Com as mãos gélidas agarradas ao lavatório de uma casa de banho imaculada, sinto os pulsos a prensar a loiça fria, cravo os dedos enquanto sinto o pulsar do sangue.
Sinto-me fraco, sinto-me sem fôlego, no meio de tudo por aquilo que estou a passar ainda tenho preocupações estúpidas.
Olho para várias toalhas espalhadas no chão, tento entender o propósito de estarem por ali jogadas de maneira tão pouco aleatória, mas quem as terá colocado à minha volta.
Não consigo pensar, dói-me o corpo, sinto-me fraco. Sinto os braços hirtos como barras de aço banhadas em raiva.
Parece que o ódio consome mais oxigénio que o normal, é como uma chama voraz e descontrolada a roubar toda a vida no meu corpo.
Eu não sou assim, eu não sou esta pessoa, sinto-me vulnerável, sinto-me exposto a mim mesmo, sou alvo dos meus ataques, alvo do meu ódio.
Estou a destruir-me, é a tristeza que me consome, o que quer dizer que sou eu quem a alimenta.
Consegui trair-me depois de tanto tempo simplesmente a enganar-me, a mim e a todos os outros.
Todos os dias a disfarçar as emoções, a tentar misturar-me no meio das pessoas normais, a sorrir com vontade, a rir com gosto, a dizer as verdades na sua forma mais pura sem sequer saber que no meio de tudo isso apenas mentia, a mim e aos outros.
Sou o logro humano, com a sua alma fraudulenta e todos os seus sentimentos eram mentiras, todos menos aqueles que eram escondidos.
E de maneira ardil evitava que fosse revelado o verdadeiro amor, a verdadeira amizade, a mais pura lágrima, ou o mais quente sorriso, tudo o que tinha de bom em mim guardava-o, distribuía o placebo por todos, vendia baratas as emoções criadas por uma mente afogada em medo.
Já não consigo estar em pé, começo a sentir os espasmos no meu corpo, o que é que se passa comigo, tenho medo.
Começo a ter espaços em branco, a perder a noção das coisas, não consigo pensar direito, tenho flashes do que sou, da minha vida, e do que desejo, mas a única imagem fixa és tu, como se fosses um papel de fundo.
É a primeira vez que me vejo ao espelho desde há muito tempo, é a primeira vez que me atrevo a olhar nos olhos, e apenas vejo um mentiroso, uma falsidade crua, à viva força quero ser cego, quero evitar olhar para mim, odeio descobrir o que sou, não quero ser fraco, não me quero render aos mais baixos desejos humanos.
Vejo uma lágrima a cair pelo meu rosto, percorrendo lentamente a minha face, é fria, deve vir do coração.
Pinga do queixo e cai no lavatório como se fosse uma pedra num tambor, o barulho é indescritível ao simples ouvido humano, mas a mim criatura envolta em tristeza que consome e que me tolda o espírito, é igual ao barulho de um corpo morto a cair em cima de uma mesa, um baque surdo e rápido.
Olho para o sitio onde caiu a minha lágrima, no meio de tanto vermelho espesso, parece tinta atirada a uma tela branca e deixada a escorrer, parecem dois pequenos afluentes de um só rio de dor, um rio que antes fervilhava pelo teu amor, pela tua doce existência.
Apercebi-me que já não tenho muito tempo, o corpo começa a não responder e ainda tenho de marcar todo o cliché com um texto a explicar o porquê das minhas acções, só assim vou poder descrever os meus últimos momentos de vida.
Cambaleando e aos encontrões contra as paredes e portas, lá cheguei ao computador.
Despedidas escritas em papel seria demasiado romantismo, e foi o amor que me trouxe até este estado moribundo de alma seca e coração petrificado.
Como explicar ao mundo cientifico que um coração de pedra consegue bombear sangue que flúi e jorra como o fazem os verdadeiros.
Acho de novo incrível o cuidado que tenho em não querer sujar nada em demasia com o meu sangue, são daquelas preocupações imbecis que vêem com a personalidade, é melhor meter papel por baixo do teclado, não quero deixar a mesa marcada com sangue.
Tudo na minha vida é premeditado, apenas escapa aquela grande parte que não controlo que são as falhas dos meus calculismos. Seria de prever que já tinha o blog aberto e pronto para escrever.
Sinto um enorme formigueiro nas mãos e em volta dos pulsos, fiz algo de mal, está a doer mais do que devia, e a dar-me mais tempo do que eu queria.
A minha incompetência espelha-se em todo o lado, só é incrível como por vezes vem a calhar. Foi por um erro de cálculo que consegui ter tempo para escrever tudo isto, e se calhar ter ainda tempo para ler.
Achei por bem descrever os últimos minutos da minha vida.
Nunca pensei ser capaz de chegar a este ponto apenas por não te ter comigo, é assim tão grande o meu desejo e a minha vontade de te ter? Ou será maior o meu desespero por saber que tudo não passa de um sonho impossível?
Nem quando estou prestes a fechar os olhos pela última vez sou capaz de dar uma resposta a uma vida cheia de questões insignificantes do ponto de vista daqueles que não viviam a minha dor e a minha sede por te amar.
Espero conseguir partir e assim fazer com que notes a minha presença neste mundo, para além da simples existência que sempre tive para ti, assim deixo de ser apenas mais uma pessoa com quem te cruzas todos os dias, para ser aquela pessoa que deixaste de ver. E como a pior coisa que conheço da vida é saber do teu sofrimento seja qual for a razão, decidi fazer-te sofrer uma única e derradeira vez, para que posso morrer a odiar-me por isso, e saber que se calhar só com um estúpido esquema trágico, não te fui tão indiferente ao ponto de ser apenas mais uma pessoa na tua vida.
Foi este o caminho que encontrei para ir ter contigo.
Só falta carregar no botão que diz publish e recostar-me na cadeira à espera das ultimas memórias que levo desta vida, e sempre lá no meio a tua cara, com o teu melhor sorriso e o teu mais belo olhar, sinto-me privilegiado por conseguir guardar-te tão real na minha memória.
E assim parto com a certeza que como nunca leste nada do que escrevo, também não irias ler este texto, nem mesmo o teu nome escrito com o sangue numa qualquer folha de papel.
(texto ficcional)
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