Não era uma vez, era talvez a quinta ou sexta vez que o pequeno Diogo chateava os seus pais com o mesmo assunto.
O miúdo sonhava em poder voar, e queria muito que os pais lhe comprassem umas asas pelo Natal, não importava quais, umas quaisquer, umas que dessem para voar livremente como os pássaros que Diogo passava tardes a observar no jardim de sua casa.
Ele era um rapaz irrequieto, o normal para a sua idade de 7 anos, com o acréscimo de um problema psicológico que o tornava hiperactivo. O Diogo não tinha muitos amigos, gostava mais de passar o seu tempo sozinho, entretido com as suas coisas e ao seu ritmo. Tinha claro os habituais dois ou três amigos da sua rua que ao mesmo tempo eram seus colegas na escola, mas de resto não havia muita gente interessada em travar qualquer tipo de conhecimento com o Diogo. É incrível como os miúdos desta idade já conseguem ser tão selectivos, maldosos e desconfiados em relação aos seus pares.
Aluno de boas notas, sonhador nato, mais um rapazinho que vive num mundo muito seu, com os seus sonhos, que embora fossem tão comuns ao de outras crianças, cada um tinha uma maneira de o sentir. Diogo tinha como maior sonho o trunfo das aves, poder voar, planar no céu azul e tocar-lhe como quem sente um lençol macio quando se deita na cama.
Embora fosse esse o seu sonho, nunca disse que queria ser piloto, nem tinha interesse por aviões ou aeronaves, e os astronautas não eram os seus derradeiros heróis. Como podem ver ele tinha um sonho que é igual ao de tantas outras crianças, mas sentia-o de um modo muito particular, o que mais queria era voar, mas só se fosse como os pássaros.
Talvez compreenda eu e qualquer pessoa, que voar não é simplesmente voar, onde qualquer coisa vale, voar livremente não é andar num avião, nem mesmo pilota-lo, não é pisar a lua e sentir a sua gravidade, não é ser içado por cabos e cordas, para o Diogo voar era como os pássaros, com a sua liberdade animal, com a sua classe, com a sua mecânica muito própria.
Os pais levavam-no ao jardim zoológico, mas nunca compreenderam que o filho não tinha qualquer fascínio por animais, aliás ele até tinha medo de pombos, e não achava as aves de todo animais belos, apenas admirava a sua capacidade de voar, apenas invejava aquela habilidade.
Passava tantas horas em volta do seu sonho, a observar os pássaros, a desenhar-se a si com asas, a olhar para os céus onde imaginava as suas acrobacias, uma pequena razia aquele telhado, pousaria naquela árvore, iria apanhar aquela flor no topo daquelas rochas, sentir as nuvens no seu rosto, beber do céu e matar a sua sede por chegar mais longe que o homem comum e ter um espaço só seu, onde só ele pudesse ir por si mesmo.
Muitas das pessoas estranhavam este comportamento do Diogo, aos miúdos ainda se perdoa o facto, nestas idades não formaram a consciência, são o seu quê de maldosos por natureza, fazem troça e segregam quem não seja como eles. Agora os adultos, os seus próprios pais? Os pais ficavam furiosos com o sonho do filho, com aquela vontade tão grande de o realizar, com a constante conversa sobre o assunto, com as horas perdidas naquilo, em ter de repetir os "nãos", e os "porque não podes", e os "cala-te com isso ou levas", gritavam, brigavam e por uma vez ou outra até escapou um tabefe como resposta à insistência do miúdo em querer voar, em pedir aos seus pais para lhe ajudarem nesse sonho.
Ninguém o compreendia, ninguém o ajudava, ou gozavam, ou diziam que não, ou apenas cortavam-lhe as asas ao sonho.
Diogo não conseguia pensar em mais nada, o seu melhor amigo Alexandre tentava compreende-lo, mas era complicado, era uma obsessão tão grande, quase que um pensamento esquizofrénico na cabeça de um rapazinho de sete anos de idade, um verdadeiro perigo.
Diogo contava os seus planos, sonhos e desejos a Alexandre, como um dia iria pedir a um cirurgião que lhe trocasse os braços por asas, que iria juntar dinheiro para o conseguir, mas que para isso tinha de seguir certas regras, como nada de gastar dinheiro, ficar sempre o mais magro possível para que o seu peso não o impedisse de nada, ganhar força nas pernas para dar impulso ao seu voo, planos esses que Alexandre só se ria, mas mesmo assim dizia que sim com a cabeça.
Diogo ficou tão compenetrado com o assunto que até Alexandre sentia algum medo do amigo, não o reconhecia muitas vezes, não sabia o que lhe dizer, nem como se aproximar. Diogo não podia contar com ninguém, não havia viva alma que o ajudasse, nem um dedo se mexia pelo seu sonho, estava sozinho com o seu desejo.
Ontem à tarde encontraram o Diogo caído no chão, morto com a caixa torácica toda desfeita, pulmões perfurados, fractura do crânio e pescoço, graves lesões cervicais e fracturas nos membros, tudo apontava para uma morte instantânea depois de ter saltado do topo de uma ponte pedonal perto da sua casa. Alexandre foi o único rapaz a escrever uma carta para o funeral do Diogo, uma folha de papel normal que usaria para os trabalhos manuais, com apenas uma curta frase escrita, "Eu sei que também os anjos voam, missão cumprida.".
Poucos perceberam o significado daquela frase, a mãe nem ligou de tão desfeita emocionalmente que estava, o pai entendeu e derramou mais lágrimas por tal dito.
No fundo todos sonhamos, todos temos um sonho por mais disparatado que seja, todos queremos muito algo, alguns sonhos são guardados no nosso intimo, outras vezes partilhamos com as pessoas de quem gostamos. Nenhum sonho é ridículo ao ponto de não ser compreendido, nem tão mais ao ponto de ser impossível.
Agora existe um sonho comum a qualquer pessoa com um coração decente e carácter formado, todos sonhamos ajudar os outros, e por muito que não saibamos o que fazer, ignorar, diminuir, ou ridicularizar o sonho de alguém não será a melhor forma de ajudar.
Nunca digam a alguém que o seu sonho é impossível ou incansável, nunca o minimizem ou façam troça, nunca virem as costas aos sonhos das pessoas que amam, porque elas ou apoiam os seus, ou farão tudo para vos mostrar que o conseguem, mesmo tendo de levar qualquer coisa às ultimas consequências.