Deitado na cama a ouvir a música que embala o sono dos tristes, lembrei-me mais uma vez de ti, como tantas outras vezes durante um só dia. Não te recordo com pesar, não me custa nada pensar em ti da forma como penso, não é penosa a repetição indiscriminada da tua imagem na minha mente.
Era capaz de desenhar a tua face com os meus dedos sobre uma tela de seda, sentir o movimento dos teus lábios ao dizeres o meu nome, não me esqueci de nenhum pormenor teu, tudo registado em olhares furtivos, em esgares escondidos por vergonha de olhar nos olhos.
Sinto no meu peito o calor do teu corpo de quando te encostas em mim, registei por puro gozo muito dos teus tiques, vejo agora o movimento das tuas mãos, os teus gestos com os ombros, toda a graciosidade de uma alma para além de um corpo.
Por entre os dedos sinto um ardor, é a falta do teu cabelo a tocar-me na pele, não foram vezes suficientes as que senti tão puro fio de mel, com todo o seu fel embutido na mais pura graça que são os teus cabelos.
Cada sorriso teu é marcado numa Polaroid cerebral, todos eles devidamente anotados, todos eles apreciados ao sabor de uma banda sonora que só eu oiço quando te vejo sorrir, tudo o mais à minha volta paralisa para depois desvanecer com um suspiro meu como se fosse uma bola de sabão empurrada pela brisa suave de mais uma madrugada a pensar em ti.
Tantas foram as vezes a pensar em ti a olhar para o tecto sobre a minha cama, que o teu rosto já poderia ser o padrão daquele espaço vazio e branco, colorido com as cores do teu rosto de uma palidez boreal, tão bela como a mais pura essência da natureza, tão prefeito como um fresco na mais magnificente arquitectura secular.
O teu jeito de andar, tudo tão leve e solto como quem caminha sobre campos de algodão no Éden, ou como quem passa por cima de sentimentos tão ingénuos como o meu.
Ninguém mandou-me apaixonar por esse teu jeito de ser, tão inacessível como convidativo, és a mais pura das armadilhas para os apaixonados de bom gosto, e continuo a imaginar-te todas as noites como se estivesse a observar-te em uma qualquer hora de mais puro prazer visual, todos os frames dos teus movimentos são puros slides de êxtase e prazer para quem te vislumbra com um coração de ver, com a alma cheia de um vazio provocado por ti, com a ínfima esperança que um dia preenchas este coração do mesmo modo que preenches a minha mente, é outro coração que também sente.
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