Estava a passar quando reparei que a minha mãe estava a ver um filme.
Espreitei a ver se deslindava de que filme se tratava. Levei algum tempo a entender, e entretanto perguntei à minha mãe, que estava completamente fixada no filme, com uma cara, de um sentimento que nem agora consigo descrever. Repulsa, nojo, revolta, ódio, injustiçada, tristeza, desilusão.
Sentei-me ao lado dela, e em poucos segundos entendi o porquê daquele ar, entendi que filme era, e imediatamente fiquei com a mesma expressão e o mesmo sentimento.
Comecei a reflectir no assunto inerente aquele filme.
The Stoning of Soraya M., um filme sobre o apedrejamento de mulheres no Irão e em outros países de cultura Muçulmana.
Não me cabe distinguir as atrocidades da religião, do fanatismo religioso, todas as religiões estão manchadas de sangue, desde o seu inicio até ao fim, a violência é retratada como uma condição humana, a crença cega na voz de quem se diz representante de algo maior, ganha a força pouco natural de ser verdade incontestável.
Poderia até expressar o meu ponto de vista sobre as religiões, mas não é a crença e fé cega dos homens que me dá repulsa, quanto muito uma pena condescendente, não é o conservadorismo da cultura da fé que me chuta o estômago com violência e espezinha a razão do intelecto.
Acima de qualquer criação do homem, está o homem em si. Os seus condicionamentos, e as suas capacidades básicas. O homem por si, e o homem enquanto membro de grupo.
A distinção entre o bem e o mal, é uma característica que nos une a todos, depois podemos discutir se todos temos a mesma percepção das consequências, se todos temos capacidade de medir meios e resultados, de ser equilibrados e justos.
Mas todos, desde pequeninos, sabemos distinguir o certo do errado, o bem do mal, mesmo que ignoremos as consequências que dai podem surgir, e independentemente do caminho que seguimos, todos sabemos fazer a simples e lógica distinção entre o bem e o mal, a vida e a morte.
Por vezes posso achar que o mal se justifica, que o bem não é produtivo, que o mal vem por bem, ou que é um bem maldoso. São valorações posteriores de meio e resultado, objectivação dos mesmos.
Apedrejar uma mulher até morrer, como pene pelo adultério, obrigado a que os filhos da mesma participem, parece-me a mim, um mal. Algo que está mal, que está errado.
Agora explico porquê. Primeiro a pena de morte, só por si, não é lógico. Uma pena pressupõem o cumprimento de uma penitência, uma acção ou omissão que cause um efeito desagradável de modo a fazer com que o infractor entenda que cometeu um erro, que entenda que as acções têm consequências, e que o facto de causar dano a alguém, de prejudicar alguém, provoca nessa pessoa, um mal estar, um dano, que é desagradável, desconfortável, doloroso. A intenção de cumprir uma pena, é "educar" e recuperar o individuo, levando-o a entender o mal da sua acção, e recupera-lo para a sociedade como alguém consciente entre as consequências do bem e do mal. Ou seja por lógica, isto leva algum tempo. A pena de morte faz com que seja impossível, "educar", reabilitar alguém. E que espécie de "castigo" é tirar a vida a alguém?
Para mais, se a morte por apedrejamento fosse aplicável ao adultério do homem, na mesma não compreenderia o seu sentido, mas poderia dizer que haveria um sentido de justiça e igualdade macabra. Que na verdade não existe.
O que revolta é que desde 1990 altura em que o livro foi lançado, até hoje pouco mudou nestas culturas.
Eu sou um homem de costumes, dou muito valor a certas tradições, e até sou conservador em muitas coisas, mas o melhor que conservo da minha história, da história da humanidade, é a sua evolução.
O que mais estimo nos costumes das gentes, é a liberdade que temos de evoluir, de partilhar ideias, de progredir para algo melhor.
É discutível se caminhamos para o sitio certo em tudo, é discutível se o liberalismo não deve ter trela, se o conservadorismo não deve ser solto, é questionável se estamos melhor nos extremos ou no equilibro do centralizado.
O que não é questionável, ou não deveria ser hoje em dia, é a igualdade entre raças, sexo, crenças. A igualdade é pedra basilar para uma sociedade de direitos, uma igualdade de direitos e de obrigações, de oportunidades e de oportunismos, uma igualdade de tratamento, uma igualdade.
É inconcebível o que se vive em algumas sociedades islâmicas. É desumano, bárbaro, intolerável. E na nossa sociedade Ocidental e moderna? Na nossa sociedade cheia de aparelhinhos e tecnologia, no avançado liberalismo da mente, no proxenetismo económico que eu próprio não seria capaz de viver sem...teremos melhor noção de igualdade?
Por vezes gostaria de achar que sim, e muitas vezes a sociedade leva-me a acreditar que não. É assim tão complicado aplicar a mais crua e simples igualdade entre as pessoas? Compreendo que alguns sejam especiais, não compreendo é que outros sejam tratados como não tendo direito de ser especial para alguém.
A igualdade de tratamento básico, de condições e de oportunidades, é do mais elementar que existe na fundamentação de uma sociedade.
Será que alguma vez deixaremos de ser rebanhos para ser aquilo que ambicionamos?
É a igualdade utopia? E sendo uma utopia, devo deixar de almeja-la? De tentar aplica-la aos casos concretos onde seja eu senhor daquele destino?