Foi uma pausa forçada no trabalho, subitamente tive uma enorme vontade de escrever, como se um surto prosaico se apoderasse de mim.
Não sei bem sobre o que escrever, nem faço ideia do que me impeliu a tal, apenas sei que tenho tanta coisa para dizer e não sei como, nem quando, nem mesmo a quem.
Queria procurar conforto nas minhas palavras porque sinto-me desprotegido nas acções dos outros, já há muito que não sinto segurança nas palavras dos outros, sinto-me vazio e sem propósito de ser, mas ao mesmo tempo sinto que tenho algo a fazer, só não sei por onde começar.
Sinto que nos últimos tempos mudei, algumas coisas para melhor outras para pior, sinto que estou mais agressivo, mais frio e calculista, mais vulnerável ao que me rodeia, mais impaciente, tudo isto numa primeira visão introspectiva, mas sei que ao mesmo tempo lá no fundo estou melhor comigo mesmo, estou mais consciente de mim mesmo, das minhas necessidades, dos meus pontos fortes e dos meus defeitos, hoje em dia tenho noção do que preciso para ser feliz, sei como o fazer, infelizmente a oportunidade não me é presenteada pelo feliz acaso do destino.
Nem era disto que queria falar, não era de mim que queria falar, nem de ti, nem de um nós, queria apenas dizer-te que eu agora sei, embora tarde, sei o rumo que quero e devo tomar, sei a conduta a adoptar, sei ser feliz, apenas não me deixam.
Não quero falar do passado nem do futuro, e faço o possível para esquecer o presente, não quero falar do que senti ou do que sinto, e magoa-me o facto de imaginar o que poderia sentir apenas se pudesse mesmo, tenho o puzzle completo e falta-me apenas uma peça, que ingratidão mundana, que desperdício de sobriedade, a minha fase de esclarecimento é a fase do dúbio perecimento da vontade de ser algo ou alguém.
Nunca na minha vida encontrei-me tanto no meio do nada, nunca senti tanta clarividência das minhas vontades como agora onde me encontro despojado de movimentos, é como se tivesse tomado gosto em voar, tivesse entendido o seu propósito, mas cortaram-me as asas, aprendi a saborear a vida sem palato e tudo parece muito mais insonso quando se prova.
Neste momento falta algo em mim, a peça que faz com que tudo se encaixe, que mova a engrenagem que vai despoletar um sorriso eterno, pelo simples facto de ter entendido o propósito da vida.
Na verdade acordei tarde de um sonho em que a realidade me esbofeteava com vontade.