Chegados a L.A. o nevoeiro esmaga-nos, assim que se abrem as portas do comboio. A poluição não permanece apenas no ar, corrompe toda a cidade e suas gentes.
- "Hey, onde mora mesmo esse teu amigo?" – ela não me ouve e o olhar inquiridor que sobra da minha pergunta desfaz-se num espasmo facial. Não evito o soltar de uma lágrima. Talvez, provocado pelo ar viciado ou quem sabe não seria um pronuncio do que estaria para vir.
- "Diz, querido? …o J. mora aqui perto da estação. Não ligues ao que ele diz, ele é mesmo assim".
Procurei assentir com o olhar. Não consegui disfarçar a indiferença. A personalidade idiossincrática do J. era mais uma coisa que fazia parte de um mundo onde nem eu nem ela pertencíamos mais. Tudo podia ser ignorado. Em seguida tomámos um taxi.
Passámos para um bairro de casas baixas, de grades nas portas e janelas e nitidamente sujo. As casas tinham uma lógica comunitária, havia um pátio grande rodeado pelas habitações de 2 ou 3 andares, a escadaria aberta e os corredores eram de livre acesso. Como as pessoas que lá viviam, o meio parecia descartável e barato.
S. esgueira-se pelo buraco de uma vedação de arame que dava para uma parcela de terreno baldio entre 2 prédios. Fugindo pelas ervas e amontoados de lixo, serpenteia até ao outro lado da vedação como se percorresse este caminho todos os dias. Aquela deusa dançando por esse degredo, no seu vestido verde, era uma visão anacrónica de dias de um futuro passado. Dias mais livres, onde a beleza das coisas mais simples era devidamente apreciada.
Subimos por umas escadas iguais a tantas por onde passámos e fomos até ao 3º andar. Lá em baixo o pátio dava um aspecto de abandono: a fonte na entrada estava seca e a cor da estátua parecia sumida e seca; a um canto havia uma pilha de ladrilhos, arrancados ou partidos do chão; e dois cactos cresciam no canteiro, cujas rachas deixavam sair fios de terra, estendidos pelas imediações.
Enquanto olhava para o pátio, J. assoma-se à porta. Nunca o tinha visto, ainda assim, construí uma imagem dele, ou melhor do que esperava dele: Um ganzado simpático, tipo hippie acabado com filosofias de vida mirabolantes, cabelos e barba compridos em roupão e pijama… Por aí, como se o abandono e degradação do prédio se reflectisse no seu inquilino. No entanto, estava redondamente enganado. J. era um homem careca, de feições envelhecidas para a idade, um dealer excêntrico, mas impiedoso. Os seus óculos e fato de treino de designer deixavam transparecer a sua faceta de pedante.
A cumplicidade no cumprimento que dirigiu a S. e a resposta desta aumentou o meu desdém por aquele tipo: “Olá filha!” – “Oi, fofinho…”.
Por dentro a casa reflectia um ar espantosamente sóbrio e arrumado, não que estivesse perfeitamente cuidada, no entanto, não havia nada de efeitos zen\new age à drogado místico. Aquele era o lar do “empresário de psicotrópicos e outras substâncias potenciadoras de consciência”, usando a expressão com que J. se caracterizou.
“Tens o carro?” – perguntou S. “Claro que tenho! Ainda me ofereceram dinheiro por ele… mas, como era teu…” retorquiu J. em tom fanfarrão.
“Já pensaste como vais pagar? Sabes que aos amigos fazem-se favores e tu passaste tanto tempo sem cá vir que nem sei bem se ainda somos amigos” continuou no mesmo tom pedante e fanfarrão.
Tive de me conter. Este tipo conspurcava a presença de S. com a sua atitude subtilmente insidiosa. Ela avisara-me antes de sairmos do comboio – “O que quer que aconteça lá tens de ignorar. Só vamos pelo carro. Confia em mim, ok?”. Quando eles entraram para um quarto e fecharam a porta foi a essas palavras que me agarrei. Paixão. Vem do latim passio, significa suportar, sofrer.
A fé é um instrumento poderoso, com fé conseguimos tudo. Dentro da nossa cabeça, mas conseguimos. Às vezes é isso que nos permite ultrapassar obstáculos e situações fora do nosso controlo. Teria de suportar a sua traição? Óbvio que não. Teria de suportar as minhas dúvidas e desconfianças, que neste exemplo não eram mais que paranóias sem ameaça real. Com certeza, S. detestava tanto o tipo como eu. No entanto, a sua paixão pela nossa liberdade significava suportar a sua presença. “Eu não aguentava…” – murmurei.
Em menos de dez minutos saíram do quarto e ela trazia um embrulho nas mãos. O preço do favor era uma entrega. Assim, ficaríamos todos amigos. J. levou-nos à garagem onde guardara o 442, era assim que S. apelidara o seu carro: um Hurst\Oldsmobile 442 de 1970. Descapotável, vermelho, e um verdadeiro “mastodonte” na estrada com os seus quase 400 cavalos de potência. Havia magia naquele carro, como se pudesse inspirar nos seus estofos o vento de mil quilómetros e olhando para os pneus via alcatrão até onde o horizonte acabava.
Findava-se também a nossa visita e J. estava cada vez mais perto de se tornar num minúsculo ponto no retrovisor. “Vejam lá se não se esquecem de me agradecer!” gritou, por entre o roncar do 442, mexendo os lábios numa conversa muda. Tudo desaparecia, deixando-nos sós neste retiro de metal e borracha. Atrás ficavam aquelas casas falsas, abandonadas pelos seus habitantes, reflexo do seu próprio abandono.
Via nitidamente agora: J. abdicou da sua vida ao tornar-se um mercador da morte. Num ciclo vicioso, tudo nele alterara-se para melhor servir a droga. Um prédio inconspícuo, um interior ostentoso. Uma amiga transformada num “correio”. Tudo mais era descartado, abandonado como o pátio e a fonte, outrora escapes arquitectónicos para aliviar a fachada e um espaço de comunhão. Hoje, a sua manutenção seria uma despesa desnecessária, para os pobres de espírito.

17 comentários:
Gostei. Uma mistura entre o noir e os filmes de carros dos anos 70. E não sei porquê, a descrição do espaço arquitectónico faz lembrar-me Santo André. Aquele sítio para onde eu vou fugir se algum dia tiver que desaparecer.
Exactamente. Cada um irá ter a sua cena em particular, embora os 70s e o noir sejam a referência. Por acaso o local foi parte do apartamento do Butch no Pulp Fiction, mas Santo André é o equivalente tuga. Bem lembrado lol
Se eu alguma vez fizesse um filme, usava sem dúvida esse bairro, dado o seu potencial cinematográfico do género grindhouse.
Ao mesmo tempo, tem algo de Dharma Initiative. É muito versátil.
e até tem uma mata em redor... é o local da fuga. lol desconfio que essa história já tem autor.
Podes usá-la à vontade. E há que adicionar a identidade falsa usurpada a um sem abrigo moribundo do Terreiro do Paço. Ou do Barreiro, também pode ser, um que esteja perdido naquele túnel da rua do Cartório.
ahah nesse túnel partiram o braço a uma mulher há semanas... não admira que o crime sirva de inspiração. Por acaso Santo André era um bom sitio para um tipo procurado fugir e se deparar com uma daquelas comunidades de fanáticos religiosos lhe fazerem a folha... mistura de Twilight Zone com Grindhouse.
O mais giro acerca de Santo André é que estas "divagações" até têm fundo de verdade. A vila foi criada quase a partir do zero nos anos 70 por causa da Petrogal que está ali mesmo ao lado, e cresceu populacionalmente em tempo record, tendo servido - inclusive - para a reintegração social de vários ex-reclusos. E aposto que muito pessoal "que não queria ser encontrado" foi para lá.
Dava um episódio interessante... por acaso não sabia disso. O pior destas mini-histórias que publicamos aqui é não dar a conhecer muito as personagens. São muito directas. Nesta em particular estou a tentar remediar isso e ao mesmo tempo manter com uma certa dose de ironia. Mas com a volta que quero dar, talvez venha a ser possível uma coisa nessa onda (ainda que se passe nos states).
Fico à espera, promete ser interessante :)
Ainda sobre Santo André, o meu pai conhece um tipo que foi para lá nos anos 80 abrir um café para recomeçar a vida, depois de ter sido condenado por crimes de guerra no Ultramar. Acho que o gajo era comando ou pára-quedista e um dia passou-se da marmita e varreu uma aldeola a G3 e granadas, mulheres e crianças incluídas (acho que tinham matado um amigo dele, ou coisa que o valha). Como é de calcular, o tipo ficou sem bater muito bem a partir daí, mas foi para onde? Santo André. E digo-te já que o tipo fazia umas moelas fantásticas.
ahahahah também era complicado reclamar das moelas, ainda por cima com ele a jogar em casa :P O melhor daquilo era andares pelos corredores e poderes ir para a casa de alguém com uma porta aberta... isso e naquele sitio existir uma casa de pasto, um café, uma mercearia e um advogado loool
Advogado que se não me falha a memória era Rui Cordeiro... E não fomos comer à casa de pasto porquê?! Podíamos ter comido moelas...
Boa memória... já não fazia ideia ;) Aquela casa era só para duros!
Pode parecer um contra-senso, mas um tipo com dinheiro para as férias arrendava ali uma casa e ficava ali uns dias, depois quando se fartasse podia ir fazer a vida de rico para outro lado lol
Bem, Luís, está qualquer coisa. Já tinha lido, mas ainda não tinha conseguido sentar-me um bocado e comentar.
Espero que o 442 ainda dê pano para mangas. Dá mesmo para lhe sentir a aura. E bom, estão a uma entrega da liberdade, em princípio. Venham mais!
O próximo já estava escrito há algum tempo, só depois é que tenho de transcrever dos cadernos e da cabeça. Mas, olho para estes textos e quero que os próximos fiquem com a mesma honestidade. Esta história vai ter o fim próximo, depois muda a narração e a direcção ficam só as personagens. Pelo menos essa primeira parte queria encerrar em breve. Muito obrigado pelo apoio incondicional!
Sim, eu bem que era menino para isso. Férias em Santo André, comer umas moelas ao almoço e ir explorar os silos abandonados da Petrogal, onde se diz que existe uma pequena cidade subterrânea. Parece-me bem.
iiaa os caminhos da petrogal... mas, em tempo de crise há que ser realista: não tá para andar a comer fora. Sandes de queijo e fiambre a todas as refeições com opção entre cerveja e leite achocolatado a acompanhar ;)
Ahahah e uma vez por semana, para desenjoar pode ir-se a uma cantina. UMA VEZ!
Então e depois se o pão se acaba como se faz?
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