Já começaram os incêndios de verão, já tão típicos como os tugas na praia com o boné da Sagres, bigode, cigarro na boca, e os óculos de sol das máquinas de brinde.
Lousã, Ansião, mais um e outro lugarejo em Portugal, mais um susto, mais uma aflição para pobres gentes que vêem as suas casas ameaçadas, que vêem uma vida na eminência de andar para trás.
Choro, desespero, medo, sentimentos de quem não quer perder um pedaço da sua vida, combinados com a entreajuda, altruísmo, valentia, entre os quais que tentam salvar um pouco de uma vida de grande sacrifício.
O pânico e os tremores passam para um plano secundário quando se trata de ajudar os seus.
Fazem valer o sangue frio de recurso no meio de tanto calor abrasivo provocado pelas chamas esfomeadas que levam tudo o que encontram pela frente.
Os espaços noticiosos passam o dia a informar de um incêndio aqui outro ali e quando chega ao serviço noticioso principal, já Portugal inteiro está a arder.
Imagens de pessoas desesperadas, uns a correr ou para fugir ao flagelo ou para tentar minimiza-lo, outros imóveis pelo medo, pela desgraça que se lhes abate sem motivo, muitas vezes por culpa de ninguém, outras vezes por culpa de quem não sente o desespero que aquela gente sente, que não tem consciência ou coração.
E mais um ano se repete, daqui a menos de um mês volta tudo a acontecer, as pessoas chocadas com os incêndios não se imiscuem de atirar lixo para as serras, ou não deixam de fazer queimadas, de atirar o cigarro pela janela, de fazer fogueiras no meio das serras, no entanto sentem pena e compaixão por aqueles que ficam sem um lar, sem um ente querido, sem um modo de subsistência.
Já todos sabemos o que vai acontecer, é um filme cheio de sequelas, todos os anos, só que este ano talvez comece mais cedo.
No entanto, já estão todos fartos de saber, enfastiados de tanta miséria todos os anos provocados pelos fogos, e mesmo assim acabo de ver nas noticias uma reportagem sobre as medidas de prevenção para combater os fogos deste ano, ao que estava estabelecido um prazo para que tudo estivesse pronto para o combate que se repete todos os anos por esta altura, os responsáveis a única coisa que disseram, foi o mais típico de quem é responsável pelos outros, o prazo foi dilatado.
Quando dermos conta de que já pouco temos para salvar, o prazo continuará a ser dilatado, estendido, para se adaptar às burocracias, aos desleixos, ao deixa andar, de quem não corre o risco de perder o que perde quem habita nesses campos de cinza e carvão.
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