"Perdido à deriva na minha janela, olho para a rua, vislumbro a lua, e não penso nela.
Mais uma vez pensava em ti, que martírio, que castigo, que vil e cruel momento de prazer, pensar em ti, só em ti e nada mais.
Um sorrisinho doce que vejo em saudade, um cheiro harmonioso que de ti inala, movimentos traçados em pura beleza, que vaidade esta a minha de te vangloriar como parte dos meus sonhos.
Encostado ao parapeito da minha janela, deito a cabeça sobre os braços e suspiro, um suspiro cansado, gasto e usado em tantas outras vezes com o teu nome.
Escondo os olhos por baixo dos braços, estilhaça-me a alma, pouso o queixo na laje fria, penso em tudo que por ti faria.
Isto não é vida para mim, não é a vida que eu quero, mas é a vida que eu levo por não agarrar o que quero com medo de deixar escapar ao de leve por entre dedos, por fraqueza dos braços, por ilusão da alma, por grandeza do sonho.
Levo as mãos à cara, penso na dor, penso no medo, penso nos passos que vou dando, e quantos deles são um passo atrás, o desespero instala, o desejo aperta, a noite fica calma quando sorrio ao pensar no teu ar encoberto por uma aura tão linda como a tua.
Não acredito na minha satisfação saloia e simplista, e ao mesmo tempo tão apaixonada, tão regrada de mim mesmo, onde vou enunciando tudo o que em ti adoro.
Prendes-me ao de leve com breves laivos de ternura, com suaves momentos que se alongam no meu espírito que absorve-te e catalisa como química necessária para cada dia.
Respiro por mim, suspiro por ti, acordo por mim, sonho por ti, não te tenho e já partilho parte da minha existência contigo como quem se entrega nos braços de um anjo sem asas, um ser terreno digno de ser iluminado de forma especial, e assim enquanto andas para mim, mais anseio que não me passes ao lado.
Depois de pensar tudo isto levantei-me da cadeira e nem me lembrava que era cego.
Dei um passeio pelo parque e perguntei-me como era capaz de criar estes sonhos apenas por penitência de uma incapacidade que nunca foi minha."
Passado um ano continuo nessa janela, continuo a suspirar por alguém que não lhe conheço o rosto, sem nome, mas que existe nesse mundo. Se este texto teve destinatário, musa, fonte detentora da verdade que me abalou o coração, hoje apagou-se a chama, num misto de desinteresse e esquecimento, culpa da minha inércia e vergonha, medo de ser magoado e acabar o sonho. Nunca cheguei a viver o sonho, e cheguei à conclusão que seria tarde para continuar a dar-lhe alento. Nunca me expus e assim corri o risco de perder o que não tinha, de ganhar uma nova solidão.
O desejo era forte, e o erro foi grosseiro, ganhou o calculismo do medo, num golpe certeiro passei a desacreditar na vontade que me rompia a alma, que lutava por um pôr do sol comum, por um beijo à chuva, pelas mãos dadas junto à areia a ouvir o mar.
Sei que um dia vou ouvir um nome, ver um rosto, sentir o perfume e o gosto da outra parte que catalisa o meu desejo, essa mulher que detêm os meus sonhos, anda por ai, mas não vou à procura sem que a neblina se levante, e o sol gentilmente lhe cubra a silhueta e os seus traços, como que uma luz a guiar um destroço a bom porto.






