sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Reflexões tardias

Este é um daqueles posts que não sei bem como escrever. De certo um dos mais reflectidos em toda a minha vida, e no entanto tão vazio de sentido no que toca a partilha com o mundo. Temos sempre pensamentos nosso, reflexões com sentido, pensamentos bons, maus, vazios, significativos. Este será sem dúvida um pensamento em que se encaixa tudo e nada.

Estava à procura de um livro de poetas russos, que gostava de reler, e ultimamente tenho lido muito, e dentro desses muitos livros, tenho lido um pouco de tudo. Poesia, pequenos contos, livros mais complexos, livros menos complexos, dicionários, livros técnicos. Embora este post não seja sobre literatura, como já tinha enunciado posteriormente, tudo têm relevância neste post.

Enquanto procurava o tal livro de poetas russos, encontrei uma caixinha cheia de cartas antigas. Maioria eram cartas de ex namoradas, mas também tinha cartas de família, especialmente relacionadas com aniversários, como postais de aniversário de alguns amigos, ou cartas a desejar um feliz aniversário enviadas pelos meus irmãos.

Decidi perder uns minutos e passar os olhos por essas cartas, e acabei por ler outras mais que tenho guardadas numa gaveta. Nessa gaveta tenho muitas recordações, maioria com um significado amoroso, mas também muita coisa relacionada com momentos da minha vida que não quis largar.

Em quase todas as cartas ou postais de cariz amoroso, é repetido o mesmo rol de frases, que quase se tornam em chavões de proporção bíblica. Frases como "Quero-te para sempre", "És tudo para mim", "És a razão da minha vida", ou o tão afamado "Amo-te muito para sempre" ou a versão mais soft "Amo-te muito", são uma constante em todas essas cartas.

Depois de passar os olhos por essas recordações, decidi pensar na vida, fiquei um pouco melancólico, e decidi ir para a janela pensar na vida.
Não se vê uma única estrela no céu, não se vê a lua, e o único feixe de luz é completamente artificial, luzes da casa de alguém ainda acordado ou dos candeeiros que iluminam a rua.

Por momentos pensei, que seria uma bela analogia esta da luz artificial com a facilidade com que se diz amar e tudo acaba. Por momentos pensei se não será o amor todo um pouco artificial. Ver o amor como uma luz artificial que nos guia por partes da nossa vida em que temos a necessidade de justificar sentimentos e necessidades com palavras que tenham algum impacto e peso ao ser proferidas.

Se quero ser honesto não podia pensar assim. Eu sei que já amei nesta vida, e não seria justo pensar que foram sentimentos artificialmente criados pelo meu espírito para me agarrar a algo que queria, que necessitava e prezava. Não posso admitir que me sinta bem ao adaptar todo o significado de amar a uma criação puramente artificial por forma a alimentar necessidades de sentir algo.

Sei que não amei em vão, que raras tenham sido as vezes que usei essa palavra de forma desalojada, ou sem sentido, apenas para agradar alguém ou facilitar que se proporcionasse o cumprimento de algum desejo.

Apenas fiquei com dúvidas se vale a pena. Não questiono se vale a pena amar, lógico que vale, mas questiono antes se vale a pena amar de maneira libertina, se vale a pena amar da nossa maneira. Digo isto apenas porque é mais do que claro que existe uma pressão socializada para valorizar o amor, para o quantificar, para o encaixar de alguma forma nas expectativas dos outros. Já fui acusado de amar demasiado, e também de não amar o suficiente. Já tive dificuldades em descobrir o amor, e tive dificuldades em o esconder.

Nos livros que tenho lido, não é frequente falar de amor. Penso que de certa forma, em certos períodos da história literária, o romantismo e o valor do amor perdeu fé, e deixou de ser retratado ou aplaudido, usado com tranquilidade ou mesmo definido em pequenos trechos. É comum encontrar um sentimento como a paixão ou o desejo, mas o amor, é um assunto totalmente diferente, é outro grau de insanidade, e uma espécie de tabu.

Apesar de tudo isso, num dos livros que tenho lido, uma personagem fala de amor. A pior e mais aterradora forma de amor. O amor incondicional por parte de uma só pessoa. No fundo trata da mais aterradora situação, um homem que ama incondicionalmente, é correspondido, mas de uma forma muito leve e tímida, sendo que a mulher não o expressa nem admite sentir no mesmo grau, ou quanto muito admite sequer que sente alguma coisa. No fundo nós sabemos que sente, porque somos o leitor e temos acesso ao sentimento de ambas as personagens, mas o nosso bravo rapaz ama uma mulher que não é capaz de retribuir mesmo que o provoque vezes sem conta para que este lhe diga o que sente, e que de forma quase debochada espirre em sangue aquelas palavras pela boca, e após o desgraçado o ter feito com o maior brilho nos olhos, manda-o embora, porque simplesmente não lhe apetece retribuir, e prefere fechar em si qualquer possibilidade de tudo dar certo, a ceder em ficar naquela posição que considera de vulnerabilidade.

Ora em minha opinião uma pessoa que não ama por medo, quando sente intimamente que o devia fazer, é claramente estúpida.
Não excluo que as consequências de expor um sentimento como o amor não possam ser aterradoras, apenas digo que o medo não devia justificar o sacrifício de uma coisa que pode ser tão simplesmente fantástica e satisfatória.

Temos pessoas que não sabem claramente o que é amar, e utilizam levianamente o significado desse sentimento, a outros tem de ser arrancado a ferros, outros de forma quase herética afirmam num piscar de olhos que amam, sem sequer saber o que sentem.

Podia alongar-me neste assunto, mas retiro já algumas conclusões para este post, porque atingi um ponto em que acho toda esta conversa absolutamente inútil.

Primeira conclusão é que amar não é fácil, nunca será, e o amor é algo que requer demasiada imbecilidade sentimental. Pode ser a coisa mais linda do mundo, mas meus amigos o amor é capaz de ser o maior mal encapuçado de bem que existe neste mundo.

Hoje em dia, o mundo não está feito para românticos, pelo qual me retiro de mansinho desse palco. Prefiro ficar na sombra esquecida de um bastidor, do que na ribalta de uma peça social que não foi feita senão para a tragédia da minha espécie.

O amor é uma doce ilusão que se confunde com realidade, enquanto durar é um feliz sonho. Não digo que não se deva amar, apenas digo que se deve sonhar sempre que possível sem ter medo de um facto quase garantido, que qualquer dia, temos de acordar. Não tenham medo disso. Vale sempre a pena amar, e lutar por isso, mas ninguém me convence que é coisa de débil mental. Como já ouvi dizer, "Love isn't blind, love is retarded".

Pessoalmente, hoje, neste momento, se tiver de pensar numa pessoa, mais depressa penso e sinto falta de quem nunca me disse amar, nunca me mandou uma carta com qualquer coisa do género. Sinto falta de quem me fez crescer, de quem me fez ver a vida por mim mesmo, de quem gostou de mim aceitando-me e compreendendo-me por completo, numa paixão que se complementava enquanto lambíamos feridas de quem nos dizia amar para sempre.

PS. Este post vale o que vale, são quatro da manhã e estou cheio de dores de cabeça, garanto-vos que o pensamento na minha cabeça era muito mais elaborado, chegava a ter piada, e parecia muito mais positivo do que qualquer porcaria que possa ter escrito aqui em cima. É complicado expressar uma opinião sobre uma coisa que pensamos saber muito, e no entanto se revela um complexo mistério em qualquer altura.

1 comentário:

JoãoTheago disse...

Ehpa... é nestas situaçoes que eu penso: como raio pode alguem que nao sou eu, escrever uma cena tao parcida com algo que eu proprio ja pensei, e tambem a olhar para uma luz dita "artificial".

Tá excelente.

- bravo -