Acho que nunca tive o direito de carregar alguém com o que sinto, nunca me senti com moral para atormentar alguém com o que me atormenta a mim, nunca senti que devia ou tinha a liberdade de partilhar o meu estado com alguém, de perturbar os outros com os meus problemas, ou com o meu estado de espírito.
Nunca abri os meus sentimentos em pleno, nem para aqueles que mais me dizem, porque sempre achei que os meus fardos, devo ser eu a carregar.
Tenho toda a confiança, e sinto todo o amor suficiente para partilhar as minhas dores e problemas, apenas nunca achei que devesse suportar tais encargos nos outros, dai dar primazia ao sofrimento em silêncio, responsabilizando-me pelas minhas opções que tomo ao longo da vida, assumindo os meus erros, falhanços e tristezas.
Nunca me senti especial ou mais que os outros, não acredito que tenha algo que me distinga enquanto ser humano, nunca me achei digno de ser admirado pelo que fosse, nunca tive pretensões a qualquer tipo de tratamento fora do normal, pode ser a fraca auto estima ou se calhar tenho uma fé profunda que não sou mais do que qualquer ser normal.
Normalmente sou um animal que quando ferido mantenho o silêncio, guardo no fundo o que me custa, e pago cedo avançando com a vida tentando ignorar os meus tormentos.
Acho que sou a pior pessoa que se pode magoar, porque sou fraco, no fundo tudo se resume a esse ponto. Sou dono de um espírito que nunca se desenvolveu em forte, de uma mentalidade que não se consolidou em razão, e de um coração que sente qualquer insignificante pedrada.
Eu nem tenho a plena sensação do que escrevo, não tenho em minha posse uma certeza do que sou ou aquilo que devia ser, do que acho ou devia achar.
Apenas sou capaz de debitar o que sinto, como se fosse um grito de revolta encarcerado faz demasiado tempo.
Sou aquilo que não queria ser, tenho muitas coisas que desprezo, uma delas é o meu modo de sofrer. Guardo em mim e não esqueço, acumulo, junto e choro, deixo sentir a mágoa até ao ponto em que ela já não tem escape possível.
O maior problema nem será a minha susceptibilidade, porque dizendo a verdade sou um murro apenas penetrável por uns quantos, não é qualquer um que me deita abaixo, não é qualquer pessoa que faz com que eu avalie cada palavra que me dirigem, só as pessoas mais que importantes é que me podem magoar com palavras, e nesse ponto sou inflexível, sou mole por dentro e rijo por fora, nem todos me magoam.
Sempre tive visões muito claras quanto a certos pontos da minha vida, adoro os meus amigos e em muitos deles vejo o sangue do meu sangue, e principalmente sou apaixonado pela minha família, ao ponto de dizer sem hipocrisias e com toda a naturalidade, que a minha família é mais importante que a minha vida.
Sou uma pessoa que nunca viveu para si mesma, e tem dificuldades em acreditar numa vida com o centro numa esfera pessoal, a minha vida, a minha razão de viver, o que me mantém ligado são as pessoas que eu amo, principalmente a minha família.
A minha família é a única a possuir a chave para todo o meu ser, só a minha família é capaz de provocar certas reacções, só a minha família tem direito ao meu coração por inteiro, mais ninguém.
Quando a minha família é mais do que tudo neste mundo para mim, tenho dificuldade em compreender o que sou para eles.
Custa-me sentir magoado com alguém por quem daria a vida sem hesitar por um milésimo de segundo, mas a verdade é que é uma mágoa que marca profundamente.
São concepções diferentes, mas custa-me aceitar que se magoe alguém de maneira gratuita, muito menos alguém que nos é mais do que tudo, e apenas por isso sinto o que sinto.
Porque se tinha alguém de especial na minha vida eras tu, e só tu tinhas esse estatuto, só a ti amava-te de um modo muito único, e nunca de ti esperava ser magoado como me senti.
É um desabafo cobarde, é uma verdade tão nítida que até sinto o ridículo de ter de dizer tudo isto como se não fosse uma verdade materializada no normal senso da vida.
Não sei se alguma coisa que disse faz sentido, até ao nível do raciocínio me sinto travado, derrotado e postrado ao chão, foi demasiado violenta essa estocada, ao ponto de deixar-me perdido em tudo o que sinto.
2 comentários:
Sempre achei e continuo a achar que não devias guardar tudo para ti...já por várias vezes te tentei tirar tudo cá para fora, mas tu, teimozinho não deixas.
Sei o quão importante são para ti as pessoas da tua família. E também penso saber quem é delas a mais especial...e não caros leitores, não vos vou revelar quem é.
Por isso, tudo o que escreveste faz todo o sentido para mim, porque por motivos extremamente obscuros (sobre os quais já falámos horas e horas) eu sei como te sentes.
Vá, deixo-te um beijo para sorrires. *
……
Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o
impaciente herói, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a
jangada ao tronco de um roble, e saltou para o alto bordo que a espuma
envolvia. Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso!
Rápido, arremessando o manto, pulou através da espuma, correu pela areia,
e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da deusa. Ela segurou de leve
o seu ombro robusto:
- Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a
imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos...
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
- Oh deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela,
fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as
misérias - para a delícia das coisas imperfeitas!
A Perfeição
Eça de Queirós
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