O meu amigo Xiribitatatata levou-me hoje a recordar-me da primária.
Tempos gloriosos esses, tempos felizes, pejados de inocência, farto em brincadeiras, correrias, brincar no recreio, as aulas de música (a tocar flauta, mas já sei que vem ai um chorrilho de brincadeira ao juntar palavras como flauta, inocência e brincadeira), educação física, os meus colegas, as fotos anuais da escola.
Maior parte da minha primária foi na Escola do Pinheiro no Imaculado Coração de Maria, mesmo frente a uma igreja e a uma espécie de jardim botânico. Era uma escola pequena, a área total em salas de aulas não era mais de 300 metros quadrados, para quatro turmas da primeira à quarta classe cada uma com mais de 30 alunos, depois tinha um campo desportivo com uma grande árvore bem a meio do campo, o que não dava jeito para os jogos de bola, campo esse com mais de 150 metros quadrados.
Havia três a quatro auxiliares de educação, lembro-me de uma pelo menos, a Dona São, era dos Açores, e a minha professora sempre foi a Dona Eva, cabelos pretos muito batôn, óculos acastanhados lentes escuras, sempre com um sorriso, nariz comprido, cara magra, devia ter os seus 45 anos, ainda foi professora da minha irmã mais nova na escola da Sé, mesmo na baixa do Funchal, perto do Centro Comercial Europa, ainda estive nessa escola na quarta classe só para ter aulas com a Dona Eva que se transferiu para essa escola e eu e mais duas amigas a Sandra e a Ana Sofia fomos para lá.
Mas na escola do Pinheiro é que era, bons tempos, acabado de sair com 4 anos e muito da creche do Til, fui com 5 anos para a escola primária do Pinheiro. Encontrei lá vários colegas da creche, o Ruben Marote o meu melhor amigo, o Daniel de quem o pai era bombeiro, o Duarte, o Ricardo, até um colega do Panamá. Só a Sara, a minha paixão da creche não foi para a Escola do Pinheiro.
No primeiro dia levei uma camisa amarela e verde com uns calções brancos que o meu avô me tinha dado, só não levei a estúpida gravata de elástico que combinava com a camisa. Ao entrar naqueles pequenos portões vi logo o meu melhor amigo, que me recebeu com um pontapé nos genitais, nunca percebi porquê, mas depois da dor já não queria saber, mas suspeito que fosse ainda uma recordação da creche de quando lhe parti os dedos na porta da creche, tinha sido mesmo nos últimos dias.
Vi o Duarte, outro que talvez me fosse massacrar os genitais, visto ter sido por causa dele que levei a primeira carga de porrada na creche por parte da Fátima a minha educadora. É óbvio que tinha feito asneira, mas só lhe atirei umas pedras à cabeça, quem nunca fez isso na creche? Vi o Daniel, morava mesmo ali no Imaculado Coração de Maria, eu vivia na Rua do Cabo na Quinta do Deão, Carne Azeda, éramos praticamente vizinhos, era um grande amigo, tinha uma irmã muito gira, disso tenho a certeza.
Como sempre o primeiro dia foi de choro, choro geral, todos queriam os seus progenitores, queriam ir para casa, eu não fugia à regra. Conheci bons amigos, a Ana Sofia, rapariga de olhos azuis muito bonitos, que chegou a ser minha colega do 11º ao 12º, a Sandra excelente aluna a matemática e com um sorriso muito bonito, o Alexandre, o grandalhão da turma, tinha mais 3 anos que nós, vinha dos Estados Unidos, o Paulo era o outro de 13 anos, era burro mesmo, o João David, rapaz magrinho bem comportado, o bonitão da turma, hoje em dia tem mais de 2 metros, é jogador de basquete.
O Mauricio, o trapalhão, comia borracha, comia pontas de lápis, mucosidades esculpidas, os feijões crus que usávamos para contas, giz, e tudo o que apanhava pelo caminho, no Inverno andava sempre constipado, e as miúdas não gostavam dele por causa do ranho congelado, um dia tomou a liberdade de se assoar com o cachecol de uma amiga, como é óbvio levou umas quantas reguadas. O Vítor era um caso problemático, era muito pobre, o pai tinha graves problemas de alcoolismo, e um dia esfaqueou um professor lá da escola, duvide que fosse por razões académicas do filho, Vitor esse que também proporcionou uma boa cena, descobriram piolhos no rapaz, e deram-lhe banho em frente de toda a gente de mangueira e sabão azul.
Havia, como sempre, a dupla de irmãos terroristas, eram gêmeos, o António e o Duarte II, tinham manias de maus, e só faziam merda, provavelmente eram os que tinham as mãos mais fustigadas das réguadas da Dona Eva, uma régua bem dura se bem me lembro. A Marisa, a bela da Marisa, a ingénua da turma, numa aula apanhou mais de dez borrachas diferentes, teve o infortúnio de levar saia sem cuecas, então foi a diversão do dia. A Vanessa, a morena da turma, tudo de bom naquela rapariga, era da Venezuela, tinha cá um corpaço, vá lá vai.
A Maria João era a tímida, era muito gira, mas era feminista demais, era muito tímida, mas muito talentosa, praticava um ou dois desportos, tocava piano já falava algumas línguas, era a betinha da turma numa escola no meio de uma zona de bairros sociais. O Ricardo era o pequenino que defendia os outros pequeninos, praticava judo, dava porrada em todos os que tinham mais um palmo que ele, defendia os oprimidos.
A Cátia foi a personagem mais cómica que já encontrei, era tal e qual a loira do Sexo e a Cidade em versão mini, sem tirar nem por, era muito divertida, brincalhona, era gira tirando os dentes, mas era burra, burra até doer, não apanhava uma que fosse, quando jogávamos a qualquer coisa a rapariga levava meio recreio a perceber a teoria da apanhada. Tínhamos a Ana Sofia, o anjinho da turma, a rapariga bonita, inteligente, olhinho azul, ar angelical, a minha paixão nos primeiros anos de instrução, andava sempre com a Sandra, outra rapariga muito inteligente.
Lembro-me agora de tanta coisa desses tempos, de levar carrinhos e Transformers para a escola para brincar com os colegas, de jogar futebol, de jogar ao mata, à apanhada, a vários jogos, como a mamã dá licença, ao jogo do lenço, cabra cega (não confundir com a professora de educação física que nos cravava as unhas pejadas de cheiro a tabaco nas orelhas), ao stop, ao macaquinho do chinês (e lá sou eu racista de novo), jogar à macaca, aos berlindes, ao pião, à versão modificada da apanha em que se juntava uma catrafada de apalpadelas, dava tempo para tudo, eram bons tempos.
Preocupações era coisa que não havia. Saudades de subir a uma cadeira para chegar ao negro quadro feito de xisto, pegar no giz, escrever alguma coisa, se alguém falhava levava com a régua na palma da mão, quanto maior o erro ou asneira, ia mesmo nos canhotos, aos betinhos era com o apagador na cabeça.
Saudades daqueles tempos, sem preocupações, sem responsabilidades, sem pensamentos para além da pura diversão e bem estar.
A liberdade, nunca pura mas sempre presente, aproveitada ao máximo, até ao expoente da loucura que era subir a uma árvore e lixar uma colméia de abelhas que depois nos perseguiu para a sala, ai é que foi a balburdia total.
O meu único problema era não poder ter a minha família ali na escola, ali eu reinava, era feliz, brincava, ria, pura felicidade irrefletida, o meu único problema era a falta que sentia da minha mãe, lembro-me de um dia ver a minha mãe a cortar o cabelo, e fui ao lavatório recolhi umas madeixas e guardei dentro de um lenço, levei para a escola sentei-me começou a aula da primeira classe, estávamos a aprender a fazer os m’s, e a professora pediu para desenhar ondas, eu fiz o sol, a ilha e a palmeira, estúpido, mas abri o lenço e pousei os cabelos na mesa para me sentir mais perto da minha mãe, nisto de repente a Ana Sofia sentou-se mesmo ao meu lado e soprou os cabelos para o chão de madeira negra como ébano, e perguntou como é que aquilo podia estar tão sujo que já tinha cabelos nas carteiras.
Sinceramente fiquei calado, mas naquele momento apeteceu levar a mão à testa, à minha e à dela. Há momentos que nunca esqueço, por muito pequeno que fosse, tal como não me esqueço de ter 2 a 3 anos e fugir para o meio da rua saindo a correr da creche da Cegonha, um belo infantário no Bairro do Hospital.
Tanta coisa na memória, tanto momento bom a recordar, tenho pena de não poder voltar a viver momentos desses, mas fico igualmente feliz por alguns que vivo hoje, hoje tenho histórias muito mais mirabolantes para contar com os bons amigos que tenho.
Foi bom recordar.