sexta-feira, fevereiro 06, 2009

A história de ninguém e de alguém.

Um dia tenho de vos contar a história do ninguém que tinha inveja do alguém. Primeiro tenho é de a escrever, só estou a aguardar que a história acabe.
É uma história muito bonita de ping pong com muitas palavras glicodoces e trincadas por metade.
O ninguém não era mais que um sonhador, um ninguém que queria um terreno em Mafra onde ser feliz e talvez uns momentos de descanso. Ninguém sempre tentou e esperou pela mais pequena esperança de ouvir o seu nome dito ao ouvido. Ter um sinal expresso de que poderia lutar para ser feliz. Ninguém acabou por se cansar, mas nunca deixou morrer o sonho. Ninguém passou por muito tal como muita gente, mas nunca deixou de sonhar com uma casa em Mafra, coisas simples como essa. Uma casa com túneis e prisões para manter os mais pequenos afastados do seu descanço. Ninguém até chegou a fazer uns rabiscos para servir de planta para esse sonho, mas por certa altura acabou por não ter lágrimas para regar tal planta, que secou tal como o seu coração, mas que não morreu. Vive num sonho, guardada numa esfera de felicidade morbidamente adormecida. Porque ninguém sempre gostou de sonhos simples, ninguém nunca gostou de desistir deles.
Ninguém, sem se deixar vencer, continua a vaguear pelas ruas sempre a espreitar pelo seu sonho e por quem o personifica, e de cada vez que passa naquele mural com tantas coisas escritas, e vê bonitas mensagens para alguém, ninguém não consegue deixar de ficar a pensar como seria bom ver lá o seu nome por uma vez, mesmo que fosse de modo disfarçado, em código perceptível, para poder sorrir enquanto espera pacientemente.
O ninguém não é infeliz, o ninguém só não consegue dar a volta à vida de modo a ter quem quer, quem sonha, quem foi dele em alguma altura da vida. Ninguém, quer de volta o sonho, quer de volta uma migalha do que teve, e dessa pequena semente poder fazer crescer de novo algo bem maior que todas as barreiras que se lhe apresentam pela frente durante a sua vida.
No fundo ninguém só queria ser alguém, e sendo alguém queria ser de alguém.

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