Imaginem aquele vosso guilty pleasure em termos de cromice.
Imaginem que gostam de coleccionar selos, ou adoram entomologia, sempre foram fãs de mitologia, e devoravam livros sobre algum interesse menos comum.
Vamos supor que têm um desses secretos prazeres, que são difíceis de partilhar com alguém porque normalmente não vos levam a sério se disserem que uma das vossas paixões é a mitologia, ou o estudo profundo da geologia do vosso jardim.
Isso já acontece em prazeres tão mais mundanos, como escrever, ou gostar de fotografia, ou devorar discos de jazz. Por vezes olham para nós com um ar tão incompreensivo como se fosse um ser estranho por gostar de algo bom como jazz, por gostar de filmes italianos, ou por ter como uma das maiores paixões a literatura, tanto de ler como de escrever.
O mundo não compreende, nem nunca vai compreender a minha paixão por literatura do leste europeu, ou o meu vício em Kerouac e Bukowski.
E durante anos vivemos sozinhos esses pequenos prazeres em segredo, sem termos com quem os partilhar, com quem os saber apreciar.
Agora imaginem que do nada, do modo mais inesperado e quase cruel, aparece alguém, que partilha os gostos da vossa vida como se fosse uma cópia exacta, que vos impressiona de tal modo que se sentem rendidos e fascinados.
Imagina tu Luís que encontras alguém que gosta de Ophet ou Porcupine Tree tanto como tu, que venera os filmes Grindhouse, que toca guitarra baixo lindamente, e partilha tantos outros gostos como tu?
Imagine quem quer que leia este post, que no meio do nada da vossa vida aparece alguém que nunca pensaram existir, alguém que vos impressiona de tal maneira, aquela outra parte que faltava, aquela pessoa com quem posso ser eu, e que posso partilhar as minhas paixões da vida.
Que sentimentos estamos autorizados a sentir nesse momento?
Quanta liberdade nos podemos dar de querer a companhia daquela pessoa?
Neste momento vou apenas em estupefacção e medo, puro receio.
Receio porque muito provavelmente será mais alguém que saberei com toda a mestria afastar e afugentar da minha vida, naquele jeito que me caracteriza, de quem não tem ou quer ter direito às coisas boas da vida.