- "Dizem que se foi o Justiceiro Solitário... E já estou à espera da comissão há meses."
- "Que estás para aí a falar?"
- "A minha audiência para o recurso! O meu advogado diz que um tipo à espera de execução há 10 anos tem mais hipóteses de perdão..."
- "E o que tem a ver o tipo do filme?"
- "Qual filme?!"
- "Na'tavas a falar no Cavaleiro Solitário (Lone Ranger) porra?!"
- "...Justiceiro! Vale agora a pena falar contigo! 'Tás bem é com a Biblia pá!"
- "É que nem te atrevas a invocar o nome do senhor em vão! Diz lá que filme é esse então..."
- "Na'é nenhum filme pá! É o gajo que 'tava há anos na solitária!"
- "...e é justiceiro porque tava feito com a mona?"
- "Epá cala-te e ouve! Chamam-lhe justiceiro, porque se passou no Tribunal e encavou os tipos que lhe mataram a mulher!"
- "Limpou-lhes o sebo?"
- "Nada disso! Chibou-se que tava feito com eles e começou a dizer que os conhecia e que mataram a gaja por gozo, tipo ritual motard..."
- "E os gajos vieram dentro, certo? E ele saiu."
- "Até que enfim! Foi isso mesmo, percebeste? O Juiz queria-os dentro e o Juri também, por isso ninguém se incomodou muito."
- "Justiceiro...? Se me 'tivessem quinado a maria não havia justiça neste mundo para os salvar, nem ta'pouco a mim no outro. Era um bilhete de ida pó'Inferno, digo-t'eu".
sábado, junho 16, 2012
quinta-feira, maio 31, 2012
Os Olhos do Sul: Rude Despertar (I)
Cinco anos depois, esfacelado pela solidão e trucidado pela culpa, Kurt
caminhava lentamente pelo corredor. O guarda Petterson seguia-o, não o
escoltava, seguia-o. Em passo firme e pesado percorriam o corredor.
Grades e gradeamentos multiplicavam-se em paralelo com a parede de
betão, friamente novos para ele, que só tinha conhecido o pátio e a
solitária no cárcere em Huntsville. Queria dizer-vos que vi uma figura
ou um vulto para o começar a descrever, conferindo-lhe qualquer
misticismo barato ao jeito dos filmes, mas quando Kurt surge no raio de
visão é impossível não distinguir os traços à partida: estatura média;
cabelo negro, tal como se duas vassouras siamesas tivessem procriado com
um espanador; olhos profundos e castanhos claros; e a barba irregular,
mas grossa em redor do seu maxilar quadrado, fugindo para o queixo. A
prisão teria-o mudado por certo, no entanto seria a liberdade que lhe
tomaria a alma.
"Os heróis morreram no dia em que o homem inventou a pólvora" - afirmou
solenemente Thomas Hawkes na penumbra da sala de visitas. Os seus olhos
brilhavam quase tanto como as correntes de aço que algemavam Kurt,
continuando - "sabes que alguns membros dos Steer Kings estão a ser
sugeridos para uma amnistia? O Governador vai a eleições e alguns nomes
apareceram em cima da mesa. Sabemos que o teu tempo aqui está a chegar
ao fim e seria um infortúnio que fosses procurar os tipos perdoados pelo
Estado e, à boa maneira do faroeste, encontrasses algum sarilho que
deitasse estes anos todos por água abaixo". Kurt ouvia impassível. Os
seus nervos, como espasmos, reagiam violentamente, ao escutar na voz do
Marshall, o mais leve tom de paternalismo falso. Hawkes não queria
saber dele - tinha outros planos e esta conversa, evidentemente pensada,
faria parte disso. Como o mais frio dos assassinos escudava a raiva por
trás de um exterior calmo. Todos estes anos na solitária aperfeiçoaram
essa sua faceta, moldando-a irreversivelmente à personalidade.
"Nunca apanharam o Comanche, sabias? Estes tipos vão levar-me até ele...
Não é pelas mães que vão passar a semana no cabeleireiro para assistir
ao discurso do Governador na libertação dos filhos. Esses filhos... e
essas putas que os lançaram ao mundo são capazes de estragar tudo o que
temos feito, para manter o pobre coitado que paga os impostos descansado
à noite. Tu cumpriste a tua parte e fizeste por trazer descanso à sua
alma... agora é a minha vez e lidarei com eles da maneira que mais me
aprouver. Não te metas no caminho, percebes?" Proferiu, firme, enquanto
deixava cair as palmas das mãos sobre a mesa.
Onde qualquer um via impassibilidade, Hawkes irritava-se com a apatia de
Kurt. Não o conseguia ler correctamente, no seu mundo era imprevisível,
talvez tivesse até sucumbido à loucura depois de anos fechado em
solitária. "Naquele julgamento todos sabíamos que eras inocente. Foi uma
farsa teres dito que estavas com eles... A justiça não era para ser
utilizada a teu mando e não foste tu que a mataste, caso estejas a
fritar conclusões nessa cabeça louca." - depois de uma longa pausa
continuou "O teu tempo está a chegar ao fim e o Tio Sam quer-te num
programa de protecção... Eu dei-lhes uma ideia: Vais sair daqui de
mansinho, a um mês de hoje, vais encontrar-te com um sujeito em Arab,
Alabama. Este tipo, que dá pelo nome de Gutterson, vai ajudar-te. Vais
direito ao Centro Cristão de Arab e perguntas pelo Gutterson.
Percebeste? Ele tem tudo o que precisas e no dia que saíres os guardas
devolvem-te a roupa com um bilhete de ida no bolso das calças. Se me
estás a ouvir: a vida é tua, faz o que quiseres." Seco e directo,
terminou e levantou-se da cadeira, saindo da sala como se nunca tivesse
lá estado. Kurt permanecia imóvel no escuro. Um, dois, três, quatro
segundos e o guarda Petterson entrou para o acompanhar, de novo, pelo
corredor e até à cela.
Uma luz solitária, um pequeno foco, entrava por entre as grades e
reflectia uma forma estranha na parede. Meia-noite. Podia ouvir-se numa
voz carregada, profunda e inerentemente bruta: "O que achaste dele hoje,
amor?" - "Normal?! Não quero ser isso, já não sei ser isso! Estamos bem
assim...", engoliu e decidiu, resoluto "Se é isso que queres, vou para
lá, mas é «normal» que vá haver sangue... ele não está a contar tudo!".
Em breve, o mundo voltou a sossegar, mergulhando a cela no breu. Kurt
estava irascível, não conseguia manter-se imóvel no colchão, tantos anos
depois a perspectiva de voltar a ver o exterior assustava-o. Não, não
era isso. Tremia ao pensar num espelho, algures num motel, na casa de
alguém ou numa estação de serviço onde contemplaria o seu reflexo a
escassos metros de outro ser humano e teria de deixar se olhar como a um
animal enjaulado. Na sua ideia jamais seria livre.
Os trinta dias seguintes passaram como os anteriores e os outros antes
desses. As manhãs eram passadas a fazer exercício, primeiro na cela,
depois no pátio. A aquele velho edifício era o local mais a leste do
paraíso ao cimo da terra, tão permeável ao calor que era normal
morrer-se por desidratação. Na sombra, o efeito de estufa era assustador
ao início, mas chegar ao pátio ao meio-dia e ser atingido pelo sol
ardente... provoca alucinações. Sarah apareceu-lhe nesse dia, ao cimo da
barra de halteres "Estou tão orgulhosa de ti. Estes anos todos
acabariam com qualquer um, mas tu superaste. Estás forte... olha para
ti. Não tenhas medo de deixar isto, este desterro, este inferno. Há uma
vida à tua espera, independentemente das promessas que fizemos, nada se
esgota no sofrimento. Prova que és capaz de fazer melhor, parte a pedra e
volta a ser carne." - Os braços doíam-lhe de tanto tempo suspensos no
ar e o suor descia-lhe pela testa queimando-lhe os olhos. No entanto, segurava o haltere como se fosse parte do corpo. As paredes de tijoleira vermelha só lhe podiam tirar o ar, porque a tenacidade haveria de as transpor.
quarta-feira, maio 09, 2012
Playlist: Ponto de Fuga
A história acabou e fica ainda tanto por contar... Sempre achei que a música fazia parte da história, ouvi-a enquanto escrevi e escrevi algumas canções para as ouvir a ler. Espero que ouçam e gostem. Talvez depois sugiram até algumas e quem sabe, façam a vossa playlist para ouvir naqueles dias de passeio, em que a estrada e a companhia deixam tudo o resto de parte.
1. Ain't No Love In The Heart Of The City - Al Brown
2. Superstition - Stevie Wonder
3. Being With You - Smokey Robinson
4. Never Can Say Goodbye - Isaac Hayes
5. Listen To The Music - The Doobie Brothers
6. Reelin' In The Years - Steely Dan
7. Running On Empty - Jackson Browne
8. Mexico - James Taylor
9. Against The Wind - Bob Seger
10. I Can't Tell You Why -The Eagles
1. Ain't No Love In The Heart Of The City - Al Brown
2. Superstition - Stevie Wonder
3. Being With You - Smokey Robinson
4. Never Can Say Goodbye - Isaac Hayes
5. Listen To The Music - The Doobie Brothers
6. Reelin' In The Years - Steely Dan
7. Running On Empty - Jackson Browne
8. Mexico - James Taylor
9. Against The Wind - Bob Seger
10. I Can't Tell You Why -The Eagles
sábado, abril 14, 2012
Ponto de Fuga: Epílogo
Dela sobressaiam os olhos, agora sem vida, vagarosamente cobertos pela bruma gélida que se abateu sobre a noite. Minutos como horas passaram, até sentir os músculos entorpecer, a respiração queimar-lhe no peito e a vida deixando-os lentamente. Não podia existir ali, ao lado do cadáver, sem se tornar um fantasma dele próprio e de tudo o que tinha vivido ao lado de Sarah: a sua cicatriz estava-lhe profundamente marcada na memória. Eram o universo um do outro, as possibilidades que por mero acaso temporal ainda não se tinham concretizado, os tempos presente, passado e futuro convergiram para este espaço e concederam-lhes a imortalidade.
Quando o sol se levantou e névoa deu lugar ao orvalho, a sua alma estava tão morta como o corpo dela, perscrutando o mundo pelos olhos incrustados nas cavidades negras de uma caveira pálida. Pelas veias corria-lhe um ténue fio de sangue e o peito empedernido pesava demasiado para se erguer, para voltar a ver, a sentir, a cumprir as regras básicas da existência a que todos os mortais estão adstritos à nascença. Um funeral não seria apropriado, não haveria palavras, rituais ou gestos de paz que pudessem apaziguar as suas almas. A violência da vida ecoa na sua morte, ensurdece o seu sentido e assume essa razão.
Há uma luz a guiar-nos durante o caminho que trilhamos, ela pode revestir várias tonalidades, cores e até formas, mas nunca deixa de nos acompanhar. No rescaldo destes acontecimentos, o seu farol mudou muito, no entanto só havia um caminho. Iria percorre-lo estoicamente, na solidão, na pobreza e no vácuo... e arrastaria outros para lá. Reclamaria as suas vidas para instar medo na espinha dos fracos de mente, impotentes para ver a luz. Ela estaria ao seu lado, até as estrelas se alinharem, como sempre esteve e nunca poderia deixar de estar, numa lei não escrita sobre a qual eram, são e serão - cabendo-lhes o céu que libertaria a tempestade que se seguiu.
O ponto de fuga é aquele lugar para onde convergem as linhas no horizonte, onde o profundo se perde e o todo se encontra. Somos todos pontos e linhas, que se apagam e pintam com a maior das facilidades. A fuga, o escape, demonstram o nosso significado: de onde vimos e para onde vamos. Em seis fases, Kurt e Sarah, descobriram o seu: primeiro o DESPERTAR, onde passam de um apelo inconsciente de escape para a necessidade e materialização do mesmo; em segundo o VEICULO, pois toda o movimento precisa de um corpo e de uma alma e o 442 confunde-se e impõe-se nos personagens, qual extensão do seu corpo e alma, oferecendo-lhes profundidade; seguidamente a PERSPECTIVA, em que são forçados a definir os seus limites e a sua distância, assumindo o desconhecido e para Kurt e Sarah o limite foi a sua relação, os dois coexistem no mesmo trajecto; para lá de meio o percurso torna-se emocionante e atinge o PICO, mostrando toda a sua beleza para os iludir; a quinta etapa a CONFUSÃO, levando os viajantes por atalhos, deixados à deriva afastados do real propósito e da sua força motriz; até à TRANSCENDÊNCIA, o final aparentemente amargo, onde passado o ponto sem retorno, os confronta com as suas escolhas, encerrando a verdade que tanto esperavam, para continuar a viver sem precisar de fugir.
Na realidade, o mais pequeno detalhe pode afectar-nos. Sem dúvida, no entanto é essa a pessoa que queremos ser? Não para o Kurt. Ele quis tomar as rédeas do seu próprio destino: escolheu a rapariga e conduziu o carro. Não fez a viagem perfeita, mas mais ninguém a fez por ele. Esta é a sua história e todos os outros são detalhes, pedras ou almofadas no caminho. Encontrou particular conforto neste pensamento quando, na prisão, rodeado por criminosos, percebeu que podia fazer valer esse tempo. Preparar-se para concretizar o que aprendeu na viagem com Sarah, tomando controlo, deitando as peças deste xadrez abaixo.
Quando o sol se levantou e névoa deu lugar ao orvalho, a sua alma estava tão morta como o corpo dela, perscrutando o mundo pelos olhos incrustados nas cavidades negras de uma caveira pálida. Pelas veias corria-lhe um ténue fio de sangue e o peito empedernido pesava demasiado para se erguer, para voltar a ver, a sentir, a cumprir as regras básicas da existência a que todos os mortais estão adstritos à nascença. Um funeral não seria apropriado, não haveria palavras, rituais ou gestos de paz que pudessem apaziguar as suas almas. A violência da vida ecoa na sua morte, ensurdece o seu sentido e assume essa razão.
Há uma luz a guiar-nos durante o caminho que trilhamos, ela pode revestir várias tonalidades, cores e até formas, mas nunca deixa de nos acompanhar. No rescaldo destes acontecimentos, o seu farol mudou muito, no entanto só havia um caminho. Iria percorre-lo estoicamente, na solidão, na pobreza e no vácuo... e arrastaria outros para lá. Reclamaria as suas vidas para instar medo na espinha dos fracos de mente, impotentes para ver a luz. Ela estaria ao seu lado, até as estrelas se alinharem, como sempre esteve e nunca poderia deixar de estar, numa lei não escrita sobre a qual eram, são e serão - cabendo-lhes o céu que libertaria a tempestade que se seguiu.
O ponto de fuga é aquele lugar para onde convergem as linhas no horizonte, onde o profundo se perde e o todo se encontra. Somos todos pontos e linhas, que se apagam e pintam com a maior das facilidades. A fuga, o escape, demonstram o nosso significado: de onde vimos e para onde vamos. Em seis fases, Kurt e Sarah, descobriram o seu: primeiro o DESPERTAR, onde passam de um apelo inconsciente de escape para a necessidade e materialização do mesmo; em segundo o VEICULO, pois toda o movimento precisa de um corpo e de uma alma e o 442 confunde-se e impõe-se nos personagens, qual extensão do seu corpo e alma, oferecendo-lhes profundidade; seguidamente a PERSPECTIVA, em que são forçados a definir os seus limites e a sua distância, assumindo o desconhecido e para Kurt e Sarah o limite foi a sua relação, os dois coexistem no mesmo trajecto; para lá de meio o percurso torna-se emocionante e atinge o PICO, mostrando toda a sua beleza para os iludir; a quinta etapa a CONFUSÃO, levando os viajantes por atalhos, deixados à deriva afastados do real propósito e da sua força motriz; até à TRANSCENDÊNCIA, o final aparentemente amargo, onde passado o ponto sem retorno, os confronta com as suas escolhas, encerrando a verdade que tanto esperavam, para continuar a viver sem precisar de fugir.
Na realidade, o mais pequeno detalhe pode afectar-nos. Sem dúvida, no entanto é essa a pessoa que queremos ser? Não para o Kurt. Ele quis tomar as rédeas do seu próprio destino: escolheu a rapariga e conduziu o carro. Não fez a viagem perfeita, mas mais ninguém a fez por ele. Esta é a sua história e todos os outros são detalhes, pedras ou almofadas no caminho. Encontrou particular conforto neste pensamento quando, na prisão, rodeado por criminosos, percebeu que podia fazer valer esse tempo. Preparar-se para concretizar o que aprendeu na viagem com Sarah, tomando controlo, deitando as peças deste xadrez abaixo.
Kurt Stone voltará em: OS OLHOS DO SUL
segunda-feira, abril 09, 2012
Gostava de ser...
Que raio de vida é esta, onde já não escrevo, não leio, pouco me rio, e tão pouco passeio?
Já fui um rapaz inspirado, já escrevi umas boas linhas, já tive mais piada, já fui mais satisfeito.
Embora estranha, mas bem presente, esta insatisfação latejante, de uma criatividade encarcerada, de uma criação calejada, de uma vontade em partilhar, em ser, em poder reconhecer e ser reconhecido, num dizer, numa palavra.
Tenho andado cabisbaixo, sem esperança, sem alento, sem qualquer contentamento.
Talvez seja por isso mesmo, por falta de partilha, por falta de criar, de ser, de amar o meu intelecto.
Levei algum tempo, mas acho que hoje entendi. Num mundo mais cinzento em que a vida é quase só trabalho e responsabilidades, a criação de um dizer, de um ditado, de uma singela frase com significado, é a centelha, a mais leve centelha capaz de aquecer algo já há muito esquecido e adormecido.
Já fui um rapaz inspirado, já escrevi umas boas linhas, já tive mais piada, já fui mais satisfeito.
Embora estranha, mas bem presente, esta insatisfação latejante, de uma criatividade encarcerada, de uma criação calejada, de uma vontade em partilhar, em ser, em poder reconhecer e ser reconhecido, num dizer, numa palavra.
Tenho andado cabisbaixo, sem esperança, sem alento, sem qualquer contentamento.
Talvez seja por isso mesmo, por falta de partilha, por falta de criar, de ser, de amar o meu intelecto.
Levei algum tempo, mas acho que hoje entendi. Num mundo mais cinzento em que a vida é quase só trabalho e responsabilidades, a criação de um dizer, de um ditado, de uma singela frase com significado, é a centelha, a mais leve centelha capaz de aquecer algo já há muito esquecido e adormecido.
sexta-feira, abril 06, 2012
Ponto de Fuga: ...Onde A Estrada Acaba (VI)
Recuperava ainda os sentidos lentamente e antes de sequer abrir os olhos, amargava o sangue ainda fresco nas gengivas. A porta da frente escancarada deixou entrar o bafo quente que me fez levantar de uma vez. Derreado e ferido no orgulho, receava agora qualquer estalo nas costelas, pelo menos aquele que me impedisse de chegar ao telefone. Teria de haver um telefonema. Não. Pregada à ombreira da porta com um punhal, num papel com o número, a mensagem estava entregue. Estes tipos eram negociantes à séria, para seguir à risca. -"Agora já não és tão esperto! Que queres? Queres a tua mulher de volta?" gritava do outro lado do telefone o Comanche - "Que manobra foi essa no Diner?! O teu trabalho é entregar o pacote! Queres entrar na folha de pagamentos, é isso?". Só me restava implorar e suplicar pela segurança de S., enquanto ouvia as suas provocações. Sim, a este ponto rezava para nunca ter acordado dos efeitos da droga e tudo isto não passar de um sonho febril.
Abri a caixa, finalmente. Continha um cachimbo, mas procurei dentro do embrulho e lá estavam os papeis, manifestos de carga emitidos pelo Estado do Texas. A minha tarefa era entregá-los ao Armazém na Alameda Avenue, aqui em El Paso. Deveria depois receber novos documentos e entrega-los em Red Rock, no Red Rock Motel, onde - "É ao fim da Main Street e CASO CUMPRAS TUDO À RISCA, até à alvorada de amanhã a encontras viva". Depois de tudo o que tomei por garantido, restava a estrada, essa terra prometida agora nossa salvação.
Pisei o acelerador e larguei a embraiagem, naquela fracção de segundo entre movimentos o 442 faz o mundo tremer até desaparecer numa nuvem de pó. A primeira tarefa afigura-se fácil e rápida, no armazém seguem, como formigas no carreiro, sujeitos de tez escura carregando caixotes dos camiões para a zona de descarga. "Boa tarde forasteiro. Faça favor de dizer." inquiriu o indivíduo à minha frente. Suiças e cabelo grisalho escapando-se por baixo do boné, baixa estatura e aparência afável ilibavam Harry de qualquer convivência com actividades criminosas. - "Fiquei de entregar pessoalmente estes manifestos de carga, onde posso encontrar o responsável?" mal acabei a pergunta já a resposta saia cuspida - "Vamos lá para dentro miúdo. O índio não gosta destes negócios debaixo de sol. Queima, se é que me entendes".
Aqui começam as complicações, aquelas tão inesperadas e indesejáveis quando a vida quem mais amamos está em causa: Os documentos estavam entregues, mas devido ao seu atraso, teria de entregar a cópia forjada ao camionista que me aguardava numa estação de serviço em West Odessa. Quando está tanto em jogo é complicado racionalizar para procurar a falha no plano e quando não consegues encontrar a falha no plano, simplesmente, falharás. Por muito que conduzisse como fugido do inferno, cortando curvas e batendo no vermelho mais vezes que menos, estava demasiado exposto.
O Shooter's Gas and Grill em West Odessa era uma paragem de camionistas no meio do deserto e tirando umas dunas a bons metros, bem como dois ou três poços de petróleo no horizonte, não estava rodeada por nada. Ora, não seria aqui que nos iam apanhar, no céu aberto e ainda à luz do dia. Seria já na noite escura quando investia a cerca de 200 kms por hora em direcção a Bastorp. Cansado e com mais olhos no relógio que na estrada, pensando nela, sofrendo por ela na angústia de não saber, deixado com a ideia de ter sido engolido por uma trama maior que nós os dois. Ao fundo piscam as luzes azuis e vermelhas: estrada cortada, fim da linha e todas as metáforas que não me passaram pela cabeça por ter encontrado naquele borrão de cor lá ao fundo a figura do desespero...
Pé a fundo no travão e o carro afunda e contorce-se no asfalto, em câmara lenta, a suspensão desce junto às rodas, inclinada de sobremaneira para a direita e centrifugamente guiado pela traseira encontro-me paralelo à barreira policial... largo o travão e piso o acelerador novamente para ganhar aderência e enfiar a toda a velocidade pela estrada de terra batida que desviava do caminho. A poeirada levanta em nuvem, embatendo nos faróis dos meus perseguidores. Forma um efeito de cortina, encadeando-os para os cegar em seguida e logo que a transpõem mergulham no breu. Despistei-os, mas estava demasiado perto de Red Rock para arriscar o regresso à estrada principal. Circulando erraticamente pelos trilhos do gado e caminhos secundários adjacentes às quintas da vizinhança, seguro-me ao volante, ignoro os solavancos e procuro a cada curva o Red Rock Motel.
O pórtico lia em letras de neon fundidas "Motel", só isso. Rachas no pavimento e as marcações do estacionamento secas e desvanecidas não logravam distrair o viajante do ar de abandono do edifício destruído. Em redor não se ouve vivalma e corridos alguns minutos decido aventurar-me. A luz do único poste lá fora passa em feixes de pó pelos buracos na parede, buracos de bala aparentemente. Passo a passo percorro a sala até tropeçar e sentir a picada na cabeça, ou talvez tenha acontecido ao contrário. Derrubado, volto a mim apoiado nos destroços de uma mesa de café e levanto a cabeça para ser surpreendido por uma sombra de uma pessoa, estática na ombreira da porta.
- "Quantas estradas tem um homem de percorrer... até admitir que está perdido?" proferiu a figura cadavérica do Sargento Thomas Hawkes e continuou, enquanto eu assistia atónito e em choque - "Sabemos quem és tu Kurt Stone, mas quem és mesmo tu? Um agarrado a querer subir na vida? Trabalhas para o J.? ...sejas lá quem fores tenho a agradecer-te por esta operação. Foste o sabotador... depois do que se passou aqui da última vez o Capitão Harding não queria arriscar a vida de mais um infiltrado. Sim, o mesmo que deixaste apeado naquele Diner em Benson: Elrod. Há semanas que sabíamos do vosso negócio da Califórnia, só nos faltava poder de fogo. Os manifestos que andaste a entregar foram a chave para voltar a por estes tipos na choça." disse enquanto adoptava uma postura altiva e arrogante. Sabia que me tinha usado e da injustiça que pendia sobre mim e, principalmente sobre S. - "Onde está a rapariga? ela não tem nada a ver com isto! Deixa-me vê-la!" insisti, agarrando-o pelo braço para ser derrubado com um murro no estômago em seguida. - "Não me toques!" - mais calmo, ajeitando a manga da camisa, confessou: - "Lamento ter de ser eu a dizer-te isto, mas ela já estava morta quando chegámos, Eddie "O Comanche" executou-a quando confirmou que tinhas feito o trabalho...".
Nesse momento entraram dois agentes e seguraram-me pelos braços, enquanto Hawkes me olhava impassível, a sua cabeça calva e as linhas do rosto como rastos de navalhas, movendo-se e dobrando-se. Ele falava, conseguia ver os lábios descendo e subindo, numa estranha dança hipnótica. No entanto, não o ouvia. Levantaram-me do chão como se pegassem numa mala de viagem, arrastaram-me até à rua e diante de uma maca, uma qualquer maca como se vê nos filmes, alguém destapou a coberta e lá estava, inerte, sumida e sem expressão, Sarah Anne Ralston: o princípio e o fim das minhas viagens.
Abri a caixa, finalmente. Continha um cachimbo, mas procurei dentro do embrulho e lá estavam os papeis, manifestos de carga emitidos pelo Estado do Texas. A minha tarefa era entregá-los ao Armazém na Alameda Avenue, aqui em El Paso. Deveria depois receber novos documentos e entrega-los em Red Rock, no Red Rock Motel, onde - "É ao fim da Main Street e CASO CUMPRAS TUDO À RISCA, até à alvorada de amanhã a encontras viva". Depois de tudo o que tomei por garantido, restava a estrada, essa terra prometida agora nossa salvação.
Pisei o acelerador e larguei a embraiagem, naquela fracção de segundo entre movimentos o 442 faz o mundo tremer até desaparecer numa nuvem de pó. A primeira tarefa afigura-se fácil e rápida, no armazém seguem, como formigas no carreiro, sujeitos de tez escura carregando caixotes dos camiões para a zona de descarga. "Boa tarde forasteiro. Faça favor de dizer." inquiriu o indivíduo à minha frente. Suiças e cabelo grisalho escapando-se por baixo do boné, baixa estatura e aparência afável ilibavam Harry de qualquer convivência com actividades criminosas. - "Fiquei de entregar pessoalmente estes manifestos de carga, onde posso encontrar o responsável?" mal acabei a pergunta já a resposta saia cuspida - "Vamos lá para dentro miúdo. O índio não gosta destes negócios debaixo de sol. Queima, se é que me entendes".
Aqui começam as complicações, aquelas tão inesperadas e indesejáveis quando a vida quem mais amamos está em causa: Os documentos estavam entregues, mas devido ao seu atraso, teria de entregar a cópia forjada ao camionista que me aguardava numa estação de serviço em West Odessa. Quando está tanto em jogo é complicado racionalizar para procurar a falha no plano e quando não consegues encontrar a falha no plano, simplesmente, falharás. Por muito que conduzisse como fugido do inferno, cortando curvas e batendo no vermelho mais vezes que menos, estava demasiado exposto.
O Shooter's Gas and Grill em West Odessa era uma paragem de camionistas no meio do deserto e tirando umas dunas a bons metros, bem como dois ou três poços de petróleo no horizonte, não estava rodeada por nada. Ora, não seria aqui que nos iam apanhar, no céu aberto e ainda à luz do dia. Seria já na noite escura quando investia a cerca de 200 kms por hora em direcção a Bastorp. Cansado e com mais olhos no relógio que na estrada, pensando nela, sofrendo por ela na angústia de não saber, deixado com a ideia de ter sido engolido por uma trama maior que nós os dois. Ao fundo piscam as luzes azuis e vermelhas: estrada cortada, fim da linha e todas as metáforas que não me passaram pela cabeça por ter encontrado naquele borrão de cor lá ao fundo a figura do desespero...
Pé a fundo no travão e o carro afunda e contorce-se no asfalto, em câmara lenta, a suspensão desce junto às rodas, inclinada de sobremaneira para a direita e centrifugamente guiado pela traseira encontro-me paralelo à barreira policial... largo o travão e piso o acelerador novamente para ganhar aderência e enfiar a toda a velocidade pela estrada de terra batida que desviava do caminho. A poeirada levanta em nuvem, embatendo nos faróis dos meus perseguidores. Forma um efeito de cortina, encadeando-os para os cegar em seguida e logo que a transpõem mergulham no breu. Despistei-os, mas estava demasiado perto de Red Rock para arriscar o regresso à estrada principal. Circulando erraticamente pelos trilhos do gado e caminhos secundários adjacentes às quintas da vizinhança, seguro-me ao volante, ignoro os solavancos e procuro a cada curva o Red Rock Motel.
O pórtico lia em letras de neon fundidas "Motel", só isso. Rachas no pavimento e as marcações do estacionamento secas e desvanecidas não logravam distrair o viajante do ar de abandono do edifício destruído. Em redor não se ouve vivalma e corridos alguns minutos decido aventurar-me. A luz do único poste lá fora passa em feixes de pó pelos buracos na parede, buracos de bala aparentemente. Passo a passo percorro a sala até tropeçar e sentir a picada na cabeça, ou talvez tenha acontecido ao contrário. Derrubado, volto a mim apoiado nos destroços de uma mesa de café e levanto a cabeça para ser surpreendido por uma sombra de uma pessoa, estática na ombreira da porta.
- "Quantas estradas tem um homem de percorrer... até admitir que está perdido?" proferiu a figura cadavérica do Sargento Thomas Hawkes e continuou, enquanto eu assistia atónito e em choque - "Sabemos quem és tu Kurt Stone, mas quem és mesmo tu? Um agarrado a querer subir na vida? Trabalhas para o J.? ...sejas lá quem fores tenho a agradecer-te por esta operação. Foste o sabotador... depois do que se passou aqui da última vez o Capitão Harding não queria arriscar a vida de mais um infiltrado. Sim, o mesmo que deixaste apeado naquele Diner em Benson: Elrod. Há semanas que sabíamos do vosso negócio da Califórnia, só nos faltava poder de fogo. Os manifestos que andaste a entregar foram a chave para voltar a por estes tipos na choça." disse enquanto adoptava uma postura altiva e arrogante. Sabia que me tinha usado e da injustiça que pendia sobre mim e, principalmente sobre S. - "Onde está a rapariga? ela não tem nada a ver com isto! Deixa-me vê-la!" insisti, agarrando-o pelo braço para ser derrubado com um murro no estômago em seguida. - "Não me toques!" - mais calmo, ajeitando a manga da camisa, confessou: - "Lamento ter de ser eu a dizer-te isto, mas ela já estava morta quando chegámos, Eddie "O Comanche" executou-a quando confirmou que tinhas feito o trabalho...".
Nesse momento entraram dois agentes e seguraram-me pelos braços, enquanto Hawkes me olhava impassível, a sua cabeça calva e as linhas do rosto como rastos de navalhas, movendo-se e dobrando-se. Ele falava, conseguia ver os lábios descendo e subindo, numa estranha dança hipnótica. No entanto, não o ouvia. Levantaram-me do chão como se pegassem numa mala de viagem, arrastaram-me até à rua e diante de uma maca, uma qualquer maca como se vê nos filmes, alguém destapou a coberta e lá estava, inerte, sumida e sem expressão, Sarah Anne Ralston: o princípio e o fim das minhas viagens.
domingo, janeiro 29, 2012
Ponto de Fuga: Datura (V)
De Las Cruces a El Paso não demorámos uma hora. Até que enfim, o Texas, aquele baluarte histórico do sudoeste americano. A fiesta nunca pára deste lado do Rio Grande e S. queria ficar uns dias para conhecer a cidade e absorver aquela cultura tex-mex. Afinal de que serve correr o mundo se não paramos um pouco para o sentir avançar também. Como uma força imparável que percorre o asfalto, deambulando sem rumo aparente para os que não percebem porquê, os que vivem no medo do seu isolamento ou para os que, simplesmente, não acreditam que haja algo no fim desta jornada.
Nos arredores da cidade por entre cactos, nuvens de poeira e pedregulhos, avistamos guarida à lei da estrada. O Beverly Crest Motor Inn é um daqueles locais hitchcockianos, prende-nos desde que o avistamos na estrada, fixando-nos no seu mundo próprio: Três pilares de aço amarelos seguram o seu logotipo de neon em forma triangular; ao lado o edifício da recepção em tijoleira do qual crescem cinco vigas para suportar o avançado que dá guarida ao drive-through; em seu redor ficam os quartos, numa correnteza de casas amarelas dispostas em U; e logo atrás, majestosas e imponentes, as Franklin Mountains. - "Piscina, Televisão, Rádio e Telefone... O nosso pedacinho de céu!" exclamou S., ironicamente, ao ler o sinal.
Parámos o carro diante da porta 19 e entrámos. O quarto teria decoração original dos anos sessenta, hoje substituída e renovada, mas manteve o espírito acolhedor. Uma casa-de-banho, uma televisão e uma cama: - "Que surpresa... Não se parece nada com a brochura". Ao olhar para o carro, sorrimos um para o outro - não havia bagagem a carregar - faltava apenas a "encomenda" de J., esquecida na bagageira e irradiando curiosidade. Cúmplices, deixámo-la ficar no cofre, agora era altura de voltar ao volante e partir para as ruas de El Paso.
No centro da cidade, por onde Wyatt Earp, Billy "The Kid" ou Pancho Villa caminharam, passeamos pela famosa South El Paso Street. Ao fundo da rua, existe a ponte Santa Fé que liga a Ciudad Juarez, México. Ao longo do passeio, os prédios antigos partilham a herança cultural latina. Por toda a rua persiste a ideia de nos encontrarmos num colorido mercado ao ar livre. É possível olhar para dentro das lojas e ouvir o dono gritar "Pásale!". Um misto de sabores e aromas paira no ar e tanto cowboys como mexicanos frequentam os passeios lado a lado com homens de negócios e turistas. Por muito que o cenário intrigasse, impunha-se contra a minha natureza: não sou turista, falta-me paciência e inutilidade. Como qualquer homem simples desfaço-me do frete e vou à procura do bar mais próximo. Tragam-me um balcão de madeira, matrículas pregadas à parede e a cabeça de búfalo mais hedionda de todo o Texas que abro lá conta. Ainda assim parece ser impossível de encontrar tal taberna em El Paso: é tudo demasiado ordeiro e para qualquer lado que me vire, eriçam-se os pelos das costas como se andasse a ser seguido.
A noite vai caindo nas montanhas e voltamos ao Beverly Crest Motor Inn, cada vez mais longe da folia da cidade, os faróis depressa se tornam uma candeia na escuridão e o roncar do 442 o único barulho de fundo em quilómetros. Empurro a cassete de novo no leitor e suavemente ouve-se o primeiro solo de "I Can't Tell You Why" dos The Eagles. S. encosta-se a mim, trazendo uma sensação de paz e de que tudo está bem com o mundo mais uma vez. Em breve surge à vista o nosso oasis luminoso e, depois de carregados os sacos com vestidos, bugigangas e até um sombrero, fechamos a porta do quarto.
- "Querido, quero experimentar uma coisa contigo, só tens de me prometer que não te vais chatear, ok?" confidenciou S.
- "Nunca me pediste autorização para nada, estamos a falar do quê mesmo? Ah e já sabes que me vou chatear. Vais ter de me convencer com muito jeitinho..." enquanto me debruçava para a beijar no pescoço, para logo ser afastado.
- "Pára sossegado e ouve lá. Lembras-te quando passámos naquela loja onde até comprei aquele vestido verde? O irmão ou primo - não sei - da dona vendeu-me estas raízes... sabes o que é?"
- "Não faço ideia, mas não deve ser para fazer chá, não?" disse, impaciente.
- "É erva do diabo. Antes que digas qualquer coisa...";
- "Erva do Diabo... Que queres que diga? Que não é nem um bocadinho perigoso demais? Que não morrem pessoas à conta da brincadeira?"
- "Ouve! Tive uma colega de quarto na faculdade que estava a tirar farmácia e fez um trabalho sobre esta planta. Experimentou e tudo... e ensinou-me a preparar uma dose.";
- "Mesmo assim S., para quê??"
- "É especial para mim... sabes que acreditavam que a erva do diabo tinha propriedades exóticas. Como que revela o teu destino. Queria experimentar com alguém que fosse mesmo importante para mim...".
A conversa durou mais algum tempo, ainda que tivesse cedido antes. Não conhecia os efeitos desta droga, fui deveras incauto. Sobre S., não consigo sequer imaginar que demónio a terá possuído para sugerir uma coisa destas, quanto mais levá-la avante. Eventualmente, acabámos por beber o chá com uma dose mínima de raiz de Datura Stramonium, segurando-me pela mão e acariciando-me durante todo o processo. A minha relação com as drogas é pacífica, excepto com aquelas que mordem e deixam marca. S. encarava esta experiência como uma viagem de auto-descoberta, uma demanda pelas respostas do nosso íntimo, enfim, conversa de hippie... Não posso, no entanto dizer que não teve os seus momentos agradáveis. Enquanto esperávamos pelo começo da nossa viagem mística, deitámos-nos sobre a cama e... devo dizer que nunca tinha sentido da parte de alguém uma entrega física e emocional tão intensa.
Não sei o que aconteceu depois, falhei a curva, abri os olhos, pestanejando e coçando-os, mas por mais que fizesse não conseguia voltar ao quarto. Estava num quarto diferente, onde o papel de parede era verde tropa, os quadros representavam cenas clássicas de caça e, talvez por estar ainda confuso, tudo o resto parecia ser de outro tempo. De outra era. Levantei-me, combalido, da cama de dossel e fui assaltado por uma sensação de medo extremo, não conseguia ver dois palmos em frente do nariz. Estava de dia, pois via luz a entrar pelas janelas, no entanto esbarrava contra uma barreira de escuridão que emanava de mim. Andava, desorientado, pelos corredores, chocando contra armários e paredes até cair estatelado no chão.
Arrastei-me até ao fundo do corredor, apoiado na ombreira da porta, devolvendo-me à verticalidade. Este quarto era, por sua vez, diferente dos outros. Parecia o Berverly Crest Inn, mas situava-se na mesma casa onde eu estava. A sua decoração era de meados do século passado, onde S. se quedava diante da janela, imóvel, no beiral. Clamava por ela sem obter reacção. Queria ser a resposta, ardia de ansiedade pelo fim desta viagem: - "Podes dizer e achar que não sei o que vai ser acontecer daqui para a frente. Se ficaremos juntos, se conheceremos outras pessoas, até se nos vamos esquecer do que fomos um para o outro. Eu sei quem sou. Sou o tipo para ti, o tempo passará e todos os dias serei essa pessoa. Tu vais saber-lo. Podia pedir-te agora, que tens dúvidas, para te lembrares disto, mas tu sabes que não tenho falta de memória. Não há alturas certas para sentir... quando perceberes o que te digo hoje será o primeiro dia da minha vida." confessei-lhe apaixonadamente".
- "Diz-me quem sou eu. Quem é o Kurt?" a resposta veio numa explosão de luz. Ofuscado, tomei o golpe por baixo do ombro e em seguida outro pelo peito. Ouvia uma voz rouca, estranha, gritando-me para me levantar: "horas de acordar, pinga-amor!" e a voz continuou, pontapeando-me pelo chão.
Encolhido no canto do quarto, atrevi-me a abrir os olhos: um sujeito esguio, de barba de várias semanas e com um aspecto deslavado, mirava-me, fazendo um esforço para não se rir mantendo a postura, intimidativo. Usava um colete de cabedal negro, nas costas figurava uma caveira de boi com uma coroa pendurada pelo corno, lendo-se acima Steer Kings. S. não se avistava em lado algum e eu estava nu, fazendo de saco de pancada para um motard. As minhas piores expectativas confirmaram-se: - "Temos a tua chavala! Onde é que está o caixote que apanharam daquele fuinha do J.? ...não precisas que te faça um desenho, pois não?".
Nos arredores da cidade por entre cactos, nuvens de poeira e pedregulhos, avistamos guarida à lei da estrada. O Beverly Crest Motor Inn é um daqueles locais hitchcockianos, prende-nos desde que o avistamos na estrada, fixando-nos no seu mundo próprio: Três pilares de aço amarelos seguram o seu logotipo de neon em forma triangular; ao lado o edifício da recepção em tijoleira do qual crescem cinco vigas para suportar o avançado que dá guarida ao drive-through; em seu redor ficam os quartos, numa correnteza de casas amarelas dispostas em U; e logo atrás, majestosas e imponentes, as Franklin Mountains. - "Piscina, Televisão, Rádio e Telefone... O nosso pedacinho de céu!" exclamou S., ironicamente, ao ler o sinal.
Parámos o carro diante da porta 19 e entrámos. O quarto teria decoração original dos anos sessenta, hoje substituída e renovada, mas manteve o espírito acolhedor. Uma casa-de-banho, uma televisão e uma cama: - "Que surpresa... Não se parece nada com a brochura". Ao olhar para o carro, sorrimos um para o outro - não havia bagagem a carregar - faltava apenas a "encomenda" de J., esquecida na bagageira e irradiando curiosidade. Cúmplices, deixámo-la ficar no cofre, agora era altura de voltar ao volante e partir para as ruas de El Paso.
No centro da cidade, por onde Wyatt Earp, Billy "The Kid" ou Pancho Villa caminharam, passeamos pela famosa South El Paso Street. Ao fundo da rua, existe a ponte Santa Fé que liga a Ciudad Juarez, México. Ao longo do passeio, os prédios antigos partilham a herança cultural latina. Por toda a rua persiste a ideia de nos encontrarmos num colorido mercado ao ar livre. É possível olhar para dentro das lojas e ouvir o dono gritar "Pásale!". Um misto de sabores e aromas paira no ar e tanto cowboys como mexicanos frequentam os passeios lado a lado com homens de negócios e turistas. Por muito que o cenário intrigasse, impunha-se contra a minha natureza: não sou turista, falta-me paciência e inutilidade. Como qualquer homem simples desfaço-me do frete e vou à procura do bar mais próximo. Tragam-me um balcão de madeira, matrículas pregadas à parede e a cabeça de búfalo mais hedionda de todo o Texas que abro lá conta. Ainda assim parece ser impossível de encontrar tal taberna em El Paso: é tudo demasiado ordeiro e para qualquer lado que me vire, eriçam-se os pelos das costas como se andasse a ser seguido.
A noite vai caindo nas montanhas e voltamos ao Beverly Crest Motor Inn, cada vez mais longe da folia da cidade, os faróis depressa se tornam uma candeia na escuridão e o roncar do 442 o único barulho de fundo em quilómetros. Empurro a cassete de novo no leitor e suavemente ouve-se o primeiro solo de "I Can't Tell You Why" dos The Eagles. S. encosta-se a mim, trazendo uma sensação de paz e de que tudo está bem com o mundo mais uma vez. Em breve surge à vista o nosso oasis luminoso e, depois de carregados os sacos com vestidos, bugigangas e até um sombrero, fechamos a porta do quarto.
- "Querido, quero experimentar uma coisa contigo, só tens de me prometer que não te vais chatear, ok?" confidenciou S.
- "Nunca me pediste autorização para nada, estamos a falar do quê mesmo? Ah e já sabes que me vou chatear. Vais ter de me convencer com muito jeitinho..." enquanto me debruçava para a beijar no pescoço, para logo ser afastado.
- "Pára sossegado e ouve lá. Lembras-te quando passámos naquela loja onde até comprei aquele vestido verde? O irmão ou primo - não sei - da dona vendeu-me estas raízes... sabes o que é?"
- "Não faço ideia, mas não deve ser para fazer chá, não?" disse, impaciente.
- "É erva do diabo. Antes que digas qualquer coisa...";
- "Erva do Diabo... Que queres que diga? Que não é nem um bocadinho perigoso demais? Que não morrem pessoas à conta da brincadeira?"
- "Ouve! Tive uma colega de quarto na faculdade que estava a tirar farmácia e fez um trabalho sobre esta planta. Experimentou e tudo... e ensinou-me a preparar uma dose.";
- "Mesmo assim S., para quê??"
- "É especial para mim... sabes que acreditavam que a erva do diabo tinha propriedades exóticas. Como que revela o teu destino. Queria experimentar com alguém que fosse mesmo importante para mim...".
A conversa durou mais algum tempo, ainda que tivesse cedido antes. Não conhecia os efeitos desta droga, fui deveras incauto. Sobre S., não consigo sequer imaginar que demónio a terá possuído para sugerir uma coisa destas, quanto mais levá-la avante. Eventualmente, acabámos por beber o chá com uma dose mínima de raiz de Datura Stramonium, segurando-me pela mão e acariciando-me durante todo o processo. A minha relação com as drogas é pacífica, excepto com aquelas que mordem e deixam marca. S. encarava esta experiência como uma viagem de auto-descoberta, uma demanda pelas respostas do nosso íntimo, enfim, conversa de hippie... Não posso, no entanto dizer que não teve os seus momentos agradáveis. Enquanto esperávamos pelo começo da nossa viagem mística, deitámos-nos sobre a cama e... devo dizer que nunca tinha sentido da parte de alguém uma entrega física e emocional tão intensa.
Não sei o que aconteceu depois, falhei a curva, abri os olhos, pestanejando e coçando-os, mas por mais que fizesse não conseguia voltar ao quarto. Estava num quarto diferente, onde o papel de parede era verde tropa, os quadros representavam cenas clássicas de caça e, talvez por estar ainda confuso, tudo o resto parecia ser de outro tempo. De outra era. Levantei-me, combalido, da cama de dossel e fui assaltado por uma sensação de medo extremo, não conseguia ver dois palmos em frente do nariz. Estava de dia, pois via luz a entrar pelas janelas, no entanto esbarrava contra uma barreira de escuridão que emanava de mim. Andava, desorientado, pelos corredores, chocando contra armários e paredes até cair estatelado no chão.
Arrastei-me até ao fundo do corredor, apoiado na ombreira da porta, devolvendo-me à verticalidade. Este quarto era, por sua vez, diferente dos outros. Parecia o Berverly Crest Inn, mas situava-se na mesma casa onde eu estava. A sua decoração era de meados do século passado, onde S. se quedava diante da janela, imóvel, no beiral. Clamava por ela sem obter reacção. Queria ser a resposta, ardia de ansiedade pelo fim desta viagem: - "Podes dizer e achar que não sei o que vai ser acontecer daqui para a frente. Se ficaremos juntos, se conheceremos outras pessoas, até se nos vamos esquecer do que fomos um para o outro. Eu sei quem sou. Sou o tipo para ti, o tempo passará e todos os dias serei essa pessoa. Tu vais saber-lo. Podia pedir-te agora, que tens dúvidas, para te lembrares disto, mas tu sabes que não tenho falta de memória. Não há alturas certas para sentir... quando perceberes o que te digo hoje será o primeiro dia da minha vida." confessei-lhe apaixonadamente".
- "Diz-me quem sou eu. Quem é o Kurt?" a resposta veio numa explosão de luz. Ofuscado, tomei o golpe por baixo do ombro e em seguida outro pelo peito. Ouvia uma voz rouca, estranha, gritando-me para me levantar: "horas de acordar, pinga-amor!" e a voz continuou, pontapeando-me pelo chão.
Encolhido no canto do quarto, atrevi-me a abrir os olhos: um sujeito esguio, de barba de várias semanas e com um aspecto deslavado, mirava-me, fazendo um esforço para não se rir mantendo a postura, intimidativo. Usava um colete de cabedal negro, nas costas figurava uma caveira de boi com uma coroa pendurada pelo corno, lendo-se acima Steer Kings. S. não se avistava em lado algum e eu estava nu, fazendo de saco de pancada para um motard. As minhas piores expectativas confirmaram-se: - "Temos a tua chavala! Onde é que está o caixote que apanharam daquele fuinha do J.? ...não precisas que te faça um desenho, pois não?".
sábado, janeiro 21, 2012
Ponto de Fuga: Por Estas Paragens... (IV)
Sempre achei que não existem estações no Arizona, só o calor algoz do deserto pontuado por raros pingos de chuva. - "Com este calor todo não admira os sacanas gostarem de andar aos tiros!" soltou S. enquanto sacudia o cabelo. O ponteiro marcava 90 mph, mas não sentia uma brisa, como se voassemos numa nuvem de algodão quente. S. tinha uma sensualidade natural: debaixo deste sol queria tirar-lhe os Wayfarers e agarrar-lhe o cabelo, provando-lhe a alma pela pele. Sentia-me vampiresco, o horizonte parecia um quadro surreal colorido de amarelo torrado com salpicos de verde escuro e toda ela pulsava no vermelho dos meus olhos.
- "Não ouviste nada do que eu disse pois não?!" sorria por detrás dos óculos escuros. - "vamos parar nesta bomba de gasolina, refrescamos e chegamos a Tucson à noite. Acordas até lá?". Tinha de fazer algo quanto àquele sorriso gozão.
- "Queres-me ver fresco é?" e atirei-lhe com o pouco que restava na garrafa de água.
- "Opá cuidado com os estofos!!" guinchou tirando-me a garrafa das mãos para contra-atacar.
- "Não te preocupes que caiu tudo em cima de ti!" ria-me com as mãos chegadas à cara e todo encostado, quase fora do carro. Agora sim soprava uma vento agradável...
A vida na estrada era assim tão simples: "Reelin' In The Years" no rádio, cerveja na mão e logo chega aquele leve odor a pavimento que, por muito estranho que pareça, foi feito para se beber com malte.Na estrada, as outras pessoas, os outros carros são transeuntes. Alguns acompanham-nos nesta aventura, outros, simplesmente passam ao lado. Aos camionistas que nos apitavam, aos motoqueiros que nos passavam, a todos eles brindámos de Bud na mão.
Descendo o Estado pela I-10, Cochise County era o nosso alvo, no entanto caía o entardecer e não tínhamos chegado a Tucson. Um trio de motoqueiros aproxima-se pela retaguarda e no último brinde do dia levanto a garrafa bem alto. Duas chopper e uma Harley. Eles chegam-se demasiado perto, por picardia, por estupidez ou qualquer outra coisa... O maior e mais barbudo solta impropérios que não conheço. Nervosa, S. guina para a direita e a traseira foge. A 160 Km por hora, saímos da berma e a mesma areia quente que abominámos durante o dia voa na direcção das motos, cobrindo-os na cortina. Um despista-se e a força de quatrocentos cavalos do 442 atinge-me em cheio no peito, encostando-me ao banco. Desaparecemos pela estrada fora como sombras na escuridão.
Ao pôr-do-sol, saímos da Interstate e enveredamos por uma estrada velha nos arredores de Benson, quando finalmente nos dispomos a entregar o pacote de J., cuja morada remetia a um diner à beira da estrada. Completamente fora do mapa, aguardava-nos uma estrurura em madeira, pintada de modo a imitar aqueles restaurantes típicos dos cinquentas. A pintura desvanecida e seca, tinha estalado e no seu lugar estendiam-se farpas enormes. Em cima o letreiro decalcado em ferro lia "Moonpie Road Stop", ao que à entrada complementava um contraplacado escrito em tinta de spray "Prove a Tarte de Limão em creme merengue: 5$, vale 1$ Gasolina". Para compor o conjunto, dois degraus em escadote cuidadosamente alinhados ao lado um do outro, subiam os clientes à porta.
A empregada, equipada com bloco de notas, avental e rede para o cabelo, era Doris: cinquentona, cansada e ligeiramente áerea, serviu-nos de imediato ainda que não tivéssemos pedido nada. - "Boa tarde meninos, provem um pedaço da nossa especialidade! A tarte lunar leva bolacha, chocolate e..." - o silêncio era desconfortável e assaltou-me a ideia que a cabeleira tipo palha desfeita de Doris tinha razão de ser.
- "limão em creme merengue?" vociferámos em uníssono, enquanto a despassarada assentia insistentemente com a cabeça.
Não é que ousasse desconfiar da empregada, mas quis tratar de negócios primeiro - "antes disto podemos entregar-lhe o pacote de J., é que estivémos o dia inteiro em viagem e nesta altura já cansa... só para evitar esquecimentos, percebe?";
- "ahahahah" ria nervosa - "O senhor J. disse para continuarem a viagem, depois diz onde...";
- "...paga a gasolina?" disparou S., deixando Doris visivelmente desconfortável.
- "se quiserem, o meu filho ajuda-vos com isso, afinal vocês pediram as tartes... ele está nas traseiras" concluiu, desparecendo pela porta da frente.
S. e eu olhámos um para o outro culposamente, assumindo no intímo que perturbámos o equilibrio mental da pobre criatura. As tartes, secas e duras, não deixaram o prato em que foram servidas. Levantámo-nos e saímos pela porta da frente, levando S. o carro às traseiras. Deste lado, contíguo ao restaurante, erguia-se um telheiro em madeira. George, tal como fora apresentado pela sua mamã, vendia, a quem tivesse o azar de passar naquele ermo, gasolina em garrafões de água.
O rapaz adolescente tinha claramente uma deficiência no desenvolvimento: dos cinco ou seis dentes negros que tinha, um saía torto e perturberante do labio rebentado. - "então amigo, hoje vais ganhar umas massas para comprar caramelos? tens ar de quem gosta de caramelos..." brinquei eu. O rapaz contorcia-se num ataque de riso descontrolado, desvendando toda a "cremalheira" desdentada. Logo chegou a mãe que, frenética, o levou pelo braço - "já te disse para não falares com as pessoas!!" ouvia-se do outro lado. Mais uma vez S. recriminou-me com o seu olhar desaprovador.
Despejámos o primeiro garrafão no depósito e a meados do segundo chega George - "Tenje o homém à tua procura. Jama-se Elrod!"; Passei-lhe a mão pela cabeça fingindo compreender tudo e indaguei do que se passava. Lá dentro, o motoqueiro barbudo que nos abordou na estrada falava com Doris. No seu braço direito, para além da tatuagem de um demonio cornudo, saltou-me à vista o bastão de baseball. Não ia sentar-me à mesa e tentar dialogar com este tipo. Voltei ao telheiro o mais depressa possível e, ofegante, tirei o garrafão das mãos de S. - "vamos embora môr! Sarilhos!" apesar de ter sido o mais explícito possível ela não ouviu. Num movimento, larguei uma nota de vinte a George e saltei para o banco - "vamos! rápido!". Ela obedeceu e os pneus do 442 chiaram dando a volta ao diner. Cá à frente o sacana trapalhão estatelou-se ao comprido no chão saindo pelos degraus improvisados. S. aproveitou a deixa para lhe despejar o segundo garrafão de gasolina por cima da moto. Não nos apanharia desta vez.
Extasiados pelo sucedido, ríamos como George: - "viste aquilo?!"; "olha a lata daquele tipo vir atrás de nós?!"; "filho da ..." gritava S. quase de modo histérico. O medo de sermos apanhados guiou-nos pela noite dentro, só parando no Novo México.
À beira do cansaço extremo, levei-nos para fora da I-10 e novamente trocámos a estrada pelo deserto. Perto de Las Cruces, atrás de uns arbustos, tapámo-nos com um cobertor e adormecemos em cima do capot. Não havia lua esta noite e cada grão de areia que mexia soava a perigo. Por estas paragens haviam coisas piores que cobras, coiotes e motards: os desaires do filho e a vergonha da mãe presos à terra, deixam-me a ideia que só dentro do carro seríamos autênticos. Fomos imprudentes, no entanto não consegui disfarçar o esgar de triunfo quando a manhã raiou.
- "Não ouviste nada do que eu disse pois não?!" sorria por detrás dos óculos escuros. - "vamos parar nesta bomba de gasolina, refrescamos e chegamos a Tucson à noite. Acordas até lá?". Tinha de fazer algo quanto àquele sorriso gozão.
- "Queres-me ver fresco é?" e atirei-lhe com o pouco que restava na garrafa de água.
- "Opá cuidado com os estofos!!" guinchou tirando-me a garrafa das mãos para contra-atacar.
- "Não te preocupes que caiu tudo em cima de ti!" ria-me com as mãos chegadas à cara e todo encostado, quase fora do carro. Agora sim soprava uma vento agradável...
A vida na estrada era assim tão simples: "Reelin' In The Years" no rádio, cerveja na mão e logo chega aquele leve odor a pavimento que, por muito estranho que pareça, foi feito para se beber com malte.Na estrada, as outras pessoas, os outros carros são transeuntes. Alguns acompanham-nos nesta aventura, outros, simplesmente passam ao lado. Aos camionistas que nos apitavam, aos motoqueiros que nos passavam, a todos eles brindámos de Bud na mão.
Descendo o Estado pela I-10, Cochise County era o nosso alvo, no entanto caía o entardecer e não tínhamos chegado a Tucson. Um trio de motoqueiros aproxima-se pela retaguarda e no último brinde do dia levanto a garrafa bem alto. Duas chopper e uma Harley. Eles chegam-se demasiado perto, por picardia, por estupidez ou qualquer outra coisa... O maior e mais barbudo solta impropérios que não conheço. Nervosa, S. guina para a direita e a traseira foge. A 160 Km por hora, saímos da berma e a mesma areia quente que abominámos durante o dia voa na direcção das motos, cobrindo-os na cortina. Um despista-se e a força de quatrocentos cavalos do 442 atinge-me em cheio no peito, encostando-me ao banco. Desaparecemos pela estrada fora como sombras na escuridão.
Ao pôr-do-sol, saímos da Interstate e enveredamos por uma estrada velha nos arredores de Benson, quando finalmente nos dispomos a entregar o pacote de J., cuja morada remetia a um diner à beira da estrada. Completamente fora do mapa, aguardava-nos uma estrurura em madeira, pintada de modo a imitar aqueles restaurantes típicos dos cinquentas. A pintura desvanecida e seca, tinha estalado e no seu lugar estendiam-se farpas enormes. Em cima o letreiro decalcado em ferro lia "Moonpie Road Stop", ao que à entrada complementava um contraplacado escrito em tinta de spray "Prove a Tarte de Limão em creme merengue: 5$, vale 1$ Gasolina". Para compor o conjunto, dois degraus em escadote cuidadosamente alinhados ao lado um do outro, subiam os clientes à porta.
A empregada, equipada com bloco de notas, avental e rede para o cabelo, era Doris: cinquentona, cansada e ligeiramente áerea, serviu-nos de imediato ainda que não tivéssemos pedido nada. - "Boa tarde meninos, provem um pedaço da nossa especialidade! A tarte lunar leva bolacha, chocolate e..." - o silêncio era desconfortável e assaltou-me a ideia que a cabeleira tipo palha desfeita de Doris tinha razão de ser.
- "limão em creme merengue?" vociferámos em uníssono, enquanto a despassarada assentia insistentemente com a cabeça.
Não é que ousasse desconfiar da empregada, mas quis tratar de negócios primeiro - "antes disto podemos entregar-lhe o pacote de J., é que estivémos o dia inteiro em viagem e nesta altura já cansa... só para evitar esquecimentos, percebe?";
- "ahahahah" ria nervosa - "O senhor J. disse para continuarem a viagem, depois diz onde...";
- "...paga a gasolina?" disparou S., deixando Doris visivelmente desconfortável.
- "se quiserem, o meu filho ajuda-vos com isso, afinal vocês pediram as tartes... ele está nas traseiras" concluiu, desparecendo pela porta da frente.
S. e eu olhámos um para o outro culposamente, assumindo no intímo que perturbámos o equilibrio mental da pobre criatura. As tartes, secas e duras, não deixaram o prato em que foram servidas. Levantámo-nos e saímos pela porta da frente, levando S. o carro às traseiras. Deste lado, contíguo ao restaurante, erguia-se um telheiro em madeira. George, tal como fora apresentado pela sua mamã, vendia, a quem tivesse o azar de passar naquele ermo, gasolina em garrafões de água.
O rapaz adolescente tinha claramente uma deficiência no desenvolvimento: dos cinco ou seis dentes negros que tinha, um saía torto e perturberante do labio rebentado. - "então amigo, hoje vais ganhar umas massas para comprar caramelos? tens ar de quem gosta de caramelos..." brinquei eu. O rapaz contorcia-se num ataque de riso descontrolado, desvendando toda a "cremalheira" desdentada. Logo chegou a mãe que, frenética, o levou pelo braço - "já te disse para não falares com as pessoas!!" ouvia-se do outro lado. Mais uma vez S. recriminou-me com o seu olhar desaprovador.
Despejámos o primeiro garrafão no depósito e a meados do segundo chega George - "Tenje o homém à tua procura. Jama-se Elrod!"; Passei-lhe a mão pela cabeça fingindo compreender tudo e indaguei do que se passava. Lá dentro, o motoqueiro barbudo que nos abordou na estrada falava com Doris. No seu braço direito, para além da tatuagem de um demonio cornudo, saltou-me à vista o bastão de baseball. Não ia sentar-me à mesa e tentar dialogar com este tipo. Voltei ao telheiro o mais depressa possível e, ofegante, tirei o garrafão das mãos de S. - "vamos embora môr! Sarilhos!" apesar de ter sido o mais explícito possível ela não ouviu. Num movimento, larguei uma nota de vinte a George e saltei para o banco - "vamos! rápido!". Ela obedeceu e os pneus do 442 chiaram dando a volta ao diner. Cá à frente o sacana trapalhão estatelou-se ao comprido no chão saindo pelos degraus improvisados. S. aproveitou a deixa para lhe despejar o segundo garrafão de gasolina por cima da moto. Não nos apanharia desta vez.
Extasiados pelo sucedido, ríamos como George: - "viste aquilo?!"; "olha a lata daquele tipo vir atrás de nós?!"; "filho da ..." gritava S. quase de modo histérico. O medo de sermos apanhados guiou-nos pela noite dentro, só parando no Novo México.
À beira do cansaço extremo, levei-nos para fora da I-10 e novamente trocámos a estrada pelo deserto. Perto de Las Cruces, atrás de uns arbustos, tapámo-nos com um cobertor e adormecemos em cima do capot. Não havia lua esta noite e cada grão de areia que mexia soava a perigo. Por estas paragens haviam coisas piores que cobras, coiotes e motards: os desaires do filho e a vergonha da mãe presos à terra, deixam-me a ideia que só dentro do carro seríamos autênticos. Fomos imprudentes, no entanto não consegui disfarçar o esgar de triunfo quando a manhã raiou.
sexta-feira, janeiro 20, 2012
Ponto de Fuga: O Grande Desconhecido (III)
“Freedom (n.): To ask nothing. To expect nothing. To depend on nothing.” — Ayn Rand, The Fountainhead
Há uma presença que nos guia, o espectro de um objectivo. Uma atitude. Um modo de estar. Esteve lá desde que nos conhecemos, no entanto levamos anos para o reconhecer. Há um padrão, um circuito de ideias de coisas, atraindo-nos em círculos. Um blusão de cabedal, um olhar de soslaio ou o vento a rasgar aos ouvidos, como agora...
É impossível deixar a grande LA, as saídas multiplicam-se e parece que ficamos no mesmo lugar. A quantidade de caminhos, ramais e junções não parece uma criação humana. Da I-5, pela I-405, fugindo de LAX as estradas são números bem reais. Tantas tentações: Santa Monica, Long Beach, Sherman Oaks, Bel Air ou Beverly Hills. Hollywood é opulento e está presente no imaginário a todo o instante, como se fossemos personagens de todos aqueles filmes... encarnando caras no cenário ou figurantes desfocados.
No rádio vive um pregador, independentemente do posto, forma-se uma amálgama de mensagens com o mesmo destinatário, numa alegre conversa que orquestro com o manípulo: "encontre a luz!; só este fim-de-semana, promoção inédita no hotel Palm Bay; fiquem com a mais recente sensação da pop...; vem daí irmão, abraça a vida; com o patrocínio Dino's Bar & Grill...; ahah e vira-se para mim e chama-me mentiroso!! na cara!!; hoje no Senado...;"
- "pára com isso..." irrompeu S., empurrando a cassete, enquanto a alma de Al Brown profere sem misericórdia "...there ain't no love in heart of the city...". Tão cortantes as suas palavras revelaram a "presença".
Num gesto de necessidade escapista, envolvi-a candidamente num beijo, em que ficámos alheios dos "destinatários", de quem vai para o trabalho, das mães que vão buscar os filhos à escola, das crianças aborrecidas no banco de trás. Já não éramos livres: não pedimos nada, não esperámos nada, mas dependíamos um do outro para fugir. Faz falta alguém em quem tocar para lá da alavanca das mudanças, alguém que nos mude as estacões de rádio, olhando-nos sempre da mesma maneira mesmo enquanto, sujos de escape preto na cara, comemos um hambúrguer gorduroso em cima do tablier.
É um caminho emocionante, ainda que ao mesmo tempo pachorrento, da I-10 em direcção este por Beaumont no Riverside County. Palm Springs mesmo aqui ao lado com as suas moradias de luxo, piscinas e palmeiras enclausuradas no vale. Nunca fui muito do Golf e uma das verdades quase absolutas sobre a California, é que deixando de ver o mar tudo o resto é deserto. O pavimento ferve ao Sol, independentemente dos nomes bonitos, dos centros comerciais e dos aeroportos. Finalmente, o Arizona acolhe-nos pela U.S. Route 60, "The Superstition Freeway".
A estrada é exigente e não nos deixa parar, nem lhe convém, porque à sua berma os cabelos não voam, as mãos não tremem e vida estagna. Com S. ao lado e, finalmente fora da cidade, o ponteiro subia pelos Kms em direcção ao grande desconhecido americano.
Há uma presença que nos guia, o espectro de um objectivo. Uma atitude. Um modo de estar. Esteve lá desde que nos conhecemos, no entanto levamos anos para o reconhecer. Há um padrão, um circuito de ideias de coisas, atraindo-nos em círculos. Um blusão de cabedal, um olhar de soslaio ou o vento a rasgar aos ouvidos, como agora...
É impossível deixar a grande LA, as saídas multiplicam-se e parece que ficamos no mesmo lugar. A quantidade de caminhos, ramais e junções não parece uma criação humana. Da I-5, pela I-405, fugindo de LAX as estradas são números bem reais. Tantas tentações: Santa Monica, Long Beach, Sherman Oaks, Bel Air ou Beverly Hills. Hollywood é opulento e está presente no imaginário a todo o instante, como se fossemos personagens de todos aqueles filmes... encarnando caras no cenário ou figurantes desfocados.
No rádio vive um pregador, independentemente do posto, forma-se uma amálgama de mensagens com o mesmo destinatário, numa alegre conversa que orquestro com o manípulo: "encontre a luz!; só este fim-de-semana, promoção inédita no hotel Palm Bay; fiquem com a mais recente sensação da pop...; vem daí irmão, abraça a vida; com o patrocínio Dino's Bar & Grill...; ahah e vira-se para mim e chama-me mentiroso!! na cara!!; hoje no Senado...;"
- "pára com isso..." irrompeu S., empurrando a cassete, enquanto a alma de Al Brown profere sem misericórdia "...there ain't no love in heart of the city...". Tão cortantes as suas palavras revelaram a "presença".
Num gesto de necessidade escapista, envolvi-a candidamente num beijo, em que ficámos alheios dos "destinatários", de quem vai para o trabalho, das mães que vão buscar os filhos à escola, das crianças aborrecidas no banco de trás. Já não éramos livres: não pedimos nada, não esperámos nada, mas dependíamos um do outro para fugir. Faz falta alguém em quem tocar para lá da alavanca das mudanças, alguém que nos mude as estacões de rádio, olhando-nos sempre da mesma maneira mesmo enquanto, sujos de escape preto na cara, comemos um hambúrguer gorduroso em cima do tablier.
É um caminho emocionante, ainda que ao mesmo tempo pachorrento, da I-10 em direcção este por Beaumont no Riverside County. Palm Springs mesmo aqui ao lado com as suas moradias de luxo, piscinas e palmeiras enclausuradas no vale. Nunca fui muito do Golf e uma das verdades quase absolutas sobre a California, é que deixando de ver o mar tudo o resto é deserto. O pavimento ferve ao Sol, independentemente dos nomes bonitos, dos centros comerciais e dos aeroportos. Finalmente, o Arizona acolhe-nos pela U.S. Route 60, "The Superstition Freeway".
A estrada é exigente e não nos deixa parar, nem lhe convém, porque à sua berma os cabelos não voam, as mãos não tremem e vida estagna. Com S. ao lado e, finalmente fora da cidade, o ponteiro subia pelos Kms em direcção ao grande desconhecido americano.
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Ponto de Fuga: 442 (II)
Chegados a L.A. o nevoeiro esmaga-nos, assim que se abrem as portas do comboio. A poluição não permanece apenas no ar, corrompe toda a cidade e suas gentes.
- "Hey, onde mora mesmo esse teu amigo?" – ela não me ouve e o olhar inquiridor que sobra da minha pergunta desfaz-se num espasmo facial. Não evito o soltar de uma lágrima. Talvez, provocado pelo ar viciado ou quem sabe não seria um pronuncio do que estaria para vir.
- "Diz, querido? …o J. mora aqui perto da estação. Não ligues ao que ele diz, ele é mesmo assim".
Procurei assentir com o olhar. Não consegui disfarçar a indiferença. A personalidade idiossincrática do J. era mais uma coisa que fazia parte de um mundo onde nem eu nem ela pertencíamos mais. Tudo podia ser ignorado. Em seguida tomámos um taxi.
Passámos para um bairro de casas baixas, de grades nas portas e janelas e nitidamente sujo. As casas tinham uma lógica comunitária, havia um pátio grande rodeado pelas habitações de 2 ou 3 andares, a escadaria aberta e os corredores eram de livre acesso. Como as pessoas que lá viviam, o meio parecia descartável e barato.
S. esgueira-se pelo buraco de uma vedação de arame que dava para uma parcela de terreno baldio entre 2 prédios. Fugindo pelas ervas e amontoados de lixo, serpenteia até ao outro lado da vedação como se percorresse este caminho todos os dias. Aquela deusa dançando por esse degredo, no seu vestido verde, era uma visão anacrónica de dias de um futuro passado. Dias mais livres, onde a beleza das coisas mais simples era devidamente apreciada.
Subimos por umas escadas iguais a tantas por onde passámos e fomos até ao 3º andar. Lá em baixo o pátio dava um aspecto de abandono: a fonte na entrada estava seca e a cor da estátua parecia sumida e seca; a um canto havia uma pilha de ladrilhos, arrancados ou partidos do chão; e dois cactos cresciam no canteiro, cujas rachas deixavam sair fios de terra, estendidos pelas imediações.
Enquanto olhava para o pátio, J. assoma-se à porta. Nunca o tinha visto, ainda assim, construí uma imagem dele, ou melhor do que esperava dele: Um ganzado simpático, tipo hippie acabado com filosofias de vida mirabolantes, cabelos e barba compridos em roupão e pijama… Por aí, como se o abandono e degradação do prédio se reflectisse no seu inquilino. No entanto, estava redondamente enganado. J. era um homem careca, de feições envelhecidas para a idade, um dealer excêntrico, mas impiedoso. Os seus óculos e fato de treino de designer deixavam transparecer a sua faceta de pedante.
A cumplicidade no cumprimento que dirigiu a S. e a resposta desta aumentou o meu desdém por aquele tipo: “Olá filha!” – “Oi, fofinho…”.
Por dentro a casa reflectia um ar espantosamente sóbrio e arrumado, não que estivesse perfeitamente cuidada, no entanto, não havia nada de efeitos zen\new age à drogado místico. Aquele era o lar do “empresário de psicotrópicos e outras substâncias potenciadoras de consciência”, usando a expressão com que J. se caracterizou.
“Tens o carro?” – perguntou S. “Claro que tenho! Ainda me ofereceram dinheiro por ele… mas, como era teu…” retorquiu J. em tom fanfarrão.
“Já pensaste como vais pagar? Sabes que aos amigos fazem-se favores e tu passaste tanto tempo sem cá vir que nem sei bem se ainda somos amigos” continuou no mesmo tom pedante e fanfarrão.
Tive de me conter. Este tipo conspurcava a presença de S. com a sua atitude subtilmente insidiosa. Ela avisara-me antes de sairmos do comboio – “O que quer que aconteça lá tens de ignorar. Só vamos pelo carro. Confia em mim, ok?”. Quando eles entraram para um quarto e fecharam a porta foi a essas palavras que me agarrei. Paixão. Vem do latim passio, significa suportar, sofrer.
A fé é um instrumento poderoso, com fé conseguimos tudo. Dentro da nossa cabeça, mas conseguimos. Às vezes é isso que nos permite ultrapassar obstáculos e situações fora do nosso controlo. Teria de suportar a sua traição? Óbvio que não. Teria de suportar as minhas dúvidas e desconfianças, que neste exemplo não eram mais que paranóias sem ameaça real. Com certeza, S. detestava tanto o tipo como eu. No entanto, a sua paixão pela nossa liberdade significava suportar a sua presença. “Eu não aguentava…” – murmurei.
Em menos de dez minutos saíram do quarto e ela trazia um embrulho nas mãos. O preço do favor era uma entrega. Assim, ficaríamos todos amigos. J. levou-nos à garagem onde guardara o 442, era assim que S. apelidara o seu carro: um Hurst\Oldsmobile 442 de 1970. Descapotável, vermelho, e um verdadeiro “mastodonte” na estrada com os seus quase 400 cavalos de potência. Havia magia naquele carro, como se pudesse inspirar nos seus estofos o vento de mil quilómetros e olhando para os pneus via alcatrão até onde o horizonte acabava.
Findava-se também a nossa visita e J. estava cada vez mais perto de se tornar num minúsculo ponto no retrovisor. “Vejam lá se não se esquecem de me agradecer!” gritou, por entre o roncar do 442, mexendo os lábios numa conversa muda. Tudo desaparecia, deixando-nos sós neste retiro de metal e borracha. Atrás ficavam aquelas casas falsas, abandonadas pelos seus habitantes, reflexo do seu próprio abandono.
Via nitidamente agora: J. abdicou da sua vida ao tornar-se um mercador da morte. Num ciclo vicioso, tudo nele alterara-se para melhor servir a droga. Um prédio inconspícuo, um interior ostentoso. Uma amiga transformada num “correio”. Tudo mais era descartado, abandonado como o pátio e a fonte, outrora escapes arquitectónicos para aliviar a fachada e um espaço de comunhão. Hoje, a sua manutenção seria uma despesa desnecessária, para os pobres de espírito.
- "Hey, onde mora mesmo esse teu amigo?" – ela não me ouve e o olhar inquiridor que sobra da minha pergunta desfaz-se num espasmo facial. Não evito o soltar de uma lágrima. Talvez, provocado pelo ar viciado ou quem sabe não seria um pronuncio do que estaria para vir.
- "Diz, querido? …o J. mora aqui perto da estação. Não ligues ao que ele diz, ele é mesmo assim".
Procurei assentir com o olhar. Não consegui disfarçar a indiferença. A personalidade idiossincrática do J. era mais uma coisa que fazia parte de um mundo onde nem eu nem ela pertencíamos mais. Tudo podia ser ignorado. Em seguida tomámos um taxi.
Passámos para um bairro de casas baixas, de grades nas portas e janelas e nitidamente sujo. As casas tinham uma lógica comunitária, havia um pátio grande rodeado pelas habitações de 2 ou 3 andares, a escadaria aberta e os corredores eram de livre acesso. Como as pessoas que lá viviam, o meio parecia descartável e barato.
S. esgueira-se pelo buraco de uma vedação de arame que dava para uma parcela de terreno baldio entre 2 prédios. Fugindo pelas ervas e amontoados de lixo, serpenteia até ao outro lado da vedação como se percorresse este caminho todos os dias. Aquela deusa dançando por esse degredo, no seu vestido verde, era uma visão anacrónica de dias de um futuro passado. Dias mais livres, onde a beleza das coisas mais simples era devidamente apreciada.
Subimos por umas escadas iguais a tantas por onde passámos e fomos até ao 3º andar. Lá em baixo o pátio dava um aspecto de abandono: a fonte na entrada estava seca e a cor da estátua parecia sumida e seca; a um canto havia uma pilha de ladrilhos, arrancados ou partidos do chão; e dois cactos cresciam no canteiro, cujas rachas deixavam sair fios de terra, estendidos pelas imediações.
Enquanto olhava para o pátio, J. assoma-se à porta. Nunca o tinha visto, ainda assim, construí uma imagem dele, ou melhor do que esperava dele: Um ganzado simpático, tipo hippie acabado com filosofias de vida mirabolantes, cabelos e barba compridos em roupão e pijama… Por aí, como se o abandono e degradação do prédio se reflectisse no seu inquilino. No entanto, estava redondamente enganado. J. era um homem careca, de feições envelhecidas para a idade, um dealer excêntrico, mas impiedoso. Os seus óculos e fato de treino de designer deixavam transparecer a sua faceta de pedante.
A cumplicidade no cumprimento que dirigiu a S. e a resposta desta aumentou o meu desdém por aquele tipo: “Olá filha!” – “Oi, fofinho…”.
Por dentro a casa reflectia um ar espantosamente sóbrio e arrumado, não que estivesse perfeitamente cuidada, no entanto, não havia nada de efeitos zen\new age à drogado místico. Aquele era o lar do “empresário de psicotrópicos e outras substâncias potenciadoras de consciência”, usando a expressão com que J. se caracterizou.
“Tens o carro?” – perguntou S. “Claro que tenho! Ainda me ofereceram dinheiro por ele… mas, como era teu…” retorquiu J. em tom fanfarrão.
“Já pensaste como vais pagar? Sabes que aos amigos fazem-se favores e tu passaste tanto tempo sem cá vir que nem sei bem se ainda somos amigos” continuou no mesmo tom pedante e fanfarrão.
Tive de me conter. Este tipo conspurcava a presença de S. com a sua atitude subtilmente insidiosa. Ela avisara-me antes de sairmos do comboio – “O que quer que aconteça lá tens de ignorar. Só vamos pelo carro. Confia em mim, ok?”. Quando eles entraram para um quarto e fecharam a porta foi a essas palavras que me agarrei. Paixão. Vem do latim passio, significa suportar, sofrer.
A fé é um instrumento poderoso, com fé conseguimos tudo. Dentro da nossa cabeça, mas conseguimos. Às vezes é isso que nos permite ultrapassar obstáculos e situações fora do nosso controlo. Teria de suportar a sua traição? Óbvio que não. Teria de suportar as minhas dúvidas e desconfianças, que neste exemplo não eram mais que paranóias sem ameaça real. Com certeza, S. detestava tanto o tipo como eu. No entanto, a sua paixão pela nossa liberdade significava suportar a sua presença. “Eu não aguentava…” – murmurei.
Em menos de dez minutos saíram do quarto e ela trazia um embrulho nas mãos. O preço do favor era uma entrega. Assim, ficaríamos todos amigos. J. levou-nos à garagem onde guardara o 442, era assim que S. apelidara o seu carro: um Hurst\Oldsmobile 442 de 1970. Descapotável, vermelho, e um verdadeiro “mastodonte” na estrada com os seus quase 400 cavalos de potência. Havia magia naquele carro, como se pudesse inspirar nos seus estofos o vento de mil quilómetros e olhando para os pneus via alcatrão até onde o horizonte acabava.
Findava-se também a nossa visita e J. estava cada vez mais perto de se tornar num minúsculo ponto no retrovisor. “Vejam lá se não se esquecem de me agradecer!” gritou, por entre o roncar do 442, mexendo os lábios numa conversa muda. Tudo desaparecia, deixando-nos sós neste retiro de metal e borracha. Atrás ficavam aquelas casas falsas, abandonadas pelos seus habitantes, reflexo do seu próprio abandono.
Via nitidamente agora: J. abdicou da sua vida ao tornar-se um mercador da morte. Num ciclo vicioso, tudo nele alterara-se para melhor servir a droga. Um prédio inconspícuo, um interior ostentoso. Uma amiga transformada num “correio”. Tudo mais era descartado, abandonado como o pátio e a fonte, outrora escapes arquitectónicos para aliviar a fachada e um espaço de comunhão. Hoje, a sua manutenção seria uma despesa desnecessária, para os pobres de espírito.
sexta-feira, janeiro 13, 2012
Ponto de Fuga: Despertar (I)
Faíscas. Labaredas. Fogo. É isso que dizem quando duas pessoas se envolvem intensamente. Como se existisse uma resistência natural ao acto mais primário da humanidade. Sendo o esforço para o atingir de tal modo avassalador que, logrando-o, tudo o que resta da sua passagem é um rasto de chamas. Acertei? É isso? Ou estou só lá perto? Para mim, nem isso. Mas posso estar enganado, afinal de contas tenho estado a vivê-lo e só agora me apercebi.
Com o chiar metálico do comboio nas linhas é S. que me preenche as ideias: espreitando distraidamente pela janela, envolve-me no seu perfume natural de cerejas secas ao sol. Isso existe, ao menos? Se calhar devia. É através dela que contemplo a paisagem, perguntando-me se está realmente a observar o oceano descendo por baixo dos carris, acidentadamente percorrendo a linha costeira. Ou não, estará antes, como eu, absorta em abstracções românticas. Pois, provavelmente não.
É disto que falo: não há fogo, nunca houve. Há sim uma segurança e certeza em como viveremos, um no outro. Somos o universo, repleto de possibilidades que já se concretizaram e, só por mera causalidade, o tempo não acompanhou. Ainda. Eis que, para quem recusa a existência de fogo e paixão, parece uma visão bastante calorosa, eu sei.
Até no trepidar da carruagem questiono se o balançar dos seus cabelos é real. Quem mais faria isso? Eu não - diria até há pouco tempo. Antes de nos conhecermos, como que entregues a delírios químicos, crispados por ácido e álcool. Vivi o sonho nestas últimas semanas... duas, três... não importa. Ao longo desses devaneios febris construiu-se o meu ideal de mulher. Compondo-se gradualmente até, por fim, acordar ao meu lado.
Sei o que estão a pensar: este tipo está completamente apanhado ou claro que a pôs num altar. Nem por isso. Aliás, esta imagem, ideal (ou o que lhe queiram chamar), que apareceu turva e só agora se torna clara e distinta, foi devidamente sujeita a tratamento iconoclasta. Comparada com todas as relações que já vivi e injustamente comparada, visto que se trataram de relações falhadas. Isso devia-lhe ter tirado o encanto. Foi aqui que o fogo ardeu? A paixão? O amor à primeira vista? A atracção fatal?
Digo-vos: foi agora, quando candidamente desviou o seu sorriso para a janela e em silêncio descansou a sua mão na minha. Tudo o resto parou para fugirmos, percorrendo o caminho em carris, à beira-mar. Sem horas e sem plano. Paixão? É sonhar e despertar para nos realizarmos no sonho. Tem tanto a ver connosco como com a outra pessoa, consumidos na descoberta e evoluindo com ela. Pedi-lhe reacção e ela ofereceu-a.
Naquele dia na esplanada, devo ter corrido todos os lugares-comuns, desbloqueadores de conversa e tudo mais para me fazer ver aos seus olhos. Manteve-se morna e distante, diria até altiva, respondia em monossílabos e escondia o olhar. O meu entusiasmo enfadava-a, queria algo mais: teria concedido a este tipo uma aberta e ali estava ele a pôr-se em bicos de pés e a fazer o pino. - "qualquer um pode dizer essas coisas, é só conversa" pensou, afastando a sua mente para longe do meu paparrear. Como em todos os desastres à espera de acontecer muito depois do choque fica o sofrimento, que durou cerca de vinte minutos, até surgir um daqueles olhares pesarosos para o relógio e o "...vou ter de ir agora, tenho ainda trabalho para acabar hoje. Falamos outro dia".
Contam-se dias, meses e anos para evocar um momento excepcional, mas não se contam segundos nem minutos. Os que se seguiram foram determinantes. Peguei num guardanapo e na caneta, escrevinhei: "Pois. Eu também não consegui esperar. Volta para trás!". Dobrei-o sem que tivesse oportunidade de o ler, passando-o para as suas mãos. - "olha, abres quando chegares a casa. Só quando chegares a casa" e fiquei imóvel, enquanto S. se afastava. Sim, deixei a ansiedade tomar conta dos minutos que se seguiram... e voltou. Exclamava agora um sorriso radiante. Era essa a minha natureza. Lembro-me de lhe sussurrar ao ouvido nessa noite "...agora mostra-me a tua".
De volta ao presente, candidamente fixa o seu olhar no meu, a forma como pronunciou aquelas palavras - cortante e incisiva - convenceu-me ainda antes de delas retirar significado: “Preciso de fazer uma viagem. Tenho de voltar para encontrar a minha casa.” – “Eu vou contigo”, respondi. “A nossa casa é onde nos sentimos bem. Tu és a minha casa…”, pensei para mim, sabendo que queria tê-lo dito.
Com o chiar metálico do comboio nas linhas é S. que me preenche as ideias: espreitando distraidamente pela janela, envolve-me no seu perfume natural de cerejas secas ao sol. Isso existe, ao menos? Se calhar devia. É através dela que contemplo a paisagem, perguntando-me se está realmente a observar o oceano descendo por baixo dos carris, acidentadamente percorrendo a linha costeira. Ou não, estará antes, como eu, absorta em abstracções românticas. Pois, provavelmente não.
É disto que falo: não há fogo, nunca houve. Há sim uma segurança e certeza em como viveremos, um no outro. Somos o universo, repleto de possibilidades que já se concretizaram e, só por mera causalidade, o tempo não acompanhou. Ainda. Eis que, para quem recusa a existência de fogo e paixão, parece uma visão bastante calorosa, eu sei.
Até no trepidar da carruagem questiono se o balançar dos seus cabelos é real. Quem mais faria isso? Eu não - diria até há pouco tempo. Antes de nos conhecermos, como que entregues a delírios químicos, crispados por ácido e álcool. Vivi o sonho nestas últimas semanas... duas, três... não importa. Ao longo desses devaneios febris construiu-se o meu ideal de mulher. Compondo-se gradualmente até, por fim, acordar ao meu lado.
Sei o que estão a pensar: este tipo está completamente apanhado ou claro que a pôs num altar. Nem por isso. Aliás, esta imagem, ideal (ou o que lhe queiram chamar), que apareceu turva e só agora se torna clara e distinta, foi devidamente sujeita a tratamento iconoclasta. Comparada com todas as relações que já vivi e injustamente comparada, visto que se trataram de relações falhadas. Isso devia-lhe ter tirado o encanto. Foi aqui que o fogo ardeu? A paixão? O amor à primeira vista? A atracção fatal?
Digo-vos: foi agora, quando candidamente desviou o seu sorriso para a janela e em silêncio descansou a sua mão na minha. Tudo o resto parou para fugirmos, percorrendo o caminho em carris, à beira-mar. Sem horas e sem plano. Paixão? É sonhar e despertar para nos realizarmos no sonho. Tem tanto a ver connosco como com a outra pessoa, consumidos na descoberta e evoluindo com ela. Pedi-lhe reacção e ela ofereceu-a.
Naquele dia na esplanada, devo ter corrido todos os lugares-comuns, desbloqueadores de conversa e tudo mais para me fazer ver aos seus olhos. Manteve-se morna e distante, diria até altiva, respondia em monossílabos e escondia o olhar. O meu entusiasmo enfadava-a, queria algo mais: teria concedido a este tipo uma aberta e ali estava ele a pôr-se em bicos de pés e a fazer o pino. - "qualquer um pode dizer essas coisas, é só conversa" pensou, afastando a sua mente para longe do meu paparrear. Como em todos os desastres à espera de acontecer muito depois do choque fica o sofrimento, que durou cerca de vinte minutos, até surgir um daqueles olhares pesarosos para o relógio e o "...vou ter de ir agora, tenho ainda trabalho para acabar hoje. Falamos outro dia".
Contam-se dias, meses e anos para evocar um momento excepcional, mas não se contam segundos nem minutos. Os que se seguiram foram determinantes. Peguei num guardanapo e na caneta, escrevinhei: "Pois. Eu também não consegui esperar. Volta para trás!". Dobrei-o sem que tivesse oportunidade de o ler, passando-o para as suas mãos. - "olha, abres quando chegares a casa. Só quando chegares a casa" e fiquei imóvel, enquanto S. se afastava. Sim, deixei a ansiedade tomar conta dos minutos que se seguiram... e voltou. Exclamava agora um sorriso radiante. Era essa a minha natureza. Lembro-me de lhe sussurrar ao ouvido nessa noite "...agora mostra-me a tua".
De volta ao presente, candidamente fixa o seu olhar no meu, a forma como pronunciou aquelas palavras - cortante e incisiva - convenceu-me ainda antes de delas retirar significado: “Preciso de fazer uma viagem. Tenho de voltar para encontrar a minha casa.” – “Eu vou contigo”, respondi. “A nossa casa é onde nos sentimos bem. Tu és a minha casa…”, pensei para mim, sabendo que queria tê-lo dito.
terça-feira, outubro 18, 2011
Porque não consigo escrever com regularidade?
Porque ando tão queimado, que se não fosse saltar à vista a palavra "sexo" nas actualizações dos blogs aqui ao lado, me esquecia de dizer que hoje foi uma p... a pagar-me o almoço. Depois de um post a falar sobre por comer na mesa não sei como ia passando despercebida a ironia.
sábado, outubro 15, 2011
Condignamente indignado
Na TV, no FB, na rua, só se fala na crise financeira. Hoje a meio da tarde telefona-me a minha mãe a perguntar se estava bem. Claro que sim, é Sábado, estou em casa deitado e a casa está de pé... porque haveria de ser diferente? "Não ouviste falar na manifestação em Roma? É que estão a haver confrontos com a polícia e cá podia acontecer o mesmo". Realmente, tenho tendência para ignorar as publicações que apelam à revolta popular... não que seja um acomodado, mas que posso eu fazer? Nos últimos anos, antes de se instalar a crise, assisti a dezenas de manifestações, greves e protestos sem consequência prática. Hoje quando Passos e Ciª funcionam a mando de Merkel e Sarkozy Ldª e esses funcionam a toque de caixa da Banca, que por sua vez tem um medo de morte das variações de humor da especulação aka fundos de pensões/grupos de investimento(onde se incluem agências de rating)/grandes grupos económicos, é aqui e agora que pego em mim e vou indignar-me para Lisboa?! Com todo o respeito para quem foi e voltará a ir, não durmo melhor por causa disso, simplesmente porque não se trata de dinheiro.
A crise é uma questão emotiva e pessoal, para quem tem um estilo de vida que lhe está a escapar por entre os dedos, por culpa de quem é pago (e bem pago) para defender os interesses da população. Esses sujeitos/comissionistas são um mal da sociedade moderna. A própria ilusão de que as manifestações dão em alguma coisa é parte do idealismo que nos leva a votar num partido, que até sabemos à partida, não proteger os nossos interesses.
A Democracia é parte da civilização que construímos, parte do estilo de vida que nos levou onde estamos e onde queremos estar. É graças a isso que não andamos a exercer violência para subir na vida, que trabalhamos para comprar comida em vez de a caçar, falamos para ser ouvidos e dormimos com os dois olhos fechados à noite. Não me parece que entrar em confrontos com a polícia e contestar fora de tempo o trabalho que não é o nosso seja o modo correcto de defender um estilo de vida civilizado.
Confesso que não acredito neste regime nem nestas pessoas, mas estar a lutar na rua enquanto eles estão sentados em casa só para os manter lá (saiam estes e entrem outros é igual) é contra-producente. É certo que são corruptos e incompetentes, no entanto, é a corrupção e incompetência que devem ser atacadas, não o cargo. E quer acreditem ou não a única maneira de dar a volta a crise é a lutar no nosso "campo de batalha", a trabalhar honestamente, a inventar modos de produzir bom e barato, a não desistir quando a coisa parece negra e a passar esses valores para os nossos filhos. Vão ressurgir sectores como a agricultura e a pecuária, vamos ter de sujar as mãos e quem sabe trabalhar ao Sábado e ao Domingo, mas vamos construir para nós. A especulação é irreal, a comida na mesa é real. Não há atalhos.
A crise é uma questão emotiva e pessoal, para quem tem um estilo de vida que lhe está a escapar por entre os dedos, por culpa de quem é pago (e bem pago) para defender os interesses da população. Esses sujeitos/comissionistas são um mal da sociedade moderna. A própria ilusão de que as manifestações dão em alguma coisa é parte do idealismo que nos leva a votar num partido, que até sabemos à partida, não proteger os nossos interesses.
A Democracia é parte da civilização que construímos, parte do estilo de vida que nos levou onde estamos e onde queremos estar. É graças a isso que não andamos a exercer violência para subir na vida, que trabalhamos para comprar comida em vez de a caçar, falamos para ser ouvidos e dormimos com os dois olhos fechados à noite. Não me parece que entrar em confrontos com a polícia e contestar fora de tempo o trabalho que não é o nosso seja o modo correcto de defender um estilo de vida civilizado.
Confesso que não acredito neste regime nem nestas pessoas, mas estar a lutar na rua enquanto eles estão sentados em casa só para os manter lá (saiam estes e entrem outros é igual) é contra-producente. É certo que são corruptos e incompetentes, no entanto, é a corrupção e incompetência que devem ser atacadas, não o cargo. E quer acreditem ou não a única maneira de dar a volta a crise é a lutar no nosso "campo de batalha", a trabalhar honestamente, a inventar modos de produzir bom e barato, a não desistir quando a coisa parece negra e a passar esses valores para os nossos filhos. Vão ressurgir sectores como a agricultura e a pecuária, vamos ter de sujar as mãos e quem sabe trabalhar ao Sábado e ao Domingo, mas vamos construir para nós. A especulação é irreal, a comida na mesa é real. Não há atalhos.
INCEPTION do ponto de vista da banca.
Não sou grande fã de teorias da conspiração. Não fico horrorizado ou consternado com as inúmeras teorias do big brother, da manipulação de governos, dos enganos ou esquemas que se montam entre as grandes empresas capitalistas.
Mas fantástico é perceber que só agora é que muita gente começa a acordar do seu sono consumido por uma apatia social embebida no mais profundo mainstream.
Desde que nasci, que o acesso a crédito na banca é como ir encher um copo de água no meio do Furacão Katrina, ou levantar poeira no meio do deserto do Mojave, ou seja e para quem ainda não entendeu a ironia uma coisa tão fácil e previsível como o Marinho Pinto dizer uma idiotice qualquer.
Só agora é que esta maltinha vidrada no consumismo e no facilitismo, começa a entender que a banca andou a emprestar dinheiro que não tinha, e ao mesmo tempo cobrava juros que quem pedia os empréstimos não podia pagar. Nunca ninguém suspeitou que este ciclo vicioso fosse mais dia menos dia descarrilar.
Ora tudo quebra pelo elo mais fraco. E o elo mais fraco é o que estava menos prevenido, e com a cabeça no ar. Como seria lógico a banca não poderia ficar a arder com os juros e os empréstimos que as pessoas não podiam pagar. Então a escapatória é a seguinte, só não obrigam a pagar os valentes montantes de juro, como através do seu fantoche de longa data ao qual chamam de "ESTADO", e da cobrança de impostos acabam por financiar as perdas que têm.
Assim, o Banco A empresta dinheiro ao Sr. B, o Sr. B além de pagar os juros superiores a dois dígitos percentuais, financia a banca através do pagamento dos seus impostos, para que possam continuar a emprestar dinheiro ao Sr. B e à Sra. C, e por ai fora.
Ou seja, esta malta anda há anos a fazer, não de porquinho, mas de vaquinha mealheiro, e a ser bem ordenhada vezes sem conta.
Só começaram a acordar quando as icoisas começaram a ficar caras, e impossíveis de pagar, e ficaram ifodidos, e ilixados com tudo isto, porque começam a prever um ifuturo, no iqueospariu.
Deixem-se estar nos sofás até que os vão ai buscar os senhores de fraque. Deixem-se estar na caminha deprimidos até acabarem por ir dormir na rua, talvez ai acordem para entender que este problema não é de agora, e as soluções nunca são tomadas pelo lado democrata, mas sim por alguém que decide por vós.
Viva a abstenção, o comodismo, e as icoisinhas que vos distraem, enquanto o fantoche dança e a outra mãos vos vai mais uma vez ao bolso.
Mas fantástico é perceber que só agora é que muita gente começa a acordar do seu sono consumido por uma apatia social embebida no mais profundo mainstream.
Desde que nasci, que o acesso a crédito na banca é como ir encher um copo de água no meio do Furacão Katrina, ou levantar poeira no meio do deserto do Mojave, ou seja e para quem ainda não entendeu a ironia uma coisa tão fácil e previsível como o Marinho Pinto dizer uma idiotice qualquer.
Só agora é que esta maltinha vidrada no consumismo e no facilitismo, começa a entender que a banca andou a emprestar dinheiro que não tinha, e ao mesmo tempo cobrava juros que quem pedia os empréstimos não podia pagar. Nunca ninguém suspeitou que este ciclo vicioso fosse mais dia menos dia descarrilar.
Ora tudo quebra pelo elo mais fraco. E o elo mais fraco é o que estava menos prevenido, e com a cabeça no ar. Como seria lógico a banca não poderia ficar a arder com os juros e os empréstimos que as pessoas não podiam pagar. Então a escapatória é a seguinte, só não obrigam a pagar os valentes montantes de juro, como através do seu fantoche de longa data ao qual chamam de "ESTADO", e da cobrança de impostos acabam por financiar as perdas que têm.
Assim, o Banco A empresta dinheiro ao Sr. B, o Sr. B além de pagar os juros superiores a dois dígitos percentuais, financia a banca através do pagamento dos seus impostos, para que possam continuar a emprestar dinheiro ao Sr. B e à Sra. C, e por ai fora.
Ou seja, esta malta anda há anos a fazer, não de porquinho, mas de vaquinha mealheiro, e a ser bem ordenhada vezes sem conta.
Só começaram a acordar quando as icoisas começaram a ficar caras, e impossíveis de pagar, e ficaram ifodidos, e ilixados com tudo isto, porque começam a prever um ifuturo, no iqueospariu.
Deixem-se estar nos sofás até que os vão ai buscar os senhores de fraque. Deixem-se estar na caminha deprimidos até acabarem por ir dormir na rua, talvez ai acordem para entender que este problema não é de agora, e as soluções nunca são tomadas pelo lado democrata, mas sim por alguém que decide por vós.
Viva a abstenção, o comodismo, e as icoisinhas que vos distraem, enquanto o fantoche dança e a outra mãos vos vai mais uma vez ao bolso.
terça-feira, outubro 04, 2011
Getting tired...
Confesso, tenho saudades do Inverno.
Quando estão 26ºc às 8h30, e agora ronda os 30´s e picos, com vento de leste, em que a brisa se assemelha ao bafo vindo de uma caldeira, não se pode não ter saudades do Inverno.
Quando sou obrigado a andar de fato e gravata o dia todo, deslocar-me a repartições públicas e tribunais, e apenas sinto o latejar no topo da cabeça a escaldar, para além do imenso calor e do inconveniente da humidade, penso....
Porque raio é que as publicidades de desodorizantes são com desportistas? Deviam ser feitas com gajos engravatados a fazer uns km's a pé de tribunal em tribunal ou de repartição de finanças a conservatória do registo civil.
Odeio o calor...com excepção dos dias de praia.
Quando estão 26ºc às 8h30, e agora ronda os 30´s e picos, com vento de leste, em que a brisa se assemelha ao bafo vindo de uma caldeira, não se pode não ter saudades do Inverno.
Quando sou obrigado a andar de fato e gravata o dia todo, deslocar-me a repartições públicas e tribunais, e apenas sinto o latejar no topo da cabeça a escaldar, para além do imenso calor e do inconveniente da humidade, penso....
Porque raio é que as publicidades de desodorizantes são com desportistas? Deviam ser feitas com gajos engravatados a fazer uns km's a pé de tribunal em tribunal ou de repartição de finanças a conservatória do registo civil.
Odeio o calor...com excepção dos dias de praia.
sexta-feira, setembro 30, 2011
Com os cabelos brancos, começam as perdas de capacidades e habilidades.
A minha masculinidade está intacta, mas o meu bom gosto pelos vistos não.
É recorrente a tentativa de escolher uma peça de roupa, uma jóia, um perfume, ou algo para uma mulher, seja namorada, a amiga, para a mãe ou a irmã, e no fim receber o feedback de um sorriso relativamente simpático ao qual apelidei "não quero ser mal agradecida mas isto não é bem o meu estilo".
Costumo apontar sempre ao lado em relação ao gosto da presenteada, gosto de coisas discretas e com uma certa classe, mas pelos vistos na genese de uma mulher, está o lado chamativo que quer atrair os olhares.
Já tive tempos em que acertava com os gostos, e pensava conhecer minimamente a psique feminina, hoje em dia chego à conclusão que não tenho o mínimo jeito para isto.
Um dia sei que vou chegar a um ponto, aquela maneira de estar de alguns homens que desistem de tentar escolher e limitam-se a sorrir na hora de pagar.
Um dia vou aderir aos vales prenda, e ao pagamento, renego as surpresas materiais, mantenho-me apenas nas emocionais, levo o romantismo meramente para os gestos e acções, e no que diz respeito a prendas e bens materiais, troco a surpresa pela satisfação de poderem escolher algo que gostem.
É recorrente a tentativa de escolher uma peça de roupa, uma jóia, um perfume, ou algo para uma mulher, seja namorada, a amiga, para a mãe ou a irmã, e no fim receber o feedback de um sorriso relativamente simpático ao qual apelidei "não quero ser mal agradecida mas isto não é bem o meu estilo".
Costumo apontar sempre ao lado em relação ao gosto da presenteada, gosto de coisas discretas e com uma certa classe, mas pelos vistos na genese de uma mulher, está o lado chamativo que quer atrair os olhares.
Já tive tempos em que acertava com os gostos, e pensava conhecer minimamente a psique feminina, hoje em dia chego à conclusão que não tenho o mínimo jeito para isto.
Um dia sei que vou chegar a um ponto, aquela maneira de estar de alguns homens que desistem de tentar escolher e limitam-se a sorrir na hora de pagar.
Um dia vou aderir aos vales prenda, e ao pagamento, renego as surpresas materiais, mantenho-me apenas nas emocionais, levo o romantismo meramente para os gestos e acções, e no que diz respeito a prendas e bens materiais, troco a surpresa pela satisfação de poderem escolher algo que gostem.
quinta-feira, maio 26, 2011
Retro-introspectiva
Confesso que se o Zica não tivesse assinalado a data, mais do que provavelmente iria passar-me ao lado. 8 anos. Parece que ainda nos estou a ver (no bar da faculdade, claro) há oito anos, ainda mal sabendo o que era um blog, a falar de "Coisas que os portugueses não querem ouvir...". Hoje em dia já não falamos tanto, porque se calhar também não queremos ouvir. Ouvir, o que já sabemos, o que não queremos saber, pois falta tempo ou estamos cansados ou há quem nos diga ao ouvido. Ainda assim, o blog aqui está e foi resistindo durante oito anos, talvez já mereça reforma, no entanto a ideia de perder esta constante virtual seja demasiado desconfortável.
Este blog é para mim, uma homenagem ao espírito dos tempos em que estávamos juntos todos os dias. Como um Zeitgeist cristalizado no espaço e no tempo, valendo cada post como um desabafo inconformista, não pelo seu conteúdo, ao invés pelo próprio acto de ter uma "personalidade virtual" que fala sem se preocupar com quem ouve. Fossem dirigidos a um político, professor, familiar e até a nós próprios os textos eram despreocupadamente publicados e interpretados.
Digo-vos com saudade que nos gostei de ver crescer na internet, de nos ler a pensar ou a aparvalhar. A cada dia as nossas palavras foram ganhando um pouco mais de eco e cada vez mais merecedoras de serem ouvidas. Por isso, mais ponderadas e sérias, a ficção cada vez mais um reflexo da realidade pensada e o silêncio um escape. Será esse um dos motivos para que o meu primeiro post desde há meses seja um devaneio saudosista. Só interessa a quem dele partilha.
Pela minha parte, e mesmo não fazendo parte do blog durante estes anos todos, mas fazendo deixo um abraço a alguns dos visitantes que por aqui passaram ao longo dos anos: Master_Zica, Pedro, Ganzas, Kikas, Maria, Dexter, Jedi Master Atomic, X-Wife, Tweeny Blue, Bia, Corset, Rui Brás, e tantos outros e outras que me estou a esquecer. Até para o ano!
Este blog é para mim, uma homenagem ao espírito dos tempos em que estávamos juntos todos os dias. Como um Zeitgeist cristalizado no espaço e no tempo, valendo cada post como um desabafo inconformista, não pelo seu conteúdo, ao invés pelo próprio acto de ter uma "personalidade virtual" que fala sem se preocupar com quem ouve. Fossem dirigidos a um político, professor, familiar e até a nós próprios os textos eram despreocupadamente publicados e interpretados.
Digo-vos com saudade que nos gostei de ver crescer na internet, de nos ler a pensar ou a aparvalhar. A cada dia as nossas palavras foram ganhando um pouco mais de eco e cada vez mais merecedoras de serem ouvidas. Por isso, mais ponderadas e sérias, a ficção cada vez mais um reflexo da realidade pensada e o silêncio um escape. Será esse um dos motivos para que o meu primeiro post desde há meses seja um devaneio saudosista. Só interessa a quem dele partilha.
Pela minha parte, e mesmo não fazendo parte do blog durante estes anos todos, mas fazendo deixo um abraço a alguns dos visitantes que por aqui passaram ao longo dos anos: Master_Zica, Pedro, Ganzas, Kikas, Maria, Dexter, Jedi Master Atomic, X-Wife, Tweeny Blue, Bia, Corset, Rui Brás, e tantos outros e outras que me estou a esquecer. Até para o ano!
segunda-feira, março 14, 2011
Amanhecer Sangrento em Red Rock Hills
Um som agudo e perfurante no altifalante irrompeu pelos ouvidos do comando da Polícia de Bastorp County, para logo em seguida se desfazer em ruído morto… a chuva caía em Red Rock Hills. Estavam presentes o comandante Joe Harding, os tenentes Watts e Bufford e a operadora de rádio Layla Moore. Todos sem excepção sabiam o que aquele blackout electrónico significava: o Detective William “Billy” Gaines estava comprometido…
Há meses que o Detective Gaines trabalhava infiltrado no gang de motoqueiros a operar no condado. Relativamente recentes na zona, estes arruaceiros de bar procuravam subir na vida “fiscalizando” a mercadoria dos camiões que saíam da Interstate 75. Eram chefiados por um sacana feio, porco e mau, de nome Don “The Ratchet” Miller. Sob a sua liderança, os “Steer Kings” como se chamavam, duplicaram o número de arruaças nocturnas e sextuplicaram a percentagem de assaltos violentos no Condado.
Nessa noite, o trabalho de Billy chegaria ao fim com a apreensão do núcleo duro do gang, que festejava em plena pandêga no "Red Rock Motel", depois se terem apoderado de um carregamento de oxicodona seguindo para distribuição farmacêutica em Dallas. Sequestrando o camionista nesse processo.
Billy havia informado a polícia da sua localização e aguardava apenas a confirmação de "The Ratchet", sobre a localização da droga. Com a dança macabra de álcool, violência e deboche, Billy pressiona o líder...
- P'ra quê a sede de informação puto?! 'tás a querer mais qua tua parte é?! - vociferava o sujeito grandalhão, já com a veia da testa a pulsar por entre o suor e sebo que lhe caíam do cabelo.
- Nada disso! Chibo é que na sou! ...dass 'tou a tentar ajudar... e se nos apanham aqui ca "cena" tamos lixados! Porra que tou nervoso chefe! - retoquiu Billy numa actuação digna de Óscar.
- Cab... deste maricas! queres tomar conta da cena vai buscá-la a estes gajos todos! - gritou, apontando para a horda de arruaceiros que povoavam o quarto 10 do Motel - bebe esta m... antes que ta parta na cabeça - e terminou enfiando no peito do Detective uma garrafa de Jack Daniels, com tanta força que lhe partiu o microfone.
Segundos depois, Joe Harding dava ordem ataque aos 5 carros patrulha que aguardavam sorrateiramente nas imediações do "Red Rock Motel". Para este polícia frio e calculista, Billy estava em apuros, talvez até morto e tudo indicava que havia vestígios da droga no Motel. Facilmente poderia ligar a mesma ao camião roubado e como bónus, Ratchet cumpria prisão por uma série de crimes, desde roubo a homicídio. Agora que estavam bêbados, drogados e relaxados seria a melhor hora para os apanhar.
- Dá a ordem Layla! Vamos para lá! Watts, Bufford... tragam os coletes. - comandou Harding em tom seguro e confiante.
Já no estacionamento do Motel, o Sargento Hawkes liderava a operação - É a polícia! Deponham armas e saiam em fila indiana com os braços na nuca! Caso não cumpram em 5 minutos, serão invadidos e forçados a tal!
- Agente Mullins! Preparem-se para atirar caso estes atrasados se armem em espertos. O primeiro que sequer mexer os braços ou começar a correr come chumbo! Entendido? - comunicou o Sargento ao subalterno.
Lá dentro, Ratchet ignorava por completo quem era Billy e encontrava-se numa fúria cega, arremessando cadeiras, mesas e até membros do gang que lhe aparecessem à frente - Rapazes, irmãos! Fod... esses filhos da p...! Cara... que volto p'ra choldra. Ficam aqui 6 de vocês enquanto eu, o Billy e o "Crazy Earl" lhes damos calor lá de cima, tudo o resto sai e baixa a cabeça lá fora!
Como indicado, 5 membros dos "Steer Kings", deixam o motel de mão na nuca, ajoelhando-se no estacionamento por ordem da polícia. A chuva caí fria e quase invisível na noite escura, agentes e criminosos só dão por ela quando, progressivamente, lhes encharca o escalpe.
Os polícias irrompem em direcção ao grupo, numa tentativa de os algemar, quando do interior do quarto saem disparos em rajada, abatendo o agente Mullins que seguia na frente, deixando todos os que o seguiam sujeitos à segunda vaga de disparos. Automaticamente e antecipando o fogo de cobertura da segunda unidade policial comandada pelo Sargento Hawkes, Ratchet e Crazy Earl abrem fogo. O Sargento que antes parecia implacável, permanecia de cócoras abrigado atrás do carro-patrulha, impotente perante a chacina dos seus homens.
O coração de Billy batia-lhe fora do peito... que seria dele se tentasse sequer fazer o seu dever? As análises toxicológicas mostrariam indícios de droga e álcool no sangue. Os seus superiores crucifica-lo iam por fugir ao tiroteio, assumindo que não o associavam ao gangue. Cerrou os dentes e agarrou Ratchet pelo pescoço, ao mesmo tempo que lhe enfiou 4 ou 5 balázios da sua 9 mm, à queima roupa pelas costas. No caos do tiroteio "Crazy Earl" mal percebeu o sucedido, caindo com um tiro certeiro na têmpora.
Ofegante, Billy gritou o cessar-fogo ao Sargento e logo este concentrou o esforço policial nas janelas e porta do quarto 10; sem hesitar, fuzilando com a automática os membros do gangue que permaneciam prostrados no chão a poucos metros de si.
Enquanto isto, Billy refugiou-se atrás de uma chaminé no terraço, sabendo que tinha sido ouvido e descoberto pelos pulhas lá em baixo. Só com muita sorte sairia vivo de Red Rock Hills... Seriam esses os seus últimos minutos de vida? Entregue no meio de sangue, whisky e droga? Estava longe dos dias da academia, da "sabedoria" dos livros e das noites de cadete em que se imaginava tomar parte numa grande operação como esta.
- Estão em minoria, entreguem-se agora e não precisam de haver mais mortes! - tentou o Sargento.
- Vai-te fo... porco! Despachamos o chibo antes de cá chegares, o vosso Billyzinho vai a abrir! - grunhiu um dos janados lá dentro.
No terraço sentiam-se os passos de homens feitos correndo escadas acima, ao que o jovem Detective se prepara para executar uma decisão radical: sem hipóteses de resistência naquela posição, lança-se em voo do telhado, aterrando secamente em cima das suas costas e dos vidros partidos, que polvilhavam a frente do motel. Numa fracção de segundos sentiu a dor de mil vidros rasgando-lhe o casaco de cabedal, a pele e a carne. Estava imóvel com a dor do impacto, mal sentindo o corpo quando as balas entraram, nos segundos que se seguiram ao seu voo temerário. Lá em cima os pulhas soltavam a sua última gargalhada.
Ao chegar o Comandante Harding e a sua unidade, o contingente policial efectuou com sucesso a entrada no quarto, chegando ao terraço, onde apreendeu os suspeitos. O Detective Gaines foi de imediato transportado para o hospital do Condado, falecendo na ambulância devido a perda de sangue. Tendo sido condecorado postumamente, na sequência do seu trabalho, que conduziu à recuperação do carregamento de oxicodona e salvamento do camionista. No roubo e sequestro planeado pelo gangue conhecido por "Steer Kings" o crime não venceu. Terminado o inquérito à operação e liderança do Comandante Joe Harding e do Sargento Thomas Hawkes, enquanto superiores no comando, foi o mesmo arquivado.
Nesse dia o sol nascente não conseguiu secar as poças de sangue e água, que a madrugada derramou em Red Rock Hills.
Há meses que o Detective Gaines trabalhava infiltrado no gang de motoqueiros a operar no condado. Relativamente recentes na zona, estes arruaceiros de bar procuravam subir na vida “fiscalizando” a mercadoria dos camiões que saíam da Interstate 75. Eram chefiados por um sacana feio, porco e mau, de nome Don “The Ratchet” Miller. Sob a sua liderança, os “Steer Kings” como se chamavam, duplicaram o número de arruaças nocturnas e sextuplicaram a percentagem de assaltos violentos no Condado.
Nessa noite, o trabalho de Billy chegaria ao fim com a apreensão do núcleo duro do gang, que festejava em plena pandêga no "Red Rock Motel", depois se terem apoderado de um carregamento de oxicodona seguindo para distribuição farmacêutica em Dallas. Sequestrando o camionista nesse processo.
Billy havia informado a polícia da sua localização e aguardava apenas a confirmação de "The Ratchet", sobre a localização da droga. Com a dança macabra de álcool, violência e deboche, Billy pressiona o líder...
- P'ra quê a sede de informação puto?! 'tás a querer mais qua tua parte é?! - vociferava o sujeito grandalhão, já com a veia da testa a pulsar por entre o suor e sebo que lhe caíam do cabelo.
- Nada disso! Chibo é que na sou! ...dass 'tou a tentar ajudar... e se nos apanham aqui ca "cena" tamos lixados! Porra que tou nervoso chefe! - retoquiu Billy numa actuação digna de Óscar.
- Cab... deste maricas! queres tomar conta da cena vai buscá-la a estes gajos todos! - gritou, apontando para a horda de arruaceiros que povoavam o quarto 10 do Motel - bebe esta m... antes que ta parta na cabeça - e terminou enfiando no peito do Detective uma garrafa de Jack Daniels, com tanta força que lhe partiu o microfone.
Segundos depois, Joe Harding dava ordem ataque aos 5 carros patrulha que aguardavam sorrateiramente nas imediações do "Red Rock Motel". Para este polícia frio e calculista, Billy estava em apuros, talvez até morto e tudo indicava que havia vestígios da droga no Motel. Facilmente poderia ligar a mesma ao camião roubado e como bónus, Ratchet cumpria prisão por uma série de crimes, desde roubo a homicídio. Agora que estavam bêbados, drogados e relaxados seria a melhor hora para os apanhar.
- Dá a ordem Layla! Vamos para lá! Watts, Bufford... tragam os coletes. - comandou Harding em tom seguro e confiante.
Já no estacionamento do Motel, o Sargento Hawkes liderava a operação - É a polícia! Deponham armas e saiam em fila indiana com os braços na nuca! Caso não cumpram em 5 minutos, serão invadidos e forçados a tal!
- Agente Mullins! Preparem-se para atirar caso estes atrasados se armem em espertos. O primeiro que sequer mexer os braços ou começar a correr come chumbo! Entendido? - comunicou o Sargento ao subalterno.
Lá dentro, Ratchet ignorava por completo quem era Billy e encontrava-se numa fúria cega, arremessando cadeiras, mesas e até membros do gang que lhe aparecessem à frente - Rapazes, irmãos! Fod... esses filhos da p...! Cara... que volto p'ra choldra. Ficam aqui 6 de vocês enquanto eu, o Billy e o "Crazy Earl" lhes damos calor lá de cima, tudo o resto sai e baixa a cabeça lá fora!
Como indicado, 5 membros dos "Steer Kings", deixam o motel de mão na nuca, ajoelhando-se no estacionamento por ordem da polícia. A chuva caí fria e quase invisível na noite escura, agentes e criminosos só dão por ela quando, progressivamente, lhes encharca o escalpe.
Os polícias irrompem em direcção ao grupo, numa tentativa de os algemar, quando do interior do quarto saem disparos em rajada, abatendo o agente Mullins que seguia na frente, deixando todos os que o seguiam sujeitos à segunda vaga de disparos. Automaticamente e antecipando o fogo de cobertura da segunda unidade policial comandada pelo Sargento Hawkes, Ratchet e Crazy Earl abrem fogo. O Sargento que antes parecia implacável, permanecia de cócoras abrigado atrás do carro-patrulha, impotente perante a chacina dos seus homens.
O coração de Billy batia-lhe fora do peito... que seria dele se tentasse sequer fazer o seu dever? As análises toxicológicas mostrariam indícios de droga e álcool no sangue. Os seus superiores crucifica-lo iam por fugir ao tiroteio, assumindo que não o associavam ao gangue. Cerrou os dentes e agarrou Ratchet pelo pescoço, ao mesmo tempo que lhe enfiou 4 ou 5 balázios da sua 9 mm, à queima roupa pelas costas. No caos do tiroteio "Crazy Earl" mal percebeu o sucedido, caindo com um tiro certeiro na têmpora.
Ofegante, Billy gritou o cessar-fogo ao Sargento e logo este concentrou o esforço policial nas janelas e porta do quarto 10; sem hesitar, fuzilando com a automática os membros do gangue que permaneciam prostrados no chão a poucos metros de si.
Enquanto isto, Billy refugiou-se atrás de uma chaminé no terraço, sabendo que tinha sido ouvido e descoberto pelos pulhas lá em baixo. Só com muita sorte sairia vivo de Red Rock Hills... Seriam esses os seus últimos minutos de vida? Entregue no meio de sangue, whisky e droga? Estava longe dos dias da academia, da "sabedoria" dos livros e das noites de cadete em que se imaginava tomar parte numa grande operação como esta.
- Estão em minoria, entreguem-se agora e não precisam de haver mais mortes! - tentou o Sargento.
- Vai-te fo... porco! Despachamos o chibo antes de cá chegares, o vosso Billyzinho vai a abrir! - grunhiu um dos janados lá dentro.
No terraço sentiam-se os passos de homens feitos correndo escadas acima, ao que o jovem Detective se prepara para executar uma decisão radical: sem hipóteses de resistência naquela posição, lança-se em voo do telhado, aterrando secamente em cima das suas costas e dos vidros partidos, que polvilhavam a frente do motel. Numa fracção de segundos sentiu a dor de mil vidros rasgando-lhe o casaco de cabedal, a pele e a carne. Estava imóvel com a dor do impacto, mal sentindo o corpo quando as balas entraram, nos segundos que se seguiram ao seu voo temerário. Lá em cima os pulhas soltavam a sua última gargalhada.
Ao chegar o Comandante Harding e a sua unidade, o contingente policial efectuou com sucesso a entrada no quarto, chegando ao terraço, onde apreendeu os suspeitos. O Detective Gaines foi de imediato transportado para o hospital do Condado, falecendo na ambulância devido a perda de sangue. Tendo sido condecorado postumamente, na sequência do seu trabalho, que conduziu à recuperação do carregamento de oxicodona e salvamento do camionista. No roubo e sequestro planeado pelo gangue conhecido por "Steer Kings" o crime não venceu. Terminado o inquérito à operação e liderança do Comandante Joe Harding e do Sargento Thomas Hawkes, enquanto superiores no comando, foi o mesmo arquivado.
Nesse dia o sol nascente não conseguiu secar as poças de sangue e água, que a madrugada derramou em Red Rock Hills.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
Breve reflexão.
Breves constatações sobre as presidenciais.
Fernando Nobre - Passou-se, a politica claramente não é o seu mundo, começou com palavras mansas sobre a politica do amor, e acaba a pedir tiros na cabeça. Por muito boa pessoa que seja, por muito bem que tenha feito, acabou por se tornar no pior candidato possível, de uma instabilidade e incoerência no discurso, puxando por si para o que não foi feito para ser...político de arraiais.
Manuel Alegre - Cada vez mais pateta, cada vez mais chorão, a campanha de vitimização fica-lhe mal, entrou em danças com o Cavaco numa disputa ali a roçar as brigas do liceu, mas nesses tangos que foram dançados, Alegre foi sempre conduzido pelo Cavaco. Não tem estofo nem perfil para Presidente, falta-lhe agressividade bem direccionada, falta-lhe um lado fuinha de político.
No fundo e por muito mau que seja dize-lo, faltam-lhe tomates.
Cavaco Silva - O profeta da desgraça, é o seu constante papel. Nunca vi ninguém que tivesse contribuído para a crise, e ao mesmo tempo usado e abusado da crise para se promover. É aquele tipo que cria as galinhas desde pintos, para depois as violar. Não passa optimismo, apenas propaga as vozes da crise e da desgraça, mas no entanto acha que pode ser a solução. Era de esperar um pouco mais de maturidade, um pouco menos de política de arraial, poderia e devia transmitir mais segurança, mais estabilidade, mas invés disso, encarna o papel do capitão que abana o barco e ainda sorri quando vai homem borda fora.
Francisco Lopes - Quem?
Defensor Moura - Creepy...
Coelho Tiririca - Bom circo para terminar um dos comícios do Cavaco.
Rato Mickey - Tem desde já o meu voto. RATO MICKEY NA SEGUNDA VOLTA.
Fernando Nobre - Passou-se, a politica claramente não é o seu mundo, começou com palavras mansas sobre a politica do amor, e acaba a pedir tiros na cabeça. Por muito boa pessoa que seja, por muito bem que tenha feito, acabou por se tornar no pior candidato possível, de uma instabilidade e incoerência no discurso, puxando por si para o que não foi feito para ser...político de arraiais.
Manuel Alegre - Cada vez mais pateta, cada vez mais chorão, a campanha de vitimização fica-lhe mal, entrou em danças com o Cavaco numa disputa ali a roçar as brigas do liceu, mas nesses tangos que foram dançados, Alegre foi sempre conduzido pelo Cavaco. Não tem estofo nem perfil para Presidente, falta-lhe agressividade bem direccionada, falta-lhe um lado fuinha de político.
No fundo e por muito mau que seja dize-lo, faltam-lhe tomates.
Cavaco Silva - O profeta da desgraça, é o seu constante papel. Nunca vi ninguém que tivesse contribuído para a crise, e ao mesmo tempo usado e abusado da crise para se promover. É aquele tipo que cria as galinhas desde pintos, para depois as violar. Não passa optimismo, apenas propaga as vozes da crise e da desgraça, mas no entanto acha que pode ser a solução. Era de esperar um pouco mais de maturidade, um pouco menos de política de arraial, poderia e devia transmitir mais segurança, mais estabilidade, mas invés disso, encarna o papel do capitão que abana o barco e ainda sorri quando vai homem borda fora.
Francisco Lopes - Quem?
Defensor Moura - Creepy...
Coelho Tiririca - Bom circo para terminar um dos comícios do Cavaco.
Rato Mickey - Tem desde já o meu voto. RATO MICKEY NA SEGUNDA VOLTA.
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