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A ver: Oscars 2008

A comer: Maçãs vermelhas




"Perdido à deriva na minha janela, olho para a rua, vislumbro a lua, e não penso nela.
Mais uma vez pensava em ti, que martírio, que castigo, que vil e cruel momento de prazer, pensar em ti, só em ti e nada mais.
Um sorrisinho doce que vejo em saudade, um cheiro harmonioso que de ti inala, movimentos traçados em pura beleza, que vaidade esta a minha de te vangloriar como parte dos meus sonhos.
Encostado ao parapeito da minha janela, deito a cabeça sobre os braços e suspiro, um suspiro cansado, gasto e usado em tantas outras vezes com o teu nome.
Escondo os olhos por baixo dos braços, estilhaça-me a alma, pouso o queixo na laje fria, penso em tudo que por ti faria.
Isto não é vida para mim, não é a vida que eu quero, mas é a vida que eu levo por não agarrar o que quero com medo de deixar escapar ao de leve por entre dedos, por fraqueza dos braços, por ilusão da alma, por grandeza do sonho.
Levo as mãos à cara, penso na dor, penso no medo, penso nos passos que vou dando, e quantos deles são um passo atrás, o desespero instala, o desejo aperta, a noite fica calma quando sorrio ao pensar no teu ar encoberto por uma aura tão linda como a tua.
Não acredito na minha satisfação saloia e simplista, e ao mesmo tempo tão apaixonada, tão regrada de mim mesmo, onde vou enunciando tudo o que em ti adoro.
Prendes-me ao de leve com breves laivos de ternura, com suaves momentos que se alongam no meu espírito que absorve-te e catalisa como química necessária para cada dia.
Respiro por mim, suspiro por ti, acordo por mim, sonho por ti, não te tenho e já partilho parte da minha existência contigo como quem se entrega nos braços de um anjo sem asas, um ser terreno digno de ser iluminado de forma especial, e assim enquanto andas para mim, mais anseio que não me passes ao lado.
Depois de pensar tudo isto levantei-me da cadeira e nem me lembrava que era cego.
Dei um passeio pelo parque e perguntei-me como era capaz de criar estes sonhos apenas por penitência de uma incapacidade que nunca foi minha."
Depois de rever mais do que uma vez os seus recentes comentários e acutilantes observações pejadas de uma inabalável crença em que tem razão no que diz, este distinto cidadão afastado do mundo político de uns anos para cá, teve uma intervenção que me deixou estupefacto.
Achei interessante a sua análise aos anteriores e posteriores Bastonários, o anterior seguia as minhas ideologias, e não eu as dele, o meu sucessor foi absolutamente irrelevante no cumprimento dos deveres de Bastonário e nos objectivos formais da Ordem como ainda foi uma nulidade na busca dos objectivos materiais da prossecução das máximas da justiça e moral. Em parte até concordo no que diz respeito ao sucessor. E por fim faz a sua análise inchada com argumento de autoridade, deste legítimo defensor do que deve ser um Bastonário, quase como que a dizer, isso do Bastonário fui eu que inventei.
Antes de mais nada quero deixar claro que sempre tive uma opinião sobre Marinho e Pinto, porque sim eu também sou opinativo quando quero.
O actual Bastonário da Ordem dos Advogados, é uma pessoa que me causa um misto de ideias por vezes contraditórias. Partilho da opinião de muita gente que tenho ouvido, é sem dúvida um homem terra a terra, que se consegue ver no meio do povo, e até quem sabe ser o povo.
Uma espécie de Carvalho da Silva com uns palmos de testa, e com noção do que está a dizer, sem medo de apontar o dedo mesmo sabendo que é feio, diz o que se supõem muitas vezes ser a verdade que ninguém expõem ao claro, levanta as suspeitas que todos fazemos no dia a dia sobre a corrupção e a forma de funcionar deste país. Basicamente se formos interrogar um cidadão comum, o que Marinho e Pinto faz é dizer o que todos sabem, mas não falam.
Quanto a isso não tenho nada contra a pessoas que sejam terra a terra e se sintam próximos do cidadão comum, até é de louvar e quase refrescante que alguém com algumas verdadeiras responsabilidades neste país se sinta capaz de aproximar-se do povo e constatar que algo está mal em certas áreas da justiça. Eu como cidadão comum quase que fico agradecido por não serem ignoradas as dúvidas e suspeitas que partilho com milhões de outros cidadãos como eu, pelas entidade com algum poder de as questionar publicamente, fazendo alguma pressão para que algo mude.
Seja como for apesar de achar que Marinho e Pinto fez parte do seu papel, para além das formalidades de Bastonário, eu pessoalmente tenho em mim a convicção de que o deveria ter feito de maneira mais subtil, bem mais subtil que o Manuel Subtil, e muito mais subtil que o Bernardino Soares. Devia lançar as dúvidas, dizer que as conhece, pegar nas suspeitas e encontrar a verdade, e fazer alguma pressão para que se tomem medidas, como se estivesse a dizer, estou a vigiar-vos e é bom que se mexam. Apontar o dedo acusador é menos subtil e pode ser alvo de criticas como veio a ser o caso.
O Dr. José Miguel Júdice, foi um dos críticos a essa tomada de atitude. Na entrevista que deu disse que Marinho Pinto era inteligente, "populacho", forte, gordo, demagogo, que levantava acusações infundadas, que era como o Mussolini ou o Hugo Chavez, que não tinha a voz de cana rachada do Louçã, que o dever do Bastonário não é falar ou envolver-se na política, e que não gostava dele.
Para ficarmos desde logo esclarecidos, não existe um curso no ensino especificamente para nos tornar-mos políticos, temos cursos que são mais propensos, e têm maior ligação com o universo político, como o curso de ciência política, direito, e mais um ou outro. Se o Bastonário da Ordem dos Médicos se envolve na política, como representante de uma ordem profissional, mais sentido faz que o Bastonário da Ordem dos Advogados o possa fazer, até porque o direito, as leis, a política estão naturalmente ligadas, dai existirem legisladores e tudo, mas se calhar em vez de leis deveríamos fazer implantes e cirurgia estética a torto e direito nesse nosso mundo político.
Continuando, denominar Marinho Pinto como inteligente e forte não compensa o facto de ter dito que era também um demagogo que levanta acusações infundadas, sem presumir a inocência das partes que acusa, que apenas o faz para cair nas graças do povo, sem sequer ser magro e mesmo assim pretender ser como o esbelto Hugo Chavez.
Evidências à parte quanto à estrutura física do homem, acho que ser comparado a Mussolini ou Hugo Chavez é ainda em Portugal algo ofensivo. Acho que o Mussolini não era muito popular no seio das suas gentes, quer dizer não no sentido que se pretende, e o Marinho Pinto não é nem de perto nem de longe capaz de se tornar num Hugo Chavez.
Com tudo isto dá claramente para retirar algumas premissas. José Miguel Júdice está nervoso, tanto tempo ausente da política por opção e sem deixar saudades, e agora vem politicar e falar de politiquices. Com que autoridade? O Bastonário da Ordem dos Advogados não pode falar de política, mas o cidadão Júdice pode falar porque não desempenha um cargo que este acha que devia imiscuir-se de opiniões políticas? Sinceramente não vejo razão nenhuma para que o Bastonário não possa envolver a política ao de leve, se isso ajudar a cumprir os objectivos formais e materiais do seu cargo. Marinho e Pinto apenas apontou alguns problemas que todos sabemos existir e aos quais se mostra alguma inércia
Preocupa a José Miguel Júdice que Marinho e Pinto se venha a candidatar ao cargo de Presidente da República, ficou claramente nervoso, mas a razão é que não entendo. Estaria Júdice a pensar fazer o mesmo percurso? Não faria sentido estando tanto tempo ausente do mundo político. É pelo facto de Marinho e Pinto ser um homem do povo e logo apontado como a grande ameaça da esquerda política que incomoda José Miguel Júdice? Segundo mentes mais entendidas nestas lides, José Miguel Júdice é mais papista que Paulo Portas. Não sei se é mais devoto que este, mas está mais à direita que Paulo Portas. Será que Marinho e Pinto incomodou algum amigo de José Miguel Júdice?
Sinceramente não sei. Sei é que muito tempo sem observar grandes participações de José Miguel Júdice nos media, vem este agora aparentando grande irritação e mostrando-se incomodado com o papel desempenhado por Marinho e Pinto enquanto Bastonário da Ordem dos Advogados.
Parece quase aqueles meninos que não deixa mais ninguém brincar com certo brinquedo, porque tem a mania que só ele é que sabe como se faz.
Em jeito de balanço final, achei que as declarações de Marinho e Pinto não foram nada subtis, mas as de José Miguel Júdice foram bem piores nessa matéria. Talvez impulsionadas por uma clara irritação, talvez porque caiu num claro mau gosto no modo como falou de Marinho e Pinto, sem grande classe e com um claro intuito de atingir a imagem de Marinho e Pinto a todo o custo, de fazer com que fiquem desacreditadas as palavras de Marinho e Pinto através de "insultos" quase a roçar o estilo oratório de Joe Berardo sem a aparente iliteracia.
Acho que José Miguel Júdice esteve mal, pareceu e soou mal, além de que não foi na altura mais oportuna nem com o sentido mais conveniente.
Eu já adivinhava que Marinho e Pinto iria pagar a falta de subtilidade com ataques e criticas, mas nunca pensei que usurpassem as criticas mal construídas e de mau gosto ao Joe Berardo.
Só espero que o Louçã se mostre homenzinho suficiente para não utilizar uma expressão do tipo "coçado como o Júdice" na Assembleia da República quando se dirigir para atacar alguém.




Tundra do silêncio entre gentes que se perdem e jamais se encontram apenas no olhar de quem procura.
Noite de breu onde o frio recorta silhuetas sem sombras, onde o brilho se faz pelos olhos felinos dos amantes espalhados nessa rua batida por passos sem rumo.
Mãos que desapertam a roupa enquanto outras apertam a carne de quem desejam, o beijo no corpo e o entrelaçar das línguas, o ofegante riso de quem espera prazer muito em breve.
Paredes caiadas de gente encostada ao cimento e tijolo onde se apoiam os desejos carnais de toda aquela gente que se envolve em brutos embates.
Sem beijos ou afagos, matam-se as fomes de anseio por um gozo barato, mas não gratuito. Perna alçada e calça no chão, sem suspiros ou sinais de paixão, é acalmado o sedento sentido de deleito carnal.
Gemidos ao de leve não irrompem o forte silêncio de uma clandestinidade descoberta, num ar que se desperta carregado de cheiro a tabaco e álcool que afoga a necessidade de calar a consciência.
Lábios que percorrem o corpo e nunca se tocam, olhares que não se cruzam quando os corpos se penetram, mãos frias que agarram sem carinho.
Não é lugar para a paixão, é um sítio onde se satisfazem as vontades básicas sem delícia, um amor comercial como tudo mais o que os acompanha.
Começa a chover levemente, não é o suficiente para lavar a rua dos seus pecados, e os pecados daquelas gentes que se consomem em fogo no meio da calçada da libido.
Não se trocam conversas, bocas cheias embora mudas, sem nada que dizer. Parcos gemidos e suaves esbaforidos de prazer, o roçar dos corpos e demais toques, a chuva que cai, de resto tudo o mais era silêncio.
No meio de todo aquele ambiente onde as almas burlescamente eram símbolos mórbidos e ausentes, debaixo de uma das únicas luzes que funcionavam naquela rua estava sozinha uma rapariga com ar de anjo perdido nos gritos e suplícios de almas perdidas em dor.
A chuva que lhe cai no rosto não deixa perceber se ali se agregavam lágrimas, naquele lindo rosto triste e distante, dava a entender que não pertencia aquele lugar.
De pele morena e lábios ruborizados por um fogo que lhe vem da alma, ao contrário das outras não tinha um olhar vazio, tinha um olhar perdido, totalmente confiante que não deveria fazer parte daquele meio.
A tremer ligeiramente com o frio, procurava qualquer coisa na sua bolsa, talvez cigarros ou o isqueiro. Tirou de lá um espelho, mas talvez já muito fustigada pelo cansaço daquela vida e pelos tremores deixou-o cair no chão, e levou as mãos ao rosto.
Quando se preparava para o levantar do chão molhado e frio, viu uma mão a apanhar o espelho.
Apanhei aquele espelho e dei-lho com um sorriso tímido e gesto brando.
O seu rosto não mudou como esperava, não vislumbrava o mais ténue sorriso, só denotei espanto num rosto ainda mais apreensivo, e da sua boca nem um sopro quanto mais uma palavra.
Voltei a sorrir-lhe e com um leve aceno de cabeça virei costas e voltei a apresar o meu rumo.
Por algum motivo parei, devolvi ao passado os dois ou três passos que tinha dado, voltei-me para a rapariga e disse-lhe.
- Não procures o teu reflexo no espelho, porque não o têm os anjos. Nem tão mais precisam de admirar a sua beleza que dentro do seu ser é tão certa de existir.
- Se te aflige a dúvida de onde é o teu lugar neste mundo, uma coisa tens por certa, não é definitivamente nesta rua.
Acabado o que por impulso tinha de dizer, sorri e voltei a seguir o meu caminho.
- Obrigado. - disse ela.
E num ligeiro olhar por cima do ombro vi que lhe tinha arrancado um sorriso, um dos únicos que tinham sido dados e sentidos naquela rua, onde tinha sempre andado esquecida a mais singela amostra de felicidade.
No dia seguinte como rotina mansa de regresso a casa e por obrigação geográfica, tornei a passar naquela rua. Mais uma vez, e como era costume, avançava a passo célere e a fitar o chão, e num relance oculto tentava dar pela presença da rapariga da outra noite.
Não a vi por lá, nem por ali perto. Não naquela noite nem nas muitas outras que se seguiram.
Assim compreendi que algo no mundo mudou não porque eu falei, mas porque alguém me ouviu.
Step by step gently awakening the spirits of her heart, she walked towards the door trying to eavesdrop a whisper from the other room.
A scream, the cold wind blowing, a tumbling tear of blood, all in the fog of a dark night in a mysterious room.
She opens the door and rush into the other room. There's nothing in that room.
No woman screaming, the windows are closed, the only noise is the one coming from the screeching floor.
Was it just imagination? Maybe it was her wish for adventure that laid a trick on the mind.
It's the emptiness of the house that frightens her. She misses the screaming, the smell of blood, the cold shivers on her neck every time someone was killed in that room she never stepped on.
That was her father workplace, but now the war is over, there's no more pain to be delivered, no more names to be forgotten, no more screams begging God for help.
There’s an absolute silence, a forced solitude, all because she drags the name of her father and all the hate carried with it.
She’s the last victim of her father’s atrocities, all of the guilt comes upon her fragile being, all the fingers are pointed to her, and she will never be able to scrub away the acts of that monster. She loved him. She loved him no matter what. She’s proud of him, of his efforts in war, in the name of a proud nation no more to be.
There’s no heritage in remorse, she has no shame on the events of the past, and the guilty ones didn’t lived in that house.
She gagged her mouth and screamed all night, auto-inflicting pain in her flesh.
The addiction in pain could be found in an impressive number of everyday actions.
Even the most sacred and beautiful earthly emotions and actions, like love for example, could be a delightful feast for the pain to feed on.
No man could judge her. Everyone is entitled to suffer, to experience pain. Usually no one wants to suffer, but those that will savour agony, have the right to do it so.
Let a poor man suffer if that’s his wish, but if it’s not a wish, just a mere life imposing due to the way our world works, help that man. Help him on the simplest means you can, even a smile can be a treasure for the ones that seek a less troubled kingdom.