Nunca pensei que duas linhas rectas paralelas, quase de braço dado, pudessem criar um ângulo de noventa graus, cada uma para seu lado.
Nunca pensei que numa noite de calor pudesse sentir um frio tão grande provocado pelo vazio.
Nunca pensei que dar um passo atrás numa longa caminhada pudesse ser tão insalubre para o esforço.
O problema foi que nunca pensei.
Jamais pedi tamanha dor provida de certeza de que teria de ser assim, nunca fiquei sem opções, mas nunca tive tanta dificuldade em ter de tomar uma opção, entre a vida que sempre quis ter, e a incerteza de que a poderia mesmo ter.
Vivi um sonho onde era feliz, com a intenção de não acordar, mas sabendo que tinha hora para despertar, só pensei que a hora fosse outra.
Foram-se os sonhos, perderam-se as vontades, mas algo me impele de ficar por aqui.
Sei que jamais vou ser feliz, pelo menos como queria, sei que jamais vou sonhar sem estar acordado, com medo de cair na doçura do embale do sono sempre que sentia as tuas mãos no meu rosto.
Perdi aquele calor, perdi toda a luz, a escuridão é bem mais fria e vazia, e até aperta o coração, mas nem por isso ele deixa de bater.
Ainda estou abalado pela descoberta de que não existe o nunca e o sempre, nem estes dois nunca se conheceram, e eu pensava que os conhecia a ambos.
Por agora apesar de triste sinto que ainda não entrei na fase do desespero, e sei que é possível não entrar, mas também sinto que a alma se escondeu no breu.
Anseio pelo dia em que o sol para mim volta a brilhar, não no sentido em que brilha todos os dias para toda a gente, mas sentir aquele toque especifico que tanta força me dava.
Perdi o rumo, e algum sentido da vida, mas sinto que não posso, não devo, nem quero abdicar dela, mas de momento perdi o rasto ao seu sentido.
Viver a vida sem rumo, também é viver, apenas não tenho aquele porto seguro onde me podia abrigar de todos os males do mundo, e de todos os males do mundo o meu não é com certeza o pior, mas a mim é o que mais me diz.
Sinto que o meu coração rejeitou o meu corpo pela atitude tomada pela razão, e se o coração e mente não se entendem significa período de paz, nem que seja na penumbra da tristeza, o coração sofre, a mente sofre, mas ao menos existe consenso.
Foi uma escolha que se fez, não a queria ter feito, mas não me deste hipótese entre viver no medo ou na dor, as duas juntas é que não.
Não deixa de ser estranho, sempre fui muito reservado sobre a minha vida pessoal, sempre quis te resguardar, e a mim próprio, nunca mostrei o que senti a ninguém a não ser a ti, espero que por muito estúpido que seja esse acto tenhas tido apreço nesse gesto de ter confiado em ti, mesmo depois de me desiludires, ainda agora confio, apenas tenho medo de o fazer.
E foi assim que se contou uma história, e nunca ouvi falar de uma história sem fim, só esperava que fosse mais longa a prosa dessa história que não começou por acaso, se fomos escolhidos como personagens dessa história foi por alguma razão, só tenho pena que tenhas saltado logo para o fim sem ler o que vinha a meio.
1 comentário:
Não sei quem és, mas a maneira como escreves é extraordinária. Tropecei ao acaso aqui e li aquilo que sinto, que quero dizer e não posso porque não me querem ouvir.
Obrigada
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