droga. Um prédio inconspícuo, um interior ostentoso. Uma amiga transformada num “correio”. Tudo mais era descartado, abandonado como o pátio e a fonte, outrora escapes arquitectónicos para aliviar a fachada e um espaço de comunhão. Hoje, a sua manutenção seria uma despesa desnecessária, para os pobres de espírito.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Ponto de Fuga: Despertar (I)

Faíscas. Labaredas. Fogo. É isso que dizem quando duas pessoas se envolvem intensamente. Como se existisse uma resistência natural ao acto mais primário da humanidade. Sendo o esforço para o atingir de tal modo avassalador que, logrando-o, tudo o que resta da sua passagem é um rasto de chamas. Acertei? É isso? Ou estou só lá perto? Para mim, nem isso. Mas posso estar enganado, afinal de contas tenho estado a vivê-lo e só agora me apercebi.

Com o chiar metálico do comboio nas linhas é S. que me preenche as ideias: espreitando distraidamente pela janela, envolve-me no seu perfume natural de cerejas secas ao sol. Isso existe, ao menos? Se calhar devia. É através dela que contemplo a paisagem, perguntando-me se está realmente a observar o oceano descendo por baixo dos carris, acidentadamente percorrendo a linha costeira. Ou não, estará antes, como eu, absorta em abstracções românticas. Pois, provavelmente não.

É disto que falo: não há fogo, nunca houve. Há sim uma segurança e certeza em como viveremos, um no outro. Somos o universo, repleto de possibilidades que já se concretizaram e, só por mera causalidade, o tempo não acompanhou. Ainda. Eis que, para quem recusa a existência de fogo e paixão, parece uma visão bastante calorosa, eu sei.

Até no trepidar da carruagem questiono se o balançar dos seus cabelos é real. Quem mais faria isso? Eu não - diria até há pouco tempo. Antes de nos conhecermos, como que entregues a delírios químicos, crispados por ácido e álcool. Vivi o sonho nestas últimas semanas... duas, três... não importa. Ao longo desses devaneios febris construiu-se o meu ideal de mulher. Compondo-se gradualmente até, por fim, acordar ao meu lado.

Sei o que estão a pensar: este tipo está completamente apanhado ou claro que a pôs num altar. Nem por isso. Aliás, esta imagem, ideal (ou o que lhe queiram chamar), que apareceu turva e só agora se torna clara e distinta, foi devidamente sujeita a tratamento iconoclasta. Comparada com todas as relações que já vivi e injustamente comparada, visto que se trataram de relações falhadas. Isso devia-lhe ter tirado o encanto. Foi aqui que o fogo ardeu? A paixão? O amor à primeira vista? A atracção fatal?

Digo-vos: foi agora, quando candidamente desviou o seu sorriso para a janela e em silêncio descansou a sua mão na minha.
Tudo o resto parou para fugirmos, percorrendo o caminho em carris, à beira-mar. Sem horas e sem plano. Paixão? É sonhar e despertar para nos realizarmos no sonho. Tem tanto a ver connosco como com a outra pessoa, consumidos na descoberta e evoluindo com ela. Pedi-lhe reacção e ela ofereceu-a.

Naquele dia na esplanada, devo ter corrido todos os lugares-comuns, desbloqueadores de conversa e tudo mais para me fazer ver aos seus olhos. Manteve-se morna e distante, diria até altiva, respondia em monossílabos e escondia o olhar. O meu entusiasmo enfadava-a, queria algo mais: teria concedido a este tipo uma aberta e ali estava ele a pôr-se em bicos de pés e a fazer o pino. - "qualquer um pode dizer essas coisas, é só conversa" pensou, afastando a sua mente para longe do meu paparrear. Como em todos os desastres à espera de acontecer muito depois do choque fica o sofrimento, que durou cerca de vinte minutos, até surgir um daqueles olhares pesarosos para o relógio e o "...vou ter de ir agora, tenho ainda trabalho para acabar hoje. Falamos outro dia".

Contam-se dias, meses e anos para evocar um momento excepcional, mas não se contam segundos nem minutos. Os que se seguiram foram determinantes. Peguei num guardanapo e na caneta, escrevinhei: "Pois. Eu também não consegui esperar. Volta para trás!". Dobrei-o sem que tivesse oportunidade de o ler, passando-o para as suas mãos. - "olha, abres quando chegares a casa. Só quando chegares a casa" e fiquei imóvel, enquanto S. se afastava. Sim, deixei a ansiedade tomar conta dos minutos que se seguiram... e voltou. Exclamava agora um sorriso radiante. Era essa a minha natureza. Lembro-me de lhe sussurrar ao ouvido nessa noite "...agora mostra-me a tua".

De volta ao presente, candidamente fixa o seu olhar no meu, a forma como pronunciou aquelas palavras - cortante e incisiva - convenceu-me ainda antes de delas retirar significado: “Preciso de fazer uma viagem. Tenho de voltar para encontrar a minha casa.” – “Eu vou contigo”, respondi. “A nossa casa é onde nos sentimos bem. Tu és a minha casa…”, pensei para mim, sabendo que queria tê-lo dito.