sábado, janeiro 21, 2012

Ponto de Fuga: Por Estas Paragens... (IV)

Sempre achei que não existem estações no Arizona, só o calor algoz do deserto pontuado por raros pingos de chuva. - "Com este calor todo não admira os sacanas gostarem de andar aos tiros!" soltou S. enquanto sacudia o cabelo. O ponteiro marcava 90 mph, mas não sentia uma brisa, como se voassemos numa nuvem de algodão quente. S. tinha uma sensualidade natural: debaixo deste sol queria tirar-lhe os Wayfarers e agarrar-lhe o cabelo, provando-lhe a alma pela pele.  Sentia-me vampiresco, o horizonte parecia um quadro surreal colorido de amarelo torrado com salpicos de verde escuro e toda ela pulsava no vermelho dos meus olhos.

- "Não ouviste nada do que eu disse pois não?!" sorria por detrás dos óculos escuros. - "vamos parar nesta bomba de gasolina, refrescamos e chegamos a Tucson à noite. Acordas até lá?". Tinha de fazer algo quanto àquele sorriso gozão.
- "Queres-me ver fresco é?" e atirei-lhe com o pouco que restava na garrafa de água.
- "Opá cuidado com os estofos!!" guinchou tirando-me a garrafa das mãos para contra-atacar.
- "Não te preocupes que caiu tudo em cima de ti!" ria-me com as mãos chegadas à cara e todo encostado, quase fora do carro. Agora sim soprava uma vento agradável...

A vida na estrada era assim tão simples: "Reelin' In The Years" no rádio, cerveja na mão e logo chega aquele leve odor a pavimento que, por muito estranho que pareça, foi feito para se beber com malte.Na estrada, as outras pessoas, os outros carros são transeuntes. Alguns acompanham-nos nesta aventura, outros, simplesmente passam ao lado. Aos camionistas que nos apitavam, aos motoqueiros que nos passavam, a todos eles brindámos de Bud na mão.

Descendo o Estado pela I-10, Cochise County era o nosso alvo, no entanto caía o entardecer e não tínhamos chegado a Tucson. Um trio de motoqueiros aproxima-se pela retaguarda e no último brinde do dia levanto a garrafa bem alto. Duas chopper e uma Harley. Eles chegam-se demasiado perto, por picardia, por estupidez ou qualquer outra coisa... O maior e mais barbudo solta impropérios que não conheço. Nervosa, S. guina para a direita e a traseira foge. A 160 Km por hora, saímos da berma e a mesma areia quente que abominámos durante o dia voa na direcção das motos, cobrindo-os na cortina. Um despista-se e a força de quatrocentos cavalos do 442 atinge-me em cheio no peito, encostando-me ao banco. Desaparecemos pela estrada fora como sombras na escuridão.

Ao pôr-do-sol, saímos da Interstate e enveredamos por uma estrada velha nos arredores de Benson, quando finalmente nos dispomos a entregar o pacote de J., cuja morada remetia a um diner à beira da estrada. Completamente fora do mapa, aguardava-nos uma estrurura em madeira, pintada de modo a imitar aqueles restaurantes típicos dos cinquentas. A pintura desvanecida e seca, tinha estalado e no seu lugar estendiam-se farpas enormes. Em cima o letreiro decalcado em ferro lia "Moonpie Road Stop", ao que à entrada complementava um contraplacado escrito em tinta de spray "Prove a Tarte de Limão em creme merengue: 5$, vale 1$ Gasolina". Para compor o conjunto, dois degraus em escadote cuidadosamente alinhados ao lado um do outro, subiam os clientes à porta.

A empregada, equipada com bloco de notas, avental e  rede para o cabelo, era Doris: cinquentona, cansada e ligeiramente áerea, serviu-nos de imediato ainda que não tivéssemos pedido nada. - "Boa tarde meninos, provem um pedaço da nossa especialidade! A tarte lunar leva bolacha, chocolate e..." - o silêncio era desconfortável e assaltou-me a ideia que a cabeleira tipo palha desfeita de Doris tinha razão de ser.
- "limão em creme merengue?" vociferámos em uníssono, enquanto a despassarada assentia insistentemente com a cabeça.
Não é que ousasse desconfiar da empregada, mas quis tratar de negócios primeiro - "antes disto podemos entregar-lhe o pacote de J., é que estivémos o dia inteiro em viagem e nesta altura já cansa... só para evitar esquecimentos, percebe?";
- "ahahahah" ria nervosa - "O senhor J. disse para continuarem a viagem, depois diz onde...";
- "...paga a gasolina?" disparou S., deixando Doris visivelmente desconfortável.
- "se quiserem, o meu filho ajuda-vos com isso, afinal vocês pediram as tartes... ele está nas traseiras" concluiu, desparecendo pela porta da frente.

S. e eu olhámos um para o outro culposamente, assumindo no intímo que perturbámos o equilibrio mental da pobre criatura. As tartes, secas e duras, não deixaram o prato em que foram servidas. Levantámo-nos e saímos pela porta da frente, levando S. o carro às traseiras. Deste lado, contíguo ao restaurante, erguia-se um telheiro em madeira. George, tal como fora apresentado pela sua mamã, vendia, a quem tivesse o azar de passar naquele ermo, gasolina em garrafões de água.

O rapaz adolescente tinha claramente uma deficiência no desenvolvimento: dos cinco ou seis dentes negros que tinha, um saía torto e perturberante do labio rebentado. - "então amigo, hoje vais ganhar umas massas para comprar caramelos? tens ar de quem gosta de caramelos..." brinquei eu. O rapaz contorcia-se num ataque de riso descontrolado, desvendando toda a "cremalheira" desdentada. Logo chegou a mãe que, frenética, o levou pelo braço - "já te disse para não falares com as pessoas!!" ouvia-se do outro lado. Mais uma vez S. recriminou-me com o seu olhar desaprovador.

Despejámos o primeiro garrafão no depósito e a meados do segundo chega George - "Tenje o homém à tua procura. Jama-se Elrod!"; Passei-lhe a mão pela cabeça fingindo compreender tudo e indaguei do que se passava. Lá dentro, o motoqueiro barbudo que nos abordou na estrada falava com Doris. No seu braço direito, para além da tatuagem de um demonio cornudo, saltou-me à vista o bastão de baseball. Não ia sentar-me à mesa e tentar dialogar com este tipo. Voltei ao telheiro o mais depressa possível e, ofegante, tirei o garrafão das mãos de S. - "vamos embora môr! Sarilhos!" apesar de ter sido o mais explícito possível ela não ouviu. Num movimento, larguei uma nota de vinte a George e saltei para o banco - "vamos! rápido!". Ela obedeceu e os pneus do 442 chiaram dando a volta ao diner. Cá à frente o sacana trapalhão estatelou-se ao comprido no chão saindo pelos degraus improvisados. S. aproveitou a deixa para lhe despejar o segundo garrafão de gasolina por cima da moto. Não nos apanharia desta vez.

Extasiados pelo sucedido, ríamos como George: - "viste aquilo?!"; "olha a lata daquele tipo vir atrás de nós?!"; "filho da ..." gritava S. quase de modo histérico. O medo de sermos apanhados guiou-nos pela noite dentro, só parando no Novo México.

À beira do cansaço extremo, levei-nos para fora da I-10 e novamente trocámos a estrada pelo deserto. Perto de Las Cruces, atrás de uns arbustos, tapámo-nos com um cobertor e adormecemos em cima do capot. Não havia lua esta noite e cada grão de areia que mexia soava a perigo. Por estas paragens haviam coisas piores que cobras, coiotes e motards: os desaires do filho e a vergonha da mãe presos à terra, deixam-me a ideia que só dentro do carro seríamos autênticos. Fomos imprudentes, no entanto não consegui disfarçar o esgar de triunfo quando a manhã raiou.


22 comentários:

Dexter disse...

Tem todos os ingredientes de uma Interstate dos EUA: poeira, motards e diner. Consegues transparecer na perfeição o espírito da coisa.

E adoro a pièce de resistance: o nome da empregada. Doris é MESMO nome de empregada cinquentona de diner!

Luís disse...

Hoje aproveitei a ronha para ficar a pensar nisto lol

ahah o meu irmão disse o mesmo! Aqui aproveito para lançar mão daqueles clichés todos que deviam estar num único filme. Estou a gostar mesmo de escrever isto...

Dexter disse...

Aproveita a embalagem e escreve, homem, escreve!!

Os textos estão a melhorar exponencialmente, por isso aproveita...e clichés clássicos, são o que se quer!

Luís disse...

Obrigado man! Pelo menos a primeira parte tem final à vista. Não sei se leste, mas escrevi aqui há tempos um tiroteio num motel e é nesse sitio (Red Rock, Texas) que vai acabar.

Dexter disse...

Li, sim, e acho muito fixe que acabe lá. É o final perfeito, ou assim espero que o seja.

Outra coisa que achei "delicioso" foi o cliché das tartes merengadas: nunca ninguém as come e confesso que fico sempre com pena pela empregada. Quer dizer, trouxe as tartes e depois nem se dignam comer aquilo? Mesmo estando duras e más, faz-se o sacrifício!

Luís disse...

:) Vou tentar escrevê-lo. Ainda que o epílogo já esteja escrito.

Essa das tartes aproveitei para dar uma facada no feitio da tipa (já que é ela a personalidade dominante) e no fim ele até deixa mais dinheiro ao puto lol Das coisas mais fixes quando estás em viagem é ires em modo turista e depois apanhar as pessoas que têm de estar naquele sitio todos os dias e provavelmente já deram em malucas lol

Dexter disse...

Eu mesmo em Portugal faço isso, e faço questão de usar a minha cara de turista que melhor sei fazer. Dá para desanuviar.

Mas confesso que não há nada como fazer isso a uma Doris.

Luís disse...

falando nisso... aquela senhora do petisca é tipo o equivalente russo da Doris lol

Dexter disse...

Já lá não vou há tanto tempo...nem sei se ela ainda lá está. Mas sim, adapata-se, sendo no entanto a versão soviética da Doris. A Valentina!

Luís disse...

Lá está Valentina! diz tudo loool Também não sei o que é feito daquilo... A parte fixe destas viagens é que só queres ir a sitios que já lá estejam há anos tipo casa de pasto de Santo André. O Falua Bar no Seixal é um desses sitios, pode mudar de dono as vezes que for, mas o bar tem vida própria... tipo Cheers :P

Dexter disse...

Da próxima vez que for a Santo André tenho que comer lá, nem que seja atum enlatado!

Por acaso nunca tinha ouvido falar do Falua, mas pelos vistos, promete.. ;)

Luís disse...

Com direito a post de crítica gastronómica e foto à porta tipo "naco gostoso" lol


Aquilo é muito porreiro, sei que não enche as medidas a toda a gente, mas sinto-me lá bem. E com música fixe a tocar ainda melhor!

Dexter disse...

Ainda a semana passada passei pelo Naco Gostoso, acreditas? Bem, passei pelo sítio, porque aquilo agora é uma pizzaria, ou lá o que é.

Tens consciência que isso já foi há quase 8 anos?...

Luís disse...

Mas a foto fica... acho que ainda tenho isso no PC antigo.

É a falta de empreendedorismo :P podiam ter aproveitado para abrir um rodízio de carnes, mantinham o nome e escoavam o produto do talho lol

Dexter disse...

Nesse dia ganhámos à Holanda, nas meias finais do Euro 2004 - dia 30 de Junho de 2004. Tínhamos ido à Carbono, no Centro Comercial Lusitânia (penso que se chamava assim) e fomos ver o jogo para casa do Nélio, porque o menino estava com dores de cabeça e não podia apanhar sol no Parque das Nações.

Luís disse...

Exactamente. Com aquele golo brutal do Maniche... Nem de propósito havia uma foto muito lixada do Nélio. Deve ter sido das dores de cabeça lool

Dexter disse...

Pois havia, na cozinha!! Parecia que tinha sido alvo de sevícias sexuais... Nunca mais me tinha lembrado dessa foto, é priceless!

Luís disse...

Claramente material de foto de perfil ahahah na altura é que não havia FB :P

JP disse...

Bem, isto está cada vez melhor. Saí da minha tarde meia pachorrenta (ou melhor, da preguiça da tarde) para cheirar esta estrada, o diner meio acabado e as "moonpies" da Doris - confesso que pensei que tivesse algo a ver com "moonshine", mas ainda bem que não.

Agora que já deste a dica, mal posso esperar para "voltar" ao Red Rock Motel. Venha daí mais escrita, que isto está bom mas bom. :)

Luís disse...

:)

Confesso que ainda tenho algumas dúvidas, mas vou tentar corresponder às expectativas ;)

Dexter disse...

Concordo com o Zica, venha daí mais!

E já agora, se ainda as tiveres, podes mandar essas fotos do Naco Gostoso, sff?

Luís disse...

:)

Ainda não sei. Tenho de ir à procura num PC que tenho cá em casa meio desactivado lol