É difícil manter interesse numa coisa que não nutre em mim o mínimo de apelo criativo.
Sou completamente infiel ás minhas ideologias, e ao mesmo tempo nunca as trai para além do pensamento, por vezes gostava que as rotações cerebrais fossem mais brandas, e que os caminhos para as certezas fossem mais curtos. Tenho a mania de que a linguagem interior, a linguagem ainda mentalizada, deve ser toda cantada, como se fosse mais melodioso o toque da sua cogniscência.
Apesar de ter em mim a ideia de que sou uma pessoa de princípios, sou o primeiro a apedrejar os credos de esperança e fé que atribuo a cada momento que ainda vou viver, vejo em mim um espírito lutador que desiste no momento de calcular as barreiras.
Poucas coisas estimulam na minha consciência um sentimento de transpor quezilentas virtudes siamesas que se contrapõem enquanto se parasitam entre si, impossíveis de sobreviver como virtudes se transfiguradas por um corte cirúrgico radical entre si, sabedoria sem erro é algo que não concebo.
Quando escrevo não o faço por mim, é verdade que exorciza a alma, mas ainda é muito o estuque que tranca a confusão, ainda são muitas as correntes que formam barreira cerebral, quando escrevo é porque não faço a mínima do que pode ser uma alternativa.
Não escrevo para mim e não escrevo para os outros, não procuro apaziguar as ideias revoltas, muito menos expeli-las para o vazio formando grandes massas de desperdício, porque apesar de desprezar a minha mente acho terrível o desperdício de ignorância que poderia ser utilizada para sem motivos aparentes formar um relaxante tampão mental.
Já nem tento escrever sobre sentimentos, porque já sei o que é sentir e ao mesmo tempo perdi o tacto de o reconhecer da forma mais simples, já não sei descrever o amor, nem caracterizar um sorriso, nem mesmo conceber uma breve citação do que representa um olhar, mas talvez nunca em outro momento como o que vivo agora soube verdadeiramente o que é o amor.
Questiono incessantemente as minhas capacidades como ser pensante, critico e devasto indubitavelmente as minhas capacidades como comunicador, só estimo verdadeiramente o meu incrível poder de questionar as qualidades que mais suscitam algum afecto em mim, apenas admiro o meu poder de observação ao constatar o facto de que sou cego de percepção.
A cada respirar questiono se conseguirei viver constantemente a duvidar das minhas qualidades, permanentemente a odiar o meu intelecto, e a contrariar-me a cada instante que da minha mente brota um pensamento tão moldável que chega a ser mais frágil que o cristal.
Não consigo contorcer mais o espírito de modo a faze-lo caber na mais conturbada criação de mundo que o meu cérebro concebeu, não sei se sou capaz de acreditar na minha capacidade para ignorar as mais pequenas e irritantes questões a pairar sobre uma inabalável fé nos sonhos com o futuro, em que faculto a mim mesmo possibilidades infinitas que não posso desejar, tornando a certeza em algo garantido ao limitar todas as hipóteses a um ridículo estado de delírio passageiro, vivo com a mente no futuro que quero, mas que foi-me imposto pelo meu desejo, não formulando alternativas com medo de vaguear pela minha mente fétida com tanta incerteza.
Sou capaz de passar a vida a odiar o presente estimando-o como se fosse tudo, traçando um único destino no horizonte e sonhando com o futuro, constantemente insatisfeito vou banqueteando-me num festim de satisfação em forma bruta, só vivo para o futuro que escolhi para mim, usando o presente como uma fase de deleite onde nunca vou conseguir saciar a minha vontade que querer, fustigando a esperança a concentrar-se num futuro distante e envolto em bruma, mas no entanto pleno de certezas.
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